sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O sentido do termo vingança na Bíblia


Tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos, encontramos muitas passagens que falam de vingança como algo positivo, notadamente as passagens que se referem à vingança divina – fato que, às vezes, causa uma certa estranheza no leitor hodierno da Bíblia. Isso porque o termo vingança traz à nossa mente naturalmente a idéia de algo que não tem um valor ético louvável. Como, então, entender essa discrepância?
Como entender o fato de que, diferentemente do que aprendemos e está incutido em nossa mente, o termo vingança denota, em boa parte do texto bíblico, exatamente um valor correto? Por que, na maioria das vezes em que surge no texto sagrado, ele está carregado de um valor ético positivo e não de um sentido reprovável? Será que, no original das Sagradas Escrituras, os termos que ali aparecem para se referir à vingança, na verdade, não tratam exatamente de vingança?
A resposta é não. Por exemplo: o termo vingança aparece cerca de 70 vezes no Antigo Testamento e em todas elas o vocábulo usado no original é nãqam, que significa exatamente... vingança!
Como, então, é possível um sentido diverso?
O problema é que tem havido, nos últimos anos, principalmente depois que mergulhamos na "Era do Império do Politicamente Correto”, um mal-entendido em relação ao sentido e ao uso originais do termo vingança. A questão é que, eclipsados pela influência da onda do "politicamente correto", não percebemos que o termo vingança, em si mesmo, originalmente, não denota nenhum valor ético negativo. Sim, porque vingança, em si, nada mais é do que castigar ou punir alguém de quem recebemos uma lesão real, seja ela uma lesão em palavras ou atos. Lembremos que se não há lesão real, não há razão de ser para a vingança. Vingar é literalmente defender, indenizar, compensar, desafrontar, isto é, responder justa e proporcionalmente a uma lesão genuína. Em suma: vingar é fazer justiça. Quando um criminoso é condenado pelo seu crime, o lesado e a sociedade são vingados.
Entendido isso, vingança só se torna um mal quando é (1) fruto de um senso distorcido de justiça, (2) aplicada desproporcionalmente e (3) aplicada pelos meios e pelas pessoas erradas.
Em nossos dias, porém, o termo vingança é usado majoritariamente para designar a idéia de fazer justiça pelas próprias mãos, sem um julgamento justo e sem regras que respeitem os direitos do acusado. Ora, assim como toda a sociedade ocidental, a Bíblia condena esse tipo de coisa. Aliás, a sociedade ocidental condena esse tipo de vingança porque seu sistema jurídico foi erigido sobre os princípios judaico-cristãos.
Em síntese: o problema não está no uso do termo vingança na Bíblia, mas naquilo que aprendemos a visualizar quando ouvimos ou pensamos o termo vingança. A resistência que surge na nossa cabeça em relação ao uso desse termo se deve apenas à forma como o entendemos hoje. Quando lemos "vingança", imaginamos mero revanchismo, resposta ilegal ou desproporcional a um ataque justo ou injusto que sofremos; isto é, retribuir uma maldade com outra maldade. Mas, na maioria esmagadora das vezes em que o termo aparece na Bíblia, o sentido não é esse. Nesses casos, fala-se de vingança no seu sentido correto, primário, que é fazer justiça.
Em Apocalipse 6.10, por exemplo, vingança é vingança mesmo, a ser executada pelo Justo Juiz – Deus – como Ele promete.
Porém, por outro lado, é importante frisar duas coisas.
Em primeiro lugar, a Bíblia, de forma geral, desestimula os servos de Deus a buscarem vingança aqui na Terra. Em lugar disso, estimula os servos de Deus a exercerem o poder do perdão – e isso não só no Novo Testamento, mas no Antigo também (Lv 19.18). Isso porque o perdão exerce um poder transformador enorme tanto sobre a vida de quem é o ofendido quanto de quem é o ofensor. Sobre o ofendido, tem o poder de curar a ferida aberta; e em relação ao ofensor, tem o poder de fazer com que reflita sobre seus atos, caia em si, arrependa-se e mude seu comportamento. O amor constrange. O amor transforma. Mas, para isso, deve ser um perdão, um amor, não só em palavras, mas também em obras (Rm 12.20), o que só é possível pela ação do Espírito Santo em nossas vidas (Rm 5.5).
Por outro lado, em segundo lugar, quando Deus diz para seus filhos preferirem sofrer o dano em vez de procurar repará-lo, não está desautorizando de forma geral a reparação legal, muito menos a reparação via justiça secular em casos graves, mas querendo dizer que nunca devemos fazer justiça com as nossas próprias mãos e que devemos relevar as injustiças e maus tratamentos do cotidiano, que sofremos eventualmente no dia-a-dia. E mais: que devemos também confiar que o Senhor, que é o Justo Juiz, e que também foi ofendido por aquela ofensa ou ataque a seus filhos, irá vingar (julgar, compensar, reparar, punir, castigar) o mal feito a seus filhos.
Há também o fato, frisado nas Sagradas Escrituras, de que, independente de a punição secular ser dada ou não ao ofensor, o cristão ofendido deve sempre perdoar o ofensor e não retribuir o crime com outro crime, a maldade com outra maldade, o erro com o erro. Não retribuir o mal com o mal não quer dizer que, cometido um crime contra mim, minha família ou próximos, não devo denunciar o crime para que o criminoso seja preso e condenado pelos seus crimes. Não retribuir o mal com o mal quer dizer: “Não haja com ele da mesma forma que ele agiu com você. Não retribua maldade com maldade, injustiça com injustiça. E, apesar de tudo, não guarde mágoa ou rancor, mas perdoe e siga em frente”.

A vingança divina

Como já ressaltamos, quando a Bíblia usa o termo vingança, inclusive em relação a Deus, trata-se de vingança mesmo, porém não em sua forma equivocada, mas na forma correta: fazer justiça.
Inclusive, entendida à luz da santidade e justiça divinas, e contrabalançada com a misericórdia, a vingança de Deus é mais do que justa – é moralmente uma necessidade.
A vingança de Deus é uma atitude moralmente correta, pois Ele se vinga como paladino do Seu povo (Sl 94) e para castigar quem rompe Sua aliança (Lv 26.24,25), visando a estes um fim proveitoso (Hb 12.5 e Sl 119.71). Além do mais, Deus não é um Papai Noel, passando a mão na cabeça de todos. Por outro lado, nunca devemos olhar para a vingança de Deus deixando de lado Seu propósito de manifestar misericórdia. Enfatiza o apóstolo Paulo que devemos considerar tanto a bondade como a severidade de Deus (Rm 11.22). Como afirmou certo teólogo, “Ele é o Deus da ira a fim de que sua misericórdia faça sentido”. Deus não é um papai bonachão, mas também não é um déspota iracundo. Deus é paciente, Ele é "tardio em irar-se" (Nm 9.17; Sl 103.5; 145.8; e Jn 4.2) e longânimo (Êx 34.6).
A ira divina não é como a humana, posto que não leva Deus a ações insensatas, impulsivas ou imorais. Lembremos que o Justo Juiz é sábio e onisciente, justo e santo. Sua ira é uma manifestação de seu caráter, portanto é uma ira justa. O teólogo britânico James Packer lembra que “a ira de Deus é sempre judicial. A essência da ação de Deus na ira é dar aos homens aquilo que escolheram. Os homens é que escolhem a ira de Deus”.
Deus, o perfeito Juiz, retribui o bem com o bem e o mal com o mal. Ele estaria contrariando seu caráter de santidade e justiça caso permitisse que o pecado e a rebeldia ficassem sem castigo. “Então, por que às vezes Ele se demora em executar seu juízo?” Essa é uma outra questão. Não temos certeza de quando Ele executará, mas que o fará, sim. Além disso, o Juízo Final nada mais é que a execução final e definitiva do juízo de Deus sobre os ímpios.

A vingança por mãos humanas

Por fim, considerarei agora, mais detidamente, a vingança por mãos humanas.
Interessante que daquelas cerca de 70 vezes a qual nos referimos em que o vocábulo nãqam (vingança) aparece no Antigo Testamento, na maioria delas o homem é a causa secundária. Deus é que aparece como a origem (Ez 25.14; Js 10.13; Dt 32.35,41 e Nm 31.2-3). A Bíblia adverte que os homens não podem tomar vingança das próprias mãos (Lv 19.18; Dt 32.25). O próprio Deus (Dt 32.35) e Paulo (Rm 12.19) advertem contra termos um espírito vingador.
Por causa de versos que falam de um ódio justo contra os inimigos de Deus, tendemos a achar que o Antigo Testamento ensina que sempre se deve odiar os inimigos. Paulo, ao citar Provérbios 25.21-22 (Rm 12.20), mostra o contrário. Os antigos hebreus, como muitos cristãos hoje, aplicaram erradamente a doutrina da vingança divina, usando-a como desculpa para alimentar seu forte ressentimento. Jesus, em Mateus 5.43-45, 19.19 e Marcos 12.13, está referendando Levítico 19.18.
Quanto à instituição do vingador de sangue, durante a implementação da Lei Mosaica, era algo de natureza estritamente legal que supria uma necessidade de justiça numa sociedade tribal. O olho por olho não era para ser praticado por particulares, mas só depois de um processo judicial e com a sanção divina. As cidades de refúgio representaram um aperfeiçoamento, proporcionando justiça em casos de homicídio involuntário (Nm 35.9-28).
Ou seja, a Bíblia não condena o fazer justiça, mas apenas (1) o fazer justiça pelas próprias mãos, (2) sem ser pelas vias legais (3) e, mesmo que seja pelas vias legais, atribuindo ao culpado uma punição desproporcional. Mas, não só isso: exorta-nos a não guardarmos mágoa ou rancor, mas perdoarmos e seguirmos em frente.
(A pedido de alguns leitores, segue bibliografia que serviu de base para o conteúdo desta reflexão: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, vários autores; O Conhecimento de Deus, James Iann Packer; Os Atributos de Deus, A.W.Pink; e o artigo A Vingança e a Bíblia, de minha autoria, publicado no jornal Mensageiro da Paz de outubro de 2001).

25 comentários:

Milton Adones Vieira disse...

A Paz do Senhor, amado. Tenho lido seus comentários e aprendido e me edificado. Que Deus continue lhe usando para sua glória. Se não for problema tenho divulgado seu blog no meu blog, junto outros escritores da CPAD, e BLOGS QUE LEIO E RECOMENDO. Dá uma olhadinha lá, ficarei honrado. Graça e paz.

Anônimo disse...

É irmão Silas, não devemos retribuir mal com outro mal de maneira criminosa. Perdoar não significa ser covarde, fugir, ou algo assim. Devemos sim recorrer a justiça quando nos é por direito, lembrando sempre que nosso Deus é o juiz dos juízes. Como sempre, seus artigos vem baseados na verdade da palavra de Deus.

A paz do Senhor

Júnior

Silas Daniel disse...

Caro Milton, a Paz do Senhor!

Claro que não há problema nenhum em divulgar o "Verba Volant Scripta Manent". Eu que agradeço! E que bom saber que os textos deste blog têm sido bênção para sua vida. Prometo fazer uma visita brevemente.

Abraço!

Silas Daniel disse...

Caro Junior,

É isso aí. Na horizontalidade dos nosos relacionamentos, como disse Jesus, devemos ser "simples como as pombas e prudentes como as serpentes"; e, como ressalta o apóstolo Paulo, na nossa relação vertical, isto é, com Deus, nunca devemos perder de vista nem a bondade nem a severidade divinas (Rm 11.22). O Cordeiro é o Leão; o Leão é o Cordeiro!

Abraço!

Paulo Silvano disse...

Caro Pr. Silas,

Desculpe-me por acabar provocando-o a tecer longo comentário no blog Teologia Pentecostal, quando minha principal intenção foi felicitar o Gutierres Siqueira. Contudo, o meu objetivo quanto a referência feita lá e noutros lugares da blogosfera - como também fiz recentemente no Blog do pr. Altair, comentando o ministério do saudoso Adriano Nobre - é aproveitar as oportunidades que os nossos blogs nos oferecem para debatermos temas de interesse mútuo, ainda quando não haja conformidade de sentimentos.
Como pentecostais discordamos em muito, mas oro para não nos falte misericórdia ao coração.

Um abraço,
Paulo Silvano

Silas Daniel disse...

Caro pastor Silvano,
a Paz do Senhor!

Desculpas aceitas. Como disse lá, no blog do Gutierres, sei que aquilo foi só um arroubo do irmão. Está mais do que perdoado.

Sobre o caso da exclusão do irmão Adriano Nobre da Assembléia de Deus em 1933, posso te adiantar que não foi por calvinismo. Como já escrevei em "História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil", Manoel Higino e seu irmão saíram, sim, da AD por seguirem o calvinismo (linha doutrinária que você e todos os leitores deste blog sabem que não sigo, conquanto respeite); já Nobre, não. O caso dele era sério mesmo.

Quanto ao "discordar com misericórdia no coração" - o que chamo de "discordar, mas sem esquecer o amor" (creio que é a isso que o irmão quis se referir) -, o irmão mesmo sabe que sempre tenho procurado prezar por isso. Tanto que, embora já tenhamos discordado pública e profundamente na blogosfera em relação a vários pontos, e muitas vezes em diálogos calorosos neste blog, não deixei, depois disso, de tratar o irmão com lhaneza e respeito. Todos que passam por aqui são testemunhas disso.

E também não quero que o irmão, depois deste episódio, quando assuntos sobre o quais já debatemos (ou que estão a eles relacionados) serem evocados eventualmente em blogs de amigos comuns, se sinta constrangido ao manifestar sua opinião pessoal a respeito desses temas, com receio de que, de repente, ao manifestar-se, eu interprete que, por trás de seu comentário, você esteja intentando atingir-me. Nada disso!

Não quero que seja agora tomado por receios do tipo: "Ih, se eu falar disso, que já foi tema de discussão entre eu e o pastor Silas, ele pode pensar que estou querendo mandar uma indireta para ele...". Não! Pode ficar tranquilo. Não penso dessa forma.

Aliás, particularmente penso que o irmão não será tomado por esse receio daqui em diante (como o irmão bem disse, blogosfera é também para "debatermos temas de interesse mútuo"), mas, de qualquer forma, faço questão de enfatizar isso aqui para deixar bem claro que minha crítica obviamente não é em relação à manifestação de discordância em blog de amigos (Longe de mim isso! É por demais necessário conhecermos a posição sincera das pessoas que debatem conosco sobre um assunto, seja ela divergente ou não!), mas é uma crítica apenas ao ataque ressentido à pessoa. Inclusive, não acredito que necessariamente não haja nenhuma comunhão de sentimentos entre nós como o irmão sugere (embora, nesse caso específico no blog do Gutierres, não houve), mas sei que nossa divergência é de posicionamentos, isso posso afirmar com certeza.

Enfim, o irmão pode ter certeza que, embora continuemos divergindo, a via-de-mão-dupla-da-cordialidade-e-do-amor continuará sempre aberta.

Mais uma vez, receba meu abraço!

Rilson disse...

Você acaba de ganhar o prêmio Seleção de Ouro do MaisBlog,
para você pegar o selo acesse:
grupomais.blogspot.com
e pege-o no fim da página!!

Cristiano Santana disse...

Realmente é um equívoco afirmar que Deus fomenta a retaliação.

O princípio de que não devemos fazer justiça com as próprias mãos realmente permeia todas as Escrituras. A única exceção é a figura do vingador de sangue, mas deve-se salientar que até esse vingador sofria as limitações da lei civil que instituiu cidades de refúgio para aqueles que tinham cometido homicídio acidental, involuntário, equivalente ao que a lei penal chama hoje de homicídio culposo.

Entretanto, é evidente que o homem, por sua própria natureza, tem manifestado forte oposição a esse princípio. Isso pode ser constatado na literatura, na história, no cinema, na Bíblia, no sistema judicial americano e, atualmente, no próprio contexto evangélico.

Literatura: Um dos casos clássicos é de Aquiles. Ele vingou de uma forma terrível quando seu primo, Pátroclo, que havia se disfarçado com as suas vestes, fingiu ser ele, e foi morto pela lança de Heitor, bravo herói troiano. No embate entre Aquiles e Heitor, o grego se saiu melhor e matou o príncipe de Tróia, arrastando por volta da cidade por tres vezes, amarrado a seu carro. A vingança é um tema constante na literatura.

OUtro forte exemplo do uso dessa temática é o romance "O Conde de Monte Cristo" (The Count of Monte Cristo) é a clássica história de Alexandre Dumas sobre um jovem inocente que errôneamente, mas deliberadamente, é preso, e de sua brilhante estratégia para se vingar daqueles que o traíram. O jovem e destemido marinheiro Edmond Dantes é um rapaz honesto e sincero, cuja vida pacífica e planos de se casar com a linda Mercedes são abruptamente destruídos quando Fernand, seu melhor amigo, que deseja Mercedes para ele, o trai. Com uma sentença fraudulenta para cumprir na infame prisão da ilha do Castelo de If, Edmond se vê aprisionado em um pesadelo que dura 13 anos.

Assombrado pelo curso que tomou sua vida, com o passar do tempo ele abandona tudo que sempre acreditou sobre o que é certo e errado, e se consume por pensamentos de vingança contra aqueles que o traíram. Com a ajuda de outro preso, Dantes planeja e é bem-sucedido em sua missão de escapar da prisão e se transforma no misterioso e riquíssimo Conde de Monte Cristo.

Com uma astúcia cruel, ele se envolve com a nobreza francesa e sistematicamente destrói os homens que o manipularam e o aprisionaram.

Cinema: Quem já viu Kill Bill, por exemplo, tem de se controlar para não sentir na boca o gosto da vingança. O filme nos tráz uma mulher que busca vingar-se de um grupo de pessoas, marcando-as em uma lista e matando um por um. É uma obra que nos seduz e tenta fazer emergir em nós um sentimento de aprovação em relação aos assassinatos cometido por Beatrix Kidd (Uma Thurman).

História: O conflito secular entre os árabes e israelenses é um exemplo impressionante. Quando parece estar tudo em paz ocorre um ataque de um dos lados e esse, por sua vez, desencadeia um ciclo de retaliações recíprocas que demora a ser controlado.

Justiça Norte-Americana: Algo curioso é o fato de os Estados Unidos permitirem que parentes assistam à execução de criminosos que mataram seus entes queridos. Por eles têm de assistir? Fica claro aqui a intenção do Estado de alimentar o sentimento de vingança. Acho que isso não deveria ser permitido.

Bíblia: Um dos mais marcantes casos de vingança na Bíblia é aquele que envolveu a violação de Diná. Quando Diná tinha cerca de seis anos de idade, Jacó passou a habitar em Canaã, na cidade de Sucote. Diná havia nascido em Harã, quando seu pai ali morava. (Génesis 31:41) Perto do acampamento de Jacó e sua família ficava a cidade de Siquém. Era para lá que Diná se dirigia frequentemente para visitar as moças cananéias locais, que não partilhavam dos costumes religiosos dos descendentes de Abraão. Durante uma dessas visitas regulares, Siquém, filho de Hamor, o maioral, violou Diná. Siquém apaixonou-se por Diná e esta ficou em casa dele até que Simeão e Levi decidiram vingar sua irmã. Com um plano ardiloso, eles convenceram os homens de Siquém a efetuarem a circuncisão em troca da mão de Diná em casamento. Daí, enquanto os habitantes da cidade ainda estavam em convalescença, os dois irmãos atacaram a cidade e mataram todos os homens, incluindo Hamor e Siquém.

Evangélicos: Percebo que grande parte dos evangélicos, atualmente, rejeita o princípio da não retaliação, se não explícitamente, pelo menos tacitamente. Fico assombrado quando em um determinado culto ouço testemunhos de "irmãos" se vangloriando de que Deus matou com um cãncer ou atropelado um determinado inimigo que o perseguia. Percebo o júbilo na face deles enquanto contam o caso. Esquecem o exemplo de Davi que lamentou profundamente quando soube da morte de Saul. Esquecem do mandamento que diz: "se o teu inimigo tiver fome dá-lhe de comer, se tive sede dá-lhe de beber". Esquecem que devemos abençoar e não maldizer aos nossos inimigos. Um dos motivos que me levam a acreditar que Cristo realmente existiu é que ninguém poderia inventá-lo, pois seus ensinamentos se opõem completamente à natureza humana, que é inerentemente vingativa.


Infelizmente, prezado irmão, o ensinamento sobre deixar a vingança para Deus - seja por ato próprio dele ou através do Estado - é considerado uma piada de mau gosto pela maioria das pessoas, inclusive crentes. Mais essa forte contradição entre o conceito divino e o humano é uma forte evidência de que o mandamento que está nas Escrituras é de origem celestial.

Cristiano Santana disse...

Sobre o extenso comentário que postei acima, acabei esquecendo de me identificar:


Cristiano Santana
CADESC - Catedral das Assembléias de Deus em Santa Cruz - Cong. Peniel

http://cristisantana.blogspot.com

Ana Lúcia Louback disse...

Estimado Pr. Silas,

Muito bom esse texto. Esclarecedor e sem dúvida, biblico. Como é bom ler e estudar textos, mensagens onde os escritores prezam pelos princípios bíblicos. Fico feliz com sua posição, porque através desse blog e de suas obras muitos estão sendo "vacinados" contra as ameaças modernistas. A verdade é sempre um antídoto contra o veneno do engano.

Em relação à temática acima, posso ilustrar com um exemplo vivo. Nosso amigo, Pr. Jeremias, mora em New York. Seu filho, Gláucio, é um servo de Deus fiel. Ele tem uma empresa de construção de móveis e pisos em madeira da melhor qualidade. Inclusive a Madona e outros famosos são seus clientes. Certo dia, ao negociar uma reforma total em uma casa, cujo custo seria milhões de dólares, ele planejou, fez projetos, comprou o material necessário. Porém, quando foi começar a obra, depois de ter investido tempo e dinheiro nela, o cliente "cancelou" tudo. E o prejuízo foi imenso.

Bem, ele sofreu muito, mas decidiu não agir por conta própria. Nem mesmo recorrer à justiça, como era seu direito. Começou a orar e entregar aquela pessoa nas mãos do Senhor a fim de Deus tocar naquela pessoa e que ela pagasse o prejuízo. Enfim, depois de alguns meses de oração,chega em seu escritório aquele antigo cliente. Era um judeu e sua esposa. Eles disseram que queriam pagar tudo, pois Deus incomodou tanto e lhes deu um sonho, ordenando-lhes pagar tudo ao Seu servo, Gláucio. E, além do grande temor que se apossou do casal, eles passaram a amar o jovem Gláucio. Como eram ricos e possuíam prédios e imóveis, passaram a lhe confiar a decoração de seus imóveis.

Esse foi o resultado. Deixar com o Senhor a "vingança". Eu poderia contar outras lindas experiências, no sentido de demonstrar essa grande verdade: A Deus pertence a vingança. E sua vingança não desconhece a misericórdia e a justiça como foi dito.

Parabéns pela mensagem!

A Paz. Ana Lúcia

Anônimo disse...

Paz do Senhor Pastor Silas! Como tem passado? Sei que deves estar ocupado e quando tiver um tempo, veja as mensagens que mandei para o irmão. Deus abençoe.

Eduardo França de Oliveira.

Silas Daniel disse...

Caro Eduardo e queridos leitores deste blog, a Paz do Senhor!

Como devem ter percebido, estou um pouco ausente deste blog desde o início da semana. Motivo: esta semana inteira é de reuniões de trabalho e também de provas na faculdade, por isso tenho apenas limitado-me a liberar os comentários, adiando para o final de semana a minha interação com eles. Com os e-mails, a mesma demora - ainda falta responder a dezenas deles. Pretendo até sábado (ou domingo) atualizar tudo aqui e na caixa de e-mails.

Eduardo, vou dar uma olhada lá hoje ainda!

Abraços a todos!

Victor Leonardo Barbosa disse...

Olá pastor Silas, a Paz do Senhor.

Primeiramente venho lhe agradecer por ter colocado o blog Geração que Lamba entre seus favoritos. É uma grande honra. Fora isso, gostaria de lhe parabenizar pelo artigo, muito importante para entendermos o sentido verdadeiro sobre vingança.

Um grande abraço e Paz do Senhor!!!

Silas Daniel disse...

Caro Rilson,

Obrigado pelo apreço e motivação, e um abraço aos irmãos de Pernambuco, minha terra natal.

Silas Daniel disse...

Caro Cristiano, a Paz do Senhor!

Suas colocações contextualizadoras enriqueceram mais ainda nossa reflexão sobre o assunto. Só uma pequena observação: o conflito entre Israel e árabes surgiu e continua existindo por fatores que estão muito além do mero revanchismo, embora este sentimento tenha sido intensamente alimentado durante as últimas décadas (principalmente por um dos lados), tornando-se combustível a mais para o conflito, como o irmão bem frisa - mas, isso já é tema para uma outra postagem.

Abraço (estendido aos amados irmãos da AD em Santa Cruz)!

Silas Daniel disse...

Cara irmã Ana,

Obrigado por nos brindar com edificante testemunho!

Abraço!

Silas Daniel disse...

Caro Victor, a Paz do Senhor!

Para mim é um prazer incluí-los aqui! Só não o fiz antes porque faltava-me tempo de atualizar as seções do blog.

Como os leitores devem ter percebido, neste pouco mais de um ano de existência do "Verba Volant Scripta Manent", o pouco de tempo que me sobrava para ele era usado só para atualizar as postagens e interagir com os comentários dos leitores, tarefas básicas sem as quais qualquer blog não seria. Além do mais, quando finalmente surgia um "tempinho", acabava fazendo outra coisa, porque não queria parar para inserir só alguns links. Queria inserir todos os que faltavam de uma vez só. Assim, fui protelando as atualizações. Basta lembrar que, até semana passada, a lista de favoritos do "Verba Volant Scripta Manent" ainda era a mesma do ano passado, desde quando este blog foi criado! E também não existia uma seção de links internacionais favoritos, o que só pude ter tempo para fazer agora.

Fora isso, ainda há muitos recursos que gostaria de usar no blog, mas o tal problema com o tempo ainda é um entrave. Porém, pretendo, se Deus permitir, na virada para o novo ano, dedicar parte de um dia só para inserir novos recursos no "Verba Volant Scripta Manent". Aos poucos, a gente chega lá.

Abraço!

Levi Bronzeado disse...

Prezado Silas


Após ler o seu texto que explora o sentimento de Vingança à luz das Escrituras Sagradas, comecei a refletir sobre a vingança em contrastre com a Graça, isto é a vingança à luz dos Evangelhos.

Gostaria que o Sr. explicitasse sobre o caso de Cristo, que foi um homem como nós sujeito as mesmas tentações. Será, que como homem não passou pela Sua cabeça o sentimento de vingança com relação a seus algozes que culminaram por crucificá-Lo?

A minha impressão é que a vingança não encontrou ninho no coração de Cristo. Pois admitir tal afetividade, estaríamos logicamente colocando –O no lugar de um “ressentido”. Esse ressentimento sutil que tanto a gente racionaliza dessa forma: “Só quando ele me perder é que vai me dar valor”, não pode passar pelo coração de quem realmente perdoa como Cristo perdoou. Não há lugar para o sentimento de vingança quando se perdoa dessa forma: “ Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”

È por isso que penso que à luz dos evangelhos não há lugar para a vingança. Creio que não há lugar nos evangelhos para que se contemple o ressentido. O ressentido é alguém incapaz de se esquecer ou de perdoar, é um que não quer deixar barato o mal que o vitimou. Ele não luta para recuperar aquilo que cedeu, e sim para que o outro reconheça o mal que lhe fez. No entanto, não espera obter reparação: o que ele quer é uma espécie de vingança imaginária.
A sociedade atual tem sacralizado esse tipo de vingança sob o nome de justiça, como se o seu desiderato consistisse apenas em cobrar uma dívida ao preço do sofrimento do credor.

Aqui fico aguardando o seu ponto de vista à respeito dessa minha inserção que aponta para uma ligação íntima entre o desejo de vingança e o ressentimento.

Cordialmente,
Levi B. Santos

Gutierres Siqueira disse...

Pastor Silas, a paz do Senhor!

Lendo o seu texto vemos com as Sagradas Escrituras tornaram a nossa sociedade algo suportável. O que seria desse mundo se não fosse os princípios bíblicos? Jamais teríamos direitos humanos, respeito à individualidade e senso de um justo juízo.

Graça ao Senhor pela sua Palavra!

Silas Daniel disse...

Caro Levi,

Sem dúvida alguma, a Bíblia é contra o guardar ressentimentos, mas ela não vê a existência da justiça secular ou todo tipo de uso da justiça secular para a reparação de danos como a sacralização do ressentimento. As Sagradas Escrituras não vêem incompatibilidade entre uma coisa e a outra. Ou seja, o não guardar ressentimentos, frisado nas Escrituras, não significa que o cristão deva abandonar o uso da justiça secular em todas as situações de lesão a seus direitos, como se toda e qualquer reivindicação de direitos significasse sempre revanchismo.

A justiça secular ocidental (ou sistema legal ocidental de reparação de danos) é um sistema que, mesmo não sendo perfeito (posto que aplicado por seres humanos), deve receber todo o nosso apoio, pois constitui-se extremamente necessário à saúde da sociedade. Sistemas legais são extremamente necessários devido à contingência humana, sendo reconhecidos por Deus como importantíssimos. E a justiça secular, como a conhecemos hoje no Ocidente, foi inclusive erigida sobre os princípios judaico-cristãos, como já frisei.

Mesmo que em alguns países do Ocidente haja a influência do liberalismo na criação de novas leis que já nascem viciadas e também existam exageros como no caso mencionado pelo irmão Cristiano Santana em que alguns estados dos EUA permitem que parentes assistam à execução de criminosos que mataram seus entes queridos, os códigos legais ocidentais, de forma geral, refletem valores e um princípio de justiça que espelham sua raiz judaico-cristã. Neles se encontram, por exemplo, o direito de defesa, o amplo contraditório, a necessidade de provas, a prudência de não se dar uma pena exorbitante etc.

Sobre Jesus: em nenhum momento o Mestre condenou o uso da justiça secular para reivindicar direitos. Em uma parábola, por exemplo, Ele refere-se de forma positiva à atitude de uma viúva que reivindicou insistentemente seu direito diante de um juiz que se indispunha a fazer justiça (Lc 18.1-5).

Lembremo-nos também que o mesmo Jesus que disse “Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem” acerca daqueles que executavam a Sua morte sem estarem conscientes do que estavam fazendo é o mesmo que disse sobre os fariseus: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?” (Mt 23.33). Esses dois momentos (o do “...perdoa-os porque não sabem o que fazem” e o do “...como escapareis da condenação do inferno?”) não denotam um senso de justiça por parte do Mestre? Aos que não sabiam o que faziam, “perdoa-os”; aos que sabiam muito bem o que faziam e não queriam se arrepender, “...como escapareis da condenação do inferno?”.

Como disse Paulo: “Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus; para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a benignidade de Deus, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, também tu serás cortado” (Rm 11.22).

Além disso, o mesmo Jesus que é hoje nosso Advogado diante do Pai (1Jo 2.1,2) será Juiz de todos no final, no chamado Tribunal de Cristo e no Juízo Final. Ora, seriam o Tribunal de Cristo e o Juízo Final manifestações de “ressentimento” por parte de Jesus? Claro que não. Se Deus, que é Santo, permitisse ao final que o pecado e a rebeldia ficassem sem castigo, se Ele ao final não retribuí-se o bem com o bem e o mal com o mal, estaria contrariando Seu caráter de santidade e justiça.

Por fim, vale a pena lembrar que ser justo não é agir com revanchismo ou ressentimento, posto que a verdadeira justiça não deve ser baseada nos sentimentos, mas, acima de tudo, nos fatos em si. Não é à toa que, no sistema legal ocidental, quando o réu ou o lesado é alguém que tem algum parentesco ou proximidade afetiva com o juiz, este não pode julgar o caso. O juiz do caso é trocado. Justiça verdadeira não é um julgamento baseado em sentimentos, mas em fatos e obedecendo ao princípio da equidade. É verdade que, no caso de Deus, Ele é juiz e ofendido ao mesmo tempo, porém Ele também é onisciente, longânimo, santo e justo, e não pode contrariar o seu caráter, a sua essência, por isso Seu julgamento é correto e proporcional. Deus faz justiça.

Abraço!

Silas Daniel disse...

Caro Gutierres, a Paz do Senhor!

É isso mesmo. O que seria do mundo, o que seria da sociedade, sem a influência da Palavra de Deus? Nem todos estão conscientes dessa influência, ou mesmo quando se conscientizam dela, às vezes a desprezam, mas é ela que ainda mantém as coisas em ordem. Louvado seja o Senhor pela Sua Palavra!

Abraço!

Levi Bronzeado dos Santos disse...

Prezado irmão Silas


O tema “Vingança” é realmente empolgante, e eu pediria a sua paciência para dialogarmos mais sobre esse tão emblemático tópico.

Algo não mudou com o advento de Cristo com relação ao sentimento de vingança existente no Velho Testamento?

Será que Cristo aprovaria um irmão levar um outro às barras da Justiça, mesmo supondo que o mesmo está agindo com inteira razão?

Aproveito a ocasião para lhe narrar resumidamente um caso emblemático que aconteceu comigo, e foi parar na Justiça, e que merece uma reflexão aprofundada.

Como médico obstetra, fui responder na Justiça pela morte de um recém-nascido com grau intenso de prematuridade. Todos os cuidados tomados pela equipe de plantão não lograram êxito. A mãe, também uma crente, inconformada pela perda seu bebê, achou que eu tinha sido imprudente. Após várias idas e vindas ao foro, a justiça encerrou o caso, por não ter encontrado provas nem contra o Hospital, nem contra a minha equipe médica.

Mas, o que causou imenso espanto entre os advogados, promotores e juízes em uma das sessões, foi quando me dirigi a mãe e minha irmã em Cristo, saudando-a com a Paz do Senhor. A reação de todos na sala ecoou em uníssono: “E crente leva outro crente à Justiça?”. Um jurista quis por panos quentes, dizendo: “ Ah! Com certeza eles não são da mesma igreja”. “Infelizmente somos da mesma igreja (uma pentencostal)” ─ respondi.

O mais interessante, é que tanto a minha esposa, quanto a mãe acusadora estavam presentes em um círculo de orações. Na ocasião receberam palavras de que iam ter vitória.

Enquanto uma pedia misericórdia, outra pedia vingança.


Graça e Paz,

Levi B. Santos

Silas Daniel disse...

Caro Levi,

Solidarizo-me com o irmão. O caso é realmente triste e a atitude tomada pela irmã, conforme as informações que o irmão nos passa do caso, se constitue um tremendo absurdo.

Primeiramente, a Bíblia é clara: irmãos não devem entrar em litígio contra outros irmãos. E isso, friso, é visto tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos. É só lermos Levítico 19.18 e 1 Coríntios 6.1-7. E em segundo lugar, no seu caso, independente do que orienta a Bíblia, não havia nem lógica para aquela irmã litigar! Isso porque, para que haja crime, é preciso que haja motivação ou pelo menos imprudência, desleixo; mas, no caso em apreço, não havia obviamente nem uma coisa nem outra. Aliás, não havia nem lesão! Ora, só há crime se há lesão, mas não houve lesão, pois, como o irmão nos informa, a criança nasceu intensamente prematura e o irmão e sua equipe fizeram de tudo ao alcance de vocês para salvá-lo. E depois disso ainda orar pedindo vingança? Absurdo!

Infelizmente, há muita gente que, abalada emocionalmente por alguma perda eventual da vida, uma eventualidade que não envolve dolo nem culpa, em vez de conformar-se com aquela eventualidade da vida permitida por Deus, sai em busca de culpados inexistentes. Lamentavelmente, não são poucos que fazem isso. Há até quem culpe a Deus. Outros, porém, preferem deixar Deus de lado, mas descarregam seu injustificado ressentimento nas pessoas à sua volta, até mesmo naquelas que não têm nada a ver com a história ou mesmo naqueles que estão ali, do lado, só para ajudar.

Agora, pegando como gancho o tema que o irmão levanta do litígio entre irmãos, aproveito para apresentar aos leitores um resumo do que a Bíblia diz sobre esse assunto.

No caso de uma lesão real de um irmão contra o outro, a Bíblia diz para não litigarem. Paulo é claro quanto a isso (1Co 6.1-7). E a lógica bíblica é justamente a que se segue: Primeiro, se são verdadeiramente dois servos de Deus, por que não entram em acordo entre si ou resolvem o problema internamente, entre irmãos (1Co 6.2-5)? E em segundo lugar, por causa do bom testemunho (1Co 6.6), se não se chega a uma solução, é preferível sofrer o dano (1Co 6.7), e Deus, que é o Justo Juiz, haverá de julgar o caso.

Agora, pergunta-se: "E no caso de alguém que as pessoas descobrem que nunca foi verdadeiramente um crente, mas estava descaradamente se fingindo de crente para enganar crentes e lesá-los?"

Nesse caso, seria possível o litígio, já que o caso não está enquadrado no que é dito em 1 Coríntios 6.1-7, ainda mais quando fica claro à sociedade que o tal é um falso cristão, alguém que se passou por cristão. Ou seja, não haveria crentes tratando com crentes e nem mesmo escândalo. Mesmo assim, dependendo da situação, o desmascaramento e o afastamento do indivíduo já seriam suficientes, deixando-se de lado a reparação do dano. Vai depender do caso. Se o caso não for muito grave, é preferível deixar de lado o direito de reparação; mas se for muito grave, o litígio é mais do que permitido, posto que Paulo estaria falando em 1 Coríntios 6 de danos pequenos (o versículo 2 fala de "coisas mínimas"), e não de danos enormes. Só se o Espírito Santo orientar a pessoa lesada a, naquele caso específico, deixar de lado a reparação do dano grave. Isso pode acontecer e acontece. Deus tem seus propósitos e Ele sabe resolver problemas da melhor forma. Mas, isso é uma experiência pessoal e não uma regra para todos os casos.

Outra pergunta: "E se era realmente alguém que demonstrava ser um crente, mas que, de repente, surpreende a todos procedendo de uma forma vergonhosa, aviltante e criminosa?"

Antes de tudo, devemos nos lembrar que nunca alguém que realmente é um crente cai "de uma hora para a outra". A queda espiritual é um processo paulatino que ocorre no íntimo da pessoa e só se manifesta mais à frente, depois que o coração já fora mudado. Aí se descobre realmente o estado espiritual da pessoa, que ela escondia por trás de hábitos e aparência religiosos.

Bem, o texto bíblico nos dá a entender claramente que, independente do tamanho do dano, se o caso é entre irmãos, deve-se tentar resolver internamente, por causa do escândalo (1Co 6.1,6).

"E se isso realmente não for possível e o caso for muito grave, o litígio seria possível?"

Primeiro: Será que já se tentou mesmo o máximo possível para se chegar a um denominador? Segundo: Se realmente (Mas realmente mesmo!)não se conseguiu chegar a uma solução internamente depois de se tentar o máximo possível e, além disso, não são "coisas mínimas" que estão sendo tratadas, mas danos graves, é possível, de forma excepcional, o litígio. Entretanto, devemos ter cuidado para não transformamos regra em exceção e exceção em regra. Regra é regra, exceção é exceção. A regra é: "Escândalo entre irmãos? Não! É preferível sofrer o dano". Na maioria esmagadora das vezes, é isso que vai prevalecer. Não se deve abusar da expressão "coisas mínimas".

Abraço!

Levi Bronzeado dos Santos disse...

Prezado Silas

Por esse período que você tão bem formulou e que tomei a ousadia de redigitar abaixo, concluímos que o verdadeiro crente jamais entrará em juízo contra seu irmão. O litígio não é coisa de cristão.

"Bem, o texto bíblico nos dá a entender claramente que, independente do tamanho do dano, se o caso é entre irmãos, deve-se tentar resolver internamente, por causa do escândalo (1Co 6.1,6)".

Graça e Paz,

Levi B. Santos(www.levibronze.blogspot.com)

Silas Daniel disse...

Caro Levi,

É isso aí, o litígio entre irmãos não é coisa de cristão. E isso é uma regra, e não uma exceção a uma regra. Não se deve confundir excepcionalidade com regra. Como já frisei em minha última intervenção, regra é regra, exceção é exceção.

Graça e Paz!