terça-feira, 19 de maio de 2009

Sobre os protestos na Universidade de Notre Dame e o dilema ético de Guantánamo

Caros leitores, já faz algumas semanas que ausentei-me do blog por uma razão simples: falta de tempo. Só esta semana encontrei uma horinha para escrever, mas, quando pensava em aproveitar esse tempo para finalmente concluir uma série de artigos relativos a questões sócio-político-culturais daqui, do Brasil, artigos estes que, há dias, havia começado a criar para publicar seqüencialmente no blog, sou forçado a voltar minhas atenções de novo para os EUA. Isso porque vi os protestos de domingo na Universidade Católica de Notre Dame por esta conceder a Obama, um abortista declarado, um título honoris causa; e li e ouvi o discurso de Obama tentando pacificar os ânimos, bem como o tratamento que a mídia brasileira deu ao caso.
Vocês devem ter visto os protestos (com centenas de pessoas protestando dentro e fora da universidade, como fotos dos protestos publicadas em vários sites demonstram) e a forma como a imprensa brasileira tratou o episódio, exaltando o tom conciliador de Obama (“Devemos manter a mente aberta”) e os aplausos meramente burocráticos que recebeu ao final de seu discurso, classificados pela mídia tupiniquim como “entusiásticos”.
A verdade é que os protestos em Notre Dame são só uma pequena amostra do que a sociedade americana acha de “manter a mente aberta para a questão do aborto”. Uma pesquisa recente do Instituto Gallup, divulgada há poucos dias, revela que, após Obama assumir a presidência e assinar, como seu primeiro ato de governo, uma lei pró-aborto que autoriza o uso do dinheiro público americano para financiar ONGs pró-aborto no mundo, a maioria da sociedade americana passou a ser pró-vida. Não que esse ato de Obama seja o grande provocador disso, mas, com certeza, teve sua influência, porque trouxe o assunto do aborto novamente à pauta nas discussões daquele país, fazendo com que, após o confronto de argumentos, um número significativo da população americana reconsiderasse seu posicionamento sobre o assunto.
Há um ano, a última pesquisa Gallup sobre o tema nos Estados Unidos mostrava que 50% dos americanos eram pró-aborto e 44%, contra o aborto. Hoje, porém, o resultado é 51% contra o aborto e 42% pró-aborto. Isto é, os protestos em Notre Dame são um reflexo de uma reviravolta na opinião do povo americano sobre o assunto – além, claro, do fato indignante que é, para os católicos conservadores, ver uma universidade católica homenagear o principal defensor do abortismo naquele país.

Dilema ético em Guantánamo

Mudando de assunto, embora ainda falando dos EUA, já faz alguns dias que o presidente Obama anunciou que não cumprirá uma de suas promessas de campanha. Que promessa? Uma das mais esperadas pelos demonizadores do governo Bush: A de abrir os arquivos da CIA em relação a Guantánamo. Mas, por que não abrir, se teoricamente isso prejudicaria mais ainda a imagem do recém-encerrado governo Bush, não é mesmo? Por quê?
Bem, como todos sabemos ou pelo menos devemos saber, às vezes a teoria é bem diferente da prática.
A verdade é que se tem uma coisa que Obama – e mais ainda a presidente da Câmara dos Representantes, a também democrata Nancy Pelosi – não tem interesse é revelar o conteúdo de tais documentos. Quem quer abri-los é... Dick Cheney. Isso mesmo: Dick Cheney, grafitado pela mídia como demônio. Ele está fazendo uma campanha para que os arquivos sejam abertos.
Dick Cheney, vice-presidente nos dois mandatos de George Walker Bush, pediu em 31 de março à CIA para revelar o conteúdo desses documentos, e a resposta da CIA foi um “não” seguido de uma desculpa jurídico-burocrática para não fazê-lo. Bem, e Obama? Ele não poderia exigir à CIA revelar o conteúdo dos documentos (que, depois de assumir a presidência, já analisou e conhece), ainda mais que ele prometera fazê-lo? Poderia, e nesse caso a CIA não teria desculpas para negar seu pedido. Porém, Obama resolveu não abrir esses documentos. Por quê? Por qual motivo?
Bem, o que se sabe é que Cheney, em entrevista ao jornal Washington Post, afirmou que os tais documentos comprovam que o waterboarding (único tipo de tortura autorizada pelo governo Bush em Guantánamo, sob a justificativa de que é um método usado há décadas no treinamento dos soldados dos EUA porque teoricamente tem menos chances de deixar seqüelas em suas vítimas) levou o governo americano a frustrar planos de ataque e a encontrar e prender células terroristas inteiras. O detalhe é que Nancy Pelosi fazia parte da comissão do Congresso Americano que sabia e aprovou tudo isso. Diante do fato, até a mídia democrata passou a questionar Pelosi pelo comportamento contraditório de criticar algo com o qual concordara antes, nos bastidores. Aliás, depois da declaração de Cheney, ela já deu quatro versões diferentes à televisão para tentar “limpar a sua barra”. É Clinton fazendo escola.
Uma das últimas versões de Pelosi é que supostamente não fora “bem informada pelo pessoal da CIA sobre o que acontecia”. O problema é que Pelosi participou de 40 audiências com o pessoal da CIA sobre as “técnicas incrementadas de interrogatório” e onde os documentos foram apresentados. Tudo registrado. Sim, 40 audiências, e algumas durando horas. E ela “não sabia”...
Bem, Dick Cheney disse o que havia nos documentos, Obama e Pelosi não o desmentiram, e Obama resolveu voltar atrás quanto a disponibilizar o conteúdo deles. Por isso, até o jornal The New York Times, democrata “até o tutano”, está cobrando do governo Obama que mande revelar o conteúdo dos documentos.
No final das contas, até agora, o que se sabe é que os documentos provam que só houve em Guantánamo três terroristas torturados; que essas torturas resultaram na prisão de outros terroristas com bombas e planos adiantados de ataque; que Condoleezza Rice, Rumsfeld e Cheney aprovaram esses três únicos casos de tortura; e que o documento traz os nomes dos agentes da CIA que as praticaram. E aqui chegamos ao dilema ético por que passa a opinião pública americana nesses últimos dias: Obama se negou a processar esses agentes da CIA que promoveram essas torturas. Não disse o motivo, mas se, segundo Cheney, os documentos provam que o que fizeram salvou a vida de centenas de americanos que morreriam em atentados cujos planos estavam já em andamento, o que Obama não nega, conclui-se que esse seria o motivo. Portanto, segue-se a pergunta: A decisão de Obama é correta? É ético condescender com a tortura nessas condições?
Diogo Mainardi escreveu sobre esse dilema ético recentemente em um de seus artigos no site da revista Veja. Não deixe de ler. O artigo está aqui:
http://veja.abril.com.br/idade/podcasts/mainardi/integra_140509.html
Eis o dilema ético dos americanos: “É correto penalizar agentes que torturaram dois terroristas – e sem deixar seqüelas neles – para salvar a vida de centenas de pessoas?” Obama já respondeu a esse dilema negando-se a processar esses agentes da CIA. E foi mais adiante: também anunciou (semana passada) a volta dos tribunais de Guantánamo, criados por Bush e que ele, Obama, havia dito que iria acabar. E agora já se fala nos EUA que a previsão do fechamento de Guantánamo deverá ser revista – para mais à frente, como já haviam proposto Bush, quando na presidência, e McCain, quando em campanha. Mais uma vez, o discurso de campanha de Obama se esvai quando se depara com a complexa realidade.
E você, o que acha da decisão de Obama? Qual seria a sua decisão diante desse dilema ético do caso Guantánamo?
Por exemplo: Se a vida de seus entes queridos dependesse da informação de um criminoso que se nega a dá-la, seria correto permitir que o policial que o prendeu usasse tal expediente para conseguir a informação, ainda mais sob a justificativa de que o método não deixaria seqüelas na saúde do criminoso? Ou se você soubesse, como aqueles agentes da CIA, que a informação de um determinado terrorista evitaria a morte de centenas de pessoas em sua nação em um atentado que ocorreria nas próximas horas, você permitiria o uso desse método? O que você faria?

23 comentários:

J. S. Cavani disse...

Obama parece ter entendido, ainda que incompletamente, que promessas ingênuas de paz são incapazes de salvar o mundo. Há mais de 2500 anos atrás, o grande estrategista chinês, Sun Tzu, já dizia: "o objetivo verdadeiro da guerra é a paz" - mas para que haja paz, a guerra deve precede-la.

Um abraço meu irmão,
J.S. Cavani

Silas Daniel disse...

Caro Cavani,

Essa é uma questão muito importante: a questão da guerra justa e da guerra injusta, da guerra realizada forçosamente por quem quer paz e uma guerra travada por fins diversos. Mas, esse assunto, para ser abordado com justeza aqui, só por meio de uma postagem quilométrica, o que choca-se com a natureza do blog. Ou então, para abordar completamente todas as nuances, se escreve um livro a respeito. Ademais, Obama está sofrendo mesmo um "choque de realidade" depois que assumiu a presidência. O problema mesmo persiste nas questões liberais: aborto, destruição de embriões para produzir células-tronco, "casamento" homossexual, eutanásia etc.

Abraço, meu irmão!

Gutierres Siqueira disse...

Pr. Silas, a paz!

Engana-se quem pensa que a tortura não funciona. Como na série “24 Horas”, o agente Bauer da CTU salva milhares de vida a cada episódio utilizando a tortura. Na vida real, pudemos ver o exemplo de Khalid Shaikh Mohammed. Agora, os fins justificam os meios? A lei está acima das vidas ou as vidas acima da lei? O que é mais importante, a Convenção de Genebra ou milhares de vidas inocentes nas mãos de terroristas fanáticos? É muito complicada essa discussão.
Agora, esse fato mostra que Obama será bem diferente daquele desenhado nas eleições!

Silas Daniel disse...

Caro Gutierees, a Paz!

Este é o cerne da questão. Com certeza, o caso dos três terroristas em Guantánamo entrará na História como uma das grandes questões éticas de nosso tempo. Aliás, o terrorismo tenta continuadamente jogar os valores morais esposados pelo Ocidente contra o próprio Ocidente. Se o Ocidente é a favor de privacidade, os ataques terroristas fazem os governos diminuírem essa privacidade em nome da segurança, lançando a população contra o governo; se o Ocidente é contra a tortura, os terroristas colocam os governos ocidentais em algumas situações em que só quebrando essa regra poderão obter informações para prendê-los, mas aí lançarão a opinião pública mais uma vez contra o governo; etc. São tempos realmente difíceis!

Ainda bem que o FBI conseguiu evitar ontem um atentado em Nova Iorque que ocorreria esta semana, prendendo terroristas em solo americano. Você deve ter lido nos jornais. Mas, nesse caso, diferentemente do caso de 2002 com os três terroristas em Guantánamo, a polícia americana teve como passar um ano em investigações até prender os indivíduos. No caso de 2002, diferentemente, o tempo era um problema - lutava contra os investigadores.

E sobre Obama, o "choque de realidade" por que passa com certeza o ajudará a tomar atitudes mais racionais na área de relações internacionais. Acompanhemos, por exemplo, como tratará o caso do Irã.

Abraço!

Edson Douglas disse...

Pastor Silas, esse seu artigo sobre Guantánamo me deixou com várias dúvidas. O senhor afirma: "No final das contas, até agora, o que se sabe é que os documentos provam que só houve em Guantánamo três terroristas torturados; que essas torturas resultaram na prisão de outros terroristas com bombas e planos adiantados de ataque; que Condoleezza Rice, Rumsfeld e Cheney aprovaram esses três únicos casos de tortura; e que o documento traz os nomes dos agentes da CIA que as praticaram. E aqui chegamos ao dilema ético por que passa a opinião pública americana nesses últimos dias: Obama se negou a processar esses agentes da CIA que promoveram essas torturas. Não disse o motivo, mas se, segundo Cheney, os documentos provam que o que fizeram salvou a vida de centenas de americanos que morreriam em atentados cujos planos estavam já em andamento, o que Obama não nega, conclui-se que esse seria o motivo. Portanto, segue-se a pergunta: A decisão de Obama é correta? É ético condescender com a tortura nessas condições?" A primeira pergunta que eu faço é: O dilema ético também não envolveria no caso uma nação que se diz democrática e cristã e cujo governo foi tolerante ao ponto de aceitar essa prática nazifascista que é a tortura e que só tem seu campo de ação em ditaduras de países de Terceiro Mundo? Segundo: é mais imoral a decisão de Obama de não revelar à público os arquivos, ou a decisão do ex vice presidente Cheney e de sua secretária de estado em serem coniventes com a prática de tortura que reafirma, desse modo, que os EUA violaram a Convenção de Genebra? E mesmo que o senhor reafirmme que a decisão de Obama é equivocada (porque me parece que é o que o senhor irá dizer), a responsabilidade desses atos não diz respeito a um assunto de economia interna do governo anterior? Além disso, onde seriam os atentados? Quais os alvos? Recentemente a polícia estadunidense conseguiu impedir atentados desse tipo sem uso de força, seria essa prática da tortura uma exceção ou seria mesmo o reconhecimento de que esses investigadores só sabiam investigar desse modo, por ser mais "prático?" Terceiro, a defesa nacional legitima para o senhor a prática da tortura? Quarto: O que o senhor pensa da tortura? Quinto: A questão central não é que houve "apenas três casos de tortura". Ainda que houvesse só um isso já é uma infâmia. Será que isso não pressupõe que, doravante, o governo dos EUA, independentemente de ser Republicano ou Democrata, usará a tortura como política de estado e método de investigação criminal? Desse modo, em que poderemos dizer que suas práticas de investigação se diferenciam das nossas polícias? O que o senhor acha? Outra coisa: Por que "opinião pública americana?" Nós também não somos do continente americano (América do Sul)não seria mais coerente dizer norte-americano ou estadunidense?
Um abraço.

Silas Daniel disse...

Caro Edson,

Suas perguntas são pertinentes e enriquecem o debate. Vamos lá.

Sobre a primeira pergunta: Ela nada mais é do que o dilema que destaco aqui. Você apenas a incrementou frisando que essa nação desses agentes e de seus superiores (os Estados Unidos) é uma nação de origem cristã e democrática, e que a prática da tortura é, obviamente, usada por regimes totalitários, cujos valores, claro, se chocam gritantemente com os valores cristãos e democráticos.

Ora, é claro que quando perguntamos se é ético estamos levando em conta isso. Afinal, estamos falando de valores, e nossos valores são os cristãos e democráticos. Sob o prisma da ética islâmica, não haveria crise diante da pergunta "É ético condescender com a tortura nessas condições?". Porém, sob o prisma da ética denominada cristã, que é a que conta aqui e para os americanos, esta pergunta é, sim, um problema: "É correto penalizar agentes que torturaram dois terroristas – e sem deixar seqüelas neles – para salvar a vida de centenas de pessoas? É ético condescender com a tortura nessas condições, nessa situação específica?". Esse é o dilema que enfrentaram Cheney, Rice e Rumsfeld, e que Obama enfrenta agora ao decidir se toma ou não medidas contra os agentes da CIA.

A mesma pergunta que enfrentaram Cheney, Rice e Rumsfeld, hoje é enfrentada por Obama, e, agindo como está agindo, ele está respondendo a ela da mesma forma que Rice, Rumsfeld e Cheney: Com um "Sim".

Só uma pequena observação ainda dentro da sua primeira pergunta, fruto de minha meticulosidade em relação à História: É errada a expressão "nazifascistas". Ela foi criada pelos grupos de esquerda para esconderem a ligação inicial e de aprendiz do nazismo com o comunismo antes da aliança subsequente daquele com o fascismo. Tanto uma coisa (nazismo) como a outra (fascismo) não prestam, foram engendradas pelo Inferno, mas nazismo é uma coisa e fascismo é outra. Ademais, a tortura não é uma marca única das ditaduras nazistas e fascitas. Bem antes dos nazistas e dos fascistas, os comunistas já praticavam a tortura; e antes deles, outros grupos também. Aliás, sobre o aprendizado dos nazistas com os comunistas, recomendo o excelente e premiado documentário "The Soviety Story".

(Continua...)

Silas Daniel disse...

(Continuando...)

Sobre a segunda pergunta: Ninguém está dizendo aqui que o governo anterior não teria violado a Convenção de Genebra nesse caso, nem muito menos que é menos imoral a atitude do governo passado em relação a esse caso do que a atitude do atual governo. O que estamos dizendo é que se o governo passado foi imoral, Obama está sendo hipócrita e igualmente imoral, pois, em vez de tomar atitudes contra os agentes e colocar os documentos à mostra (como está pedindo insistentemente a imprensa americana), ele age com conivência diante do que ocorreu. Este é o cerne de todo esse texto sobre o caso Guantánamo: Obama falou tanto sobre tortura em Guantánamo na campanha e, quando assumiu e se viu diante dos fatos, condescendeu com o que aconteceu. Cheney, então, que foi alvo de ataques o tempo todo naquele período da campanha por causa de Guantánamo, não perdeu a oportunidade de apontar a hipocrisia de Obama. Obama bateu tanto nele, pintando-o como demônio, mas, depois que assumiu e viu a situação, deixou do jeito que estava. Como você acha que Cheney ou qualquer pessoa no lugar dele reagiria? Cheney não poderia deixar passar isso sem dizer nada. Sua reação foi mais do que natural.

Sobre a pergunta acerca da atitude de Obama: É óbvio que a ação de Obama é equivocada! Nesse ponto, minha posição é a mesma da imprensa americana, que em uníssono - tanto sua ala republicana como sua ala democrata - tem pedido o mesmo: que os arquivos sejam mostrados. Se alguém tiver que pagar, que pague. O que não pode acontecer é não resolverem logo essa questão. Ou aceite-se que o uso do "waterboarding" naqueles terroristas não é crime, posto que o "waterboarding" é usado há décadas no treinamento dos soldados americanos e não causa seqüelas, ou condene-se os agentes e os superiores que autorizaram a tortura - Cheney, Rice e Rumsfeld. O que se pede é nada mais do que isso. É um direito, inclusive, do povo americano. O que não dá é para virar a página do caso Guantánamo sem ter resolvido o caso Guantánamo. Fazendo isso, Guantánamo vai ficar sempre como uma sombra no passado daquela nação, algo não resolvido, um fantasma do passado que vai gerar lendas as mais absurdas no futuro. É o que dá quando não se abrem os arquivos.

Revelem os arquivos e julguem logo os casos! - É isso que precisa ser feito.

Sobre a pergunta acerca dos atentados: Caro Edson, você faz perguntas cujas respostas dependem... de Obama revelar os documentos! A única informação que a imprensa tem é a dada por Cheney e não contestada por Obama: os documentos revelam que aqueles três casos de tortura salvaram a vida de centenas de americanos que morreriam em um atentado que estava havia poucas horas para acontecer. A CIA, diferentemente dos planos para atentados descobertos no início deste ano (que foram fruto de UM ANO de investigações), não tinha tempo para descobrir. Era uma contagem regressiva, o atentado aconteceria, segundo os próprios terroristas, em pouco tempo. Segundo Cheney, está tudo lá nos documentos. Obama não nega. Todo mundo quer ver os documentos. Cheney quer que sejam revelados para que todos vejam os fatos. Obama não. Ele não quer revelar. Por quê? É a questão ética mais o medo de revelar o consentimento de gente do seu partido que posou de crítico de Guantánamo depois, como é o caso de Pelosi.

(Continua...)

Silas Daniel disse...

(Continuando...)

Sobre sua terceira pergunta: Caro Edson, não estou respondendo a essa pergunta em meu texto, mas estou, como você, fazendo-a e pedindo a opinião pessoal dos leitores: "Se a vida de seus entes queridos dependesse da informação de um criminoso que se nega a dá-la, seria correto permitir que o policial que o prendeu usasse tal expediente para conseguir a informação, ainda mais sob a justificativa de que o método não deixaria seqüelas na saúde do criminoso? Ou se você soubesse, como aqueles agentes da CIA, que a informação de um determinado terrorista evitaria a morte de centenas de pessoas em sua nação em um atentado que ocorreria nas próximas horas, você permitiria o uso desse método? O que você faria?"

Se sua resposta é "Não", ok. Apenas responda "Sim" ou "Não". Eu ainda estou me perguntando. A única resposta que tenho concreta sobre esse caso é que, quer fosse Obama, quer fosse McCain, o presidente americano que assumisse deveria revelar os arquivos e levar os casos a julgamento. É desculpa esfarrapada essa de "Não posso revelar porque é assunto de economia interna do governo anterior". Nem Obama está usando essa desculpa. É de interesse da nação. Ele é o presidente. Seu dever é mandar revelar. Mas...

Sobre a quarta pergunta: O que penso da tortura? É um crime hediondo. Qualquer pessoa normal reconhece isso. Tanto eu quanto você. O problema é que a questão aqui não é simples assim: "Tortura é errado?". Não. A questão é: "Se a vida de seus entes queridos dependesse da informação de um criminoso que se nega a dá-la, seria correto permitir que o policial que o prendeu usasse tal expediente para conseguir a informação, ainda mais sob a justificativa de que o método não deixaria seqüelas na saúde do criminoso? Ou se você soubesse, como aqueles agentes da CIA, que a informação de um determinado terrorista evitaria a morte de centenas de pessoas em sua nação em um atentado que ocorreria nas próximas horas, você permitiria o uso desse método? O que você faria?"

(Continua...)

Silas Daniel disse...

(Concluindo...)

Sobre sua quinta pergunta: O uso da expressão "apenas" é clara e meramente para contrastar os fatos com os boatos, porque o que se fala de torturas em Guantánamo que nunca ocorreram "não está no gibi". Vê-lo aqui como uma afirmação de que tortura pouca não é nada demais é uma dislexia. É óbivo ululante que o termo "apenas" refere-se à quantidade e não à qualidade. Ademais, se eu estivesse querendo achar os casos de Guantánamo "nada demais" não teria me unido ao côro para que os casos de Guantánamo sejam revelados. Só se, como Obama, eu achasse que não fossem mesmo "nada demais"... Quem está sendo do "Deixa como está" é Obama. Eu, não. Quero que tudo seja revelado, discutido e julgado. E quem tiver culpa, pague.

Sobre se o caso Guantánamo pode levar o governo dos EUA, seja ele republicano ou democrata, a usar (às escondidas) a tortura como política de Estado e de investigação criminal, concordo com você que esse é um risco real, só lembro que esse risco só torna-se uma realidade agora, quando o governo que poderia abrir os arquivos de Guantánamo prefere silenciar sobre o caso em vez de enfrentá-lo e levá-lo a julgamento. A atitude "Deixa pra lá" de Obama não ajuda aqui. Só atrapalha. Só favorece esse risco.

Sobre sua sexta pergunta: Sinceramente, não vejo problema em usar o termo "americano". Particularmente, prefiro o termo "norte-americano", que é o que uso mais quando escrevo em jornal, revistas e livros, e eventualmente também uso o termo neste blog. Uso o termo "americano" pois ele já está cristalizado no Brasil. Esse termo se deve justamente ao nome daquele país ser Estados Unidos da América. Assim como nosso país se chamava, inicialmente, após a proclamação da República, Estados Unidos do Brasil e seus cidadãos naquela época eram denominados brasileiros, e não estadunidenses, o mesmo se fazia desde o século 19 no Brasil em relação aos cidadãos dos EUA - eram chamados de americanos e não de estadunidenses. É um hábito já antigo e cristalizado.

Ver o uso desse termo ("americanos"), como alguns ingenuamente vêem, como influência do "imperialismo americano" é um erro, pois antes mesmo que esse "imperialismo" existisse, esse termo já era usado para se referir aos cidadãos dos EUA.

A implicância com esse termo no Brasil depois de mais de cem anos de uso é mais fruto de antiamericanismo do que outra coisa. Ademais, apagar esse uso agora em nosso país significa mudar o jeito de escrever da maioria da imprensa, dos escritores e dos brasileiros em geral, que escreve e fala "americano" e não "estadunidense".

Se você falar "estadunidense" em um discurso a um público médio, garanto que a maioria esmagadora dos que te ouvem não vai entender do que está falando, a não ser que fique muito claro pelo contexto da fala. Agora, se você fala "americanos", não precisa dizer mais nada. Todos entendem.

Enfim, se você prefere "estadunidense", Ok. É seu direito. Mas prefiro, como a maioria, "americanos" ou "norte-americanos".

Abraço!

Edson Douglas disse...

Pastor, Silas, eu confesso que fiquei admirado com sua preocupação em responder minhas perguntas. Na verdade a minha preocupação é tão somente em compreender os fatos em sua devida dimensão e buscar a verdade que deve ser sempre o objetivo do cristão e de qualquer pessoa que busque o discernimento.
1 - quando eu usei a expressão "nazifascistas", eu pensei num sistema de governo que tem sabor totalitário e, ainda que existam "influências" comunistas no nazifascismo (de métodos de repressão, talvez, e nada mais além disso), como por exemplo, no que diz respeito à tortura e outras barbaridades, contudo, também não é menos verdade que as leis segregacionistas norte-americanas inspiraram muito o nazismo. Bancos de praça para negros e brancos, banheiros para negros e brancos em estações de trem e rodoviárias, leis segregacionistas em escolas primárias estabelecidas em estados sulistas e que vigoraram até a década de 50, etc. É inegável que esse conjunto de medidas também influenciou o nazismo porque as Leis de Nuremberg de 1935 nada mais são do que leis segregacionistas já que qualquer elemento não ariano (judeus e outros) eram excluídos do sistema. Outra coisa: mesmo o comunismo, que renega Deus, admite a igualdade entre os homens, o que já não é o caso do nazismo e nem da sociedade segregacionista estadunidense dos nos 30. E no caso dessa última, devemos lembrar que além de segregacionista ela também era "cristã." Além disso, o nazismo surgiu justamente em decorrência da vitória da revolução russa como um anteposto à esta, uma reação a esta. Hitler era tão anticomunista quanto Churchill e Roosevelt mas foi o único que levou seu anticomunismo às vias de fato.
De fato, o nazismo é uma coisa e o fascismo outra coisa. Mas apenas no que diz respeito ao racismo e ao antisemitismo que vigoram no primeiro regime e não no segundo. Contudo. Ambos são, política e economicamente a mesma coisa. Os dois regimes preconizam um sistema político centralizado com instituições legislativas puramente decorativas. Ambos concebem o funcionamento da economia dentro de padrões corporativistas que remetem ao mundo medieval. Ambos tem uma estrutura de governo hierarquizada com um líder no exercício das atribuições executivas. Ambos concebiam a política exterior por um viés claramente imperialista. A única exceção é com relação ao antisemitismo e ao racismo que faziam parte da base ideológica do nazismo, mas não do fascismo.
2 - Então, pastor Silas, precisamos reconhecer que o conceito de democracia que a nação estadunidense pratica é na verdade um conceito propagandístico que não corresponde à realidade dos fatos. Aliás, já não correspondia muito quando nos anos 60 o governo dos EUA apoiou os regimes militares latino-americanos, inclusive as infames ditaduras da Argentina e do Chile que mataram e torturaram dezenas de milhares de pessoas. E também ali se disse que essas práticas se fizeram para que vidas fossem salvas. Então nesse caso o reconhecimento da tortura como política de estado é algo que subjaz na realidade política desse país, independentemente de o governo ser republicano ou democrata. Ela (tortura) é política de estado, e se não é está em vias de ser.

Edson Douglas disse...

3 - É difícil falar que a tortura é uma prática que não deixa seqüelas. Toda prática de torturas deixa seqüelas e a primeira delas é a seqüela psíquica, é o modo como a pessoa vai carregar pelo resto da vida o fato de ter sido submetida a uma situação humilhante, discriminatória e atentatória contra a vida e o caráter. Além disso, temos a seqüela moral. Se o nosso corpo é precioso para nós, tanto quanto é para Deus, autor da vida, é óbvio que a exposição desse corpo a algo que vai humilhá-lo e vilipendiá-lo é um crime não somente contra a vida, mas também crime contra Deus. Nada, portanto, justifica a tortura, nem a sua prática e nem a sua defesa.
4 - Sobre a questão dos documentos uma coisa precisa ficar clara: desde 11 de setembro de 2001 que os EUA estão sob alerta máximo de ataques terroristas, logo, se é um alvo preferencial desse tipo de atentado, e se os serviços de inteligência são tão eficientes como se diz que são, o que se cabe fazer é monitorar permanentemente os possíveis alvos e investigar qualquer entidade que de alguma maneira seja passível de ter ligações com grupos terroristas, aliás não só nos EUA mas também em atuação conjunta com as polícias de outros países uma vez que o 11 de setembro foi em grande parte planejado em Hamburgo. Assim, dizer que essa ação salvou centenas de vidas é algo que não está preciso como também até hoje nunca ficou precioso onde estavam (ou onde estão) as tais armas químicas de Sadam Hussein. Planejamento para segurança é coisa que qualquer serviços de inteligência minimamente responsável precisa fazer ainda mais quando seu país é alvo de ações terroristas, assim uma medida que deveria ser tomada considerando essa situação era o monitoramento de aeroportos, estações de trem ou rodoviários e todo e qualquer lugar com grande aglomeração de gente já que – não trabalho na polícia, mas assim me parece – o "modus operandi" da AL Qaida tem sido sempre atacar em locais públicos e com grande número de pessoas. Em Israel, vale lembrar, nos anos 70 e 80 ocorreram vários seqüestros de aviões por parte de grupos palestinos até que finalmente o Mossad decidiu salvaguardar a segurança dos vôos blindando a cabine do comandante e posicionando agentes à paisana dentro dos vôos para matar qualquer terrorista que tentasse seqüestrar ou derrubar um avião. Que a medida deu resultado basta ver pelo fato de que há anos não temos notícia de seqüestros de vôos israelenses dentro ou fora daquele país.

Edson Douglas disse...

5 - Bem, pastor Silas essa pergunta é uma questão de foro pessoal por isso é que eu perguntei para o senhor se bem que imaginava que pelo teor do caso ela realmente fosse causar reflexões assaz perturbadoras. Quando eu penso nesse caso, me vem à mente um ardil que a polícia militar inglesa usou depois da Segunda Guerra, para prender Rudolf Höss, que como o senhor deve saber, foi o comandante do Campo de Auschwitz. Ele estava foragido desde o fim da guerra e somente sua esposa sabia seu paradeiro. Então, vendo que ela não colaborava, os agentes do serviço inglês fizeram o seguinte: inventaram uma história de que o filho dela seria levado para a prisão russa e que ele, de fato, já havia sido embarcado no comboio rumo ao leste. E a senhora Höss colocada contra a parede entre o dilema de proteger o filho e o marido, optou por “salvar” o menino e entregar o marido. O grande problema para nós é que esse discurso “salvacionista” tem sido sempre usado para proteger arbítrios e calar excessos que a polícia pode cometer no cumprimento do dever. A polícia deve sim exercer o seu dever dentro da lei e está claro que não foi esse o caso. A justificativa de salvar vidas também não cola. Muitas barbaridades e injustiças foram cometidas pelos agentes de segurança de tantos países em nome desse princípio de salvar vidas, que na verdade esse argumento virou ardil para se justificarem outros crimes, até mais hediondos. E a tortura, penso eu é um crime hediondo, e que se torna ainda mais hediondo na medida em que é cometido por país signatário da Convenção de Genebra. Eu sou contra a tortura seja qual for a condição. Não posso ser condescendente com o uso de um instrumento legal que pode a qualquer momento ser usado por motivos análogos para violar as garantias legais do Estado (de qualquer Estado). Sobre sua opinião de que o caso de Guantánam pode levar o governo dos EUA, seja ele republicano ou democrata a usar (às escondidas) a tortura como políca de Estado e de investigação criminal acho que estamos de acordo, nada tenho a objetar.
6 - Na verdade o termo "americano"só entrou mesmo em voga no sentido de designar o habitante dos EUA, depois que Monroe popularizou a tese da América para os Americanos, na sua doutrina de 1823 e que nunca deixou claro se a América no caso dizia respeito ao continente como um todo ou somente aos EUA em particular. O fato porém é que nos EUA o povo norte-americano ou estadunidense se identifica exatamente dessa forma enquanto os outros americanos (nós por exemplo), somos identificados por particularismos regionais. Isso dá a idéia de que para os EUA a América é efetivamente os EUA e nós somos uma zona geográfica distinta. Isso está tão culturalmente enraizado que se pode perceber até no Cinema. Em "Meu ódio será sua Herança", que é um Western de 1969, um dos protagonistas, quando vê o Rio Grande e o México logo à frente fala para os outros: "para mim, é só uma extensão do Texas" Em "Gilda" um filme de 1946 com Rita Hayworth, a personagem vivida por essa atriz está dançando com um oficial argentino num cassino clandestino em Buenos Aires e a certa altura ele pergunta: "de onde é você?" "da América." "E aqui também não é a América?" insiste. "Sou de Nova York", arremata ela. Falei do cinema porque nada espelha melhor a cultura e o modo de ser dos norte-americanos do que a sétima arte, mas isso para demonstrar que a idéia deles de que os EUA são a América de fato é algo que já está na sua cultura e é, pelo menos para mim, um sinal inequívoco de imperialismo, já que nos exclui dessa realidade geográfica que é também a deles. Somos brasileiros, argentinos, mexicanos e guatemaltecos, menos americanos, e tanto assim que não raro desconhecem a nossa realidade. Basta só lembrar que tempos atrás a imagem que o Brasil tinha nos EUA era a de um lugar cheio de selvas cuja capital era o Rio (ou Buenos Aires) e onde se falava espanhol.

Silas Daniel disse...

Caro Edson,

Passei mais de um mês “fora do ar”, envolvido com eventos particulares e compromissos de trabalho (duas a três vezes por ano desapareço do blog por um período de um mês para desopilar). Nesse período, só entrei duas vezes no blog para moderar eventuais comentários novos de leitores. Por isso, só agora estou dando atenção às suas novas objeções. Aliás, por falar em “atenção”: Edson, deixa disso! Que história é essa de “eu confesso que fiquei admirado com sua preocupação em responder minhas perguntas”... Por favor, você não é desses “sensíveis” da blogosfera que quando alguém discorda de você já se faz de “vítima”, é? Prefiro crer que sua afirmação é fruto de desconhecer as peculiaridades desse blog e de seu dono. Reveja todas as minhas postagens, desde agosto de 2007, quando surgiu este blog, até hoje e verá que uma das minhas marcas registradas é interagir com todos os meus leitores – todos –, e sem estar preocupado com o tamanho dos meus comentários, e por uma razão muito simples (que já evidenciei inúmeras vezes neste blog): quando digo (e/ou escrevo) alguma coisa, quero deixar bem claro ao meu leitor o que estou dizendo/escrevendo e porque estou dizendo-o/escrevendo-o. Minha meticulosidade me leva a textos longos. Inclusive, quem me conhece antes da blogosfera pode confirmar a você que essa sempre foi uma das minhas características: ser muito explicativo. Às vezes até demais!

Em suma, minha preocupação é a mesma sua: “Tão somente compreender os fatos em sua devida dimensão e buscar a verdade que deve ser sempre o objetivo do cristão e de qualquer pessoa que busque o discernimento”. Logo, se percebo que o irmão entendeu errado o que digo ou de repente traz alguma posição que percebo como equivocada, minha obrigação em relação à verdade deve me levar não à omissão, mas a dizer ao irmão: “Você entendeu errado. Eu disse que...” ou “Discordo, não é assim, por isso, isso e isso”.

Ademais, obrigado pela contra-argumentação, o que enriquece o debate. E vamos às objeções:

1) Caro Edson, as influências do comunismo no nazifascismo não se resumem a métodos de repressão. E são absolutamente equivocadas as seguintes afirmações: “O nazismo surgiu justamente em decorrência da vitória da revolução russa como um anteposto a esta, uma reação a esta”; “Hitler era tão anticomunista quanto Churchill e Roosevelt, mas foi o único que levou seu anticomunismo às vias de fato”; e “De fato, o nazismo é uma coisa e o fascismo outra coisa, mas apenas no que diz respeito ao racismo e ao antisemitismo que vigoram no primeiro regime e não no segundo. Contudo, ambos são, política e economicamente, a mesma coisa”.

O nazismo é um dentre outros modelos de socialismo. Se você não sabe, ainda é tempo de saber: Nazismo é a abreviatura de Nacional Socialismo. O socialismo era a ideologia política e econômica de Adolf Hitler e seu partido. Inclusive, tirando o darwinismo social (a ideologia da “raça” superior), o socialismo alemão foi fiel, não só na teoria, mas também na prática, a todos os preceitos do socialismo. No regime nacional socialismo (isto é, no regime nazista), (1) o poder total foi dado ao Estado; (2) como na União Soviética, a propriedade era privada “de jure” e estatal “de facto”; (3) a propriedade tronou-se apenas uma permissão do Estado que poderia ser confiscada quando o Estado desejasse, e sem direito a indenização; (4) o Estado nomeava e mudava todos os dirigentes das empresas, determinava o que seria produzido, o quanto seria produzido, quando seria produzido, por qual método, para quem seria produzido, para quem o produto seria vendido e o preço dos produtos; (5) e todos deveriam se sacrificar, com suas vidas, pelo Estado socialista. A oposição era rechaçada com morte.

(Continua...)

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O Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialista (partido de Adolf Hitler, que ascendeu ao poder) pregava, dentre outras coisas, que “as atividades dos indivíduos não podem se chocar com os interesses da comunidade, devendo ficar limitadas e confinadas ao objetivo do bem geral”; que a solução dos países estava “somente através da colocação do bem comum à frente do bem individual”; e pregava “o fim do poder dos interesses financeiros, da divisão dos lucros pelas grandes empresas e do espírito materialista”. O fato de os nazistas e os comunistas terem entrado em guerra posteriormente se deve a disputa de poder, a disputa pela centralidade e superpotência. Tanto a União Soviética quanto a Alemanha de Hitler tinham desejos imperialistas, então houve o choque. Mas, até entrarem em choque, agiram juntos.

Quando Hitler assumiu o poder na Alemanha, a coligação de partidos políticos que elegeu Hitler era formada pelo Partido Comunista alemão e o Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialista de Adolf Hitler. Antes de entrarem em guerra entre si, a União Soviética e a Alemanha de Hitler tinham um pacto de cooperação que só foi rompido quando a disputa pelo poder entre os dois projetos totalitários falou mais alto. Quando a Alemanha invadiu a Polônia, começando a guerra, não foi sozinha: a União Soviética invadiu junto com a Alemanha, e inclusive foi o exército soviético que mais trabalhou naquela invasão. Após a invasão, a URSS dividiu com sua aliada Alemanha os despojos da tomada da Polônia e ainda construiu ali os primeiros campos de concentração para os nazistas. Conforme o pacto entre eles, a Polônia foi inicialmente dividida entre os dois países. Sobre esse assunto, leia pelo menos o que está em http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Pol%C3%B3nia_(1939%E2%80%931945)

Quando finalmente a URSS e a Alemanha Nacional-Socialista romperam a aliança pelos motivos já explicitados, Hitler mandou prender os membros do Partido Comunista alemão, muitos deles membros do seu governo, mas deixando claro que não fez isso porque era anti-socialista, mas sob a justificativa de que o melhor socialismo era o dele e não o da União Soviética. Era uma briga entre irmãos gêmeos heterozigotos. Hitler fez mais de uma vez questão de justificar à época que a quebra da aliança com os comunas soviéticos e seus representantes na Alemanha não era o abandono dos ideais socialistas de seu partido (como na prática não foi mesmo, como prova o modelo organizacional, político e econômico do regime nazista). Disse ele mais de uma vez na ocasião: “Morte a esses socialistas [da Internacional Comunista da União Soviética] para que o verdadeiro socialismo viva [o socialismo alemão]!”

E no começo da Segunda Guerra, quando ainda estavam juntos, Hitler definiu assim a aliança: “A Alemanha e a Rússia [bolchevista] se completam de maneira maravilhosa. Elas são feitas verdadeiramente uma para a outra” (Adolph Hitler, apud Hermann Rauschning, “Hitler m’a dit, Coopération”, Paris 1939, pág. 154). E fez questão de reforçar várias vezes depois da quebra da aliança com a União Soviética que continuava firme aos ideais socialistas: “Eu vos peço que leveis convosco a convicção de que o socialismo, tal qual nós o compreendemos, visa não à felicidade dos indivíduos, mas sim a grandeza e o futuro da nação inteira. É um socialismo heróico. É o laço de uma fraternidade de armas que não enriquece ninguém e põe tudo em comum” (Mesma obra, mesma referência, pág. 201).

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Leia a seguir dois trechos do discurso de Adolf Hitler em Primeiro de Maio de 1927, citado pelo seu célebre biógrafo John Toland, em sua obra “Adolf Hitler: The Definitive Biography”, de 1976. Na época desse discurso, a aliança entre os irmãos gêmeos Partido Comunista alemão e Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialista, que levaria Hitler ao poder, estava mais forte do que nunca. Eram, como o próprio Hitler confessa, irmãos de sangue ideológico. Eis os trechos: “'Nós somos socialistas, nós somos inimigos do atual sistema econômico capitalista para a exploração dos economicamente fracos, com seus salários injustos, com sua indecorosa avaliação do ser humano de acordo com a riqueza e a propriedade em vez de sua responsabilidade e desempenho, e nós estamos todos determinados a destruir esse sistema sob todas as condições”; “Há mais do que nos une ao bolchevismo do que nos separa dele. Há, acima de tudo, um sentimento genuinamente revolucionário, que está vivo em todo o lugar na Rússia. Eu sempre considerei essa circunstância, e dei ordens para que ex-comunistas sejam admitidos no Partido imediatamente. A pequena burguesia socialdemocrata e os sindicalistas nunca serão um nacional-socialista, mas o comunista sempre será”.

Hitler costumava dizer, depois de romper com seus irmãos ideológicos, que o marxismo soviético era um “marxismo judeu”, enquanto o marxismo dele era um “marxismo purificado”, que preferia chamar ainda de “verdadeiro socialismo”. Dizia ele que não era apenas o vencedor do marxismo, mas o realizador do verdadeiro e puro marxismo: “Eu não sou apenas o vencedor do marxismo. Se se despoja essa doutrina de seu dogmatismo judeu-talmúdico, para guardar dela apenas o seu objetivo final, aquilo que ela contém de vistas corretas e justas, eu sou o realizador do marxismo” (Pág. 211).

Vamos a mais Hitler: “Eu aprendi muito do marxismo, e eu não sonho esconder isso. (…) O que me interessou e me instruiu nos marxistas foram os seus métodos . (…) Todo o Nacional Socialismo está contido lá dentro. (…) O Nacional Socialismo é aquilo que o marxismo poderia ter sido se ele fosse libertado dos entraves estúpidos e artificiais” (agora páginas 211- 212). Mais um pouco: “Os ensinamentos da revolução, eis todo o segredo da nova estratégia. Eu os aprendi dos bolchevistas e não tenho vergonha de dizer isso” (Pág. 26). E mais um pouco: “É por isto que lhes digo que o Nacional Socialismo é um socialismo em devir, que não se completa nunca, porque seu ideal se desloca sempre” (Pág. 214).

Sei que já foi o bastante, mas vamos a mais de Adolf Hitler:

“Quem quer que esteja preparado para fazer da causa nacional a sua própria, em tal extensão que saiba não haver maior ideal que a prosperidade de sua pátria; quem quer que haja compreendido nosso estupendo hino nacional, ‘Deustchland über Alles’, para significar que nada neste vasto mundo ultrapassa, a seus olhos, a Alemanha, povo e terra – esse homem é um socialista” (Hitler, in “Ascenção e queda do III Reich”, pág. 139).

(Continua...)

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Hitler explica em carta a seu colega Strasser, depois de romper com os colegas soviéticos, que o socialismo ideal que ele pregava deveria se concentrar na luta entre classes raciais superiores e inferiores, e não meramente entre classes econômicas: “Sou socialista, mas de um gênero de socialismo diferente daquele do vosso rico amigo Reventlow. Eu fui um trabalhador dos mais comuns. Não toleraria que o meu motorista comesse pior do que eu. Mas a vossa variedade de socialismo é apenas marxismo. A massa de trabalhadores quer apenas pão e divertimento. Jamais compreenderão o sentido de um ideal, e não podemos ter a esperança de conquistá-los para uma causa. O que temos que fazer é selecionar, numa nova categoria de senhores, homens que não se deixarão governar, como vós, pela moral da piedade. Aqueles que governam devem saber que têm o direito de governar porque pertencem a uma raça superior. Devem manter esse direito e consolidá-lo de maneira implacável. (…) O que pregais é liberalismo, nada mais que o liberalismo. Existe apenas uma espécie de revolução possível, e ela não é nem econômica, nem política, nem social, mas racial, e será sempre a mesma coisa: a luta entre as classes inferiores e as raças superiores que estão no poder. Se, algum dia, a raça superior esquecer essa lei, estará acabada! Todas as revoluções – e eu estudei com dedicação e cuidado – foram raciais…” (Diálogo entre Hitler e O. Strasser narrado por Otto Strasser em “Hitler and I”, Londres, Jonatham Cape, 1940, pág. 114, conforme citado em “Os fascismos”, de Thierry Buron e Pascoal Gauchou, obra da Zahar Editora, edição de 1980, págs. 105 e 106).

O célebre economista Friederich Hayek, em seu livro “O Caminho da Servidão”, pág. 54, lembra ainda que “Hitler declarou em um dos seus discursos, em fevereiro de 1941, que ‘basicamente, Nacional-Socialismo e marxismo são a mesma coisa’”. E como disse nos anos 50 um dos maiores filósofos brasileiros, Mário Ferreira dos Santos, em sua obra “Análise de Temas Sociais”, páginas 56 e 57: “O que temos visto nos últimos anos é um socialista, como Hitler, criar uma das maiores monstruosidades organizadas da História; um socialista, como Lavai, aderir aos inimigos das liberdades humanas; um socialista, como Stalin, tornar-se um czar sangrento, segundo as palavras do sr. Kruchev”.

Além de tudo isso, volto a recomendar: adquira e assista o sensacional documentário “The Soviety Story”.

No mais, também não é verdade que as leis segregacionistas norte-americanas inspiraram o nazismo. Não há uma referência sequer dessa influência nos escritos dos teóricos do nazismo. Tanto o nazismo como o segregacionismo (americano, europeu, africano, indiano etc) são abominações, mas uma não inspirou a outra. A escravidão, o preconceito ao negro e o segregacionismo antecedem em séculos o darwinismo social, que criou o nazismo. E o comunismo não prega a igualdade nos mesmos termos da democracia e do liberalismo econômico. No comunismo, a igualdade não é igualdade de tratamento e de oportunidades, mas a limitação obrigatória de todas as pessoas a uma mesma condição, em nome do “bem”. Na democracia e no liberalismo econômico, diferentemente, igualdade é o princípio de que todos devem ter os mesmos direitos e tratamento perante a lei, e de que deve ser colocada à disposição de todos a possibilidade de terem as mesmas chances e oportunidades para crescerem.

Ademais, o segregacionismo dito “cristão” foi combatido na Europa dos séculos 17, 18 e 19 e nos EUA dos séculos 18 e 19 por... cristãos! Os quacres, os metodistas, boa parte dos anglicanos, presbiterianos e batistas desse período frisado, os irmãos Wesley, John Newton, William Wilberforce, o Grupo de Clapham, Charles Finney, Abraão Lincoln e a quase totalidade dos cristãos do norte dos EUA e boa parte (embora minoritária) dos cristãos do Sul dos EUA etc combatiam a escravidão e o segregacionismo. A lista de nomes e grupos cristãos é longa...

(Continua...)

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E sobre o parentesco entre nazismo e fascismo: Não é verdade que o nazismo é um tipo de fascismo, como os esquerdistas tentam há décadas disseminar tentando desesperadamente esconder o fato claro como o sol de que o socialismo está na base das origens ideológicas do nazismo juntamente com o darwinismo social (Se os mais de 100 milhões de mortos pelo comunismo em cem anos já causam arrepios, imagine acrescentar a essa pilha horripilante os milhões de mortos do nazismo? Além do que, fazer os incautos crerem que o nazismo tenha sido uma espécie de “radicalismo não-esquerdista” – o que é uma grotesca mentira – faria com que as montanhas de cadáveres produzidos por ideologias de esquerda tivessem pelo menos um contraponto: outra pilha de cadáveres produzidos por uma ideologia não-esquerdista, que seria o nazismo. É a filosofia “Estou sujo de sangue, mas você também”. O problema é que não cola. Os mortos do nazismo não estão nessa conta. Estão na conta dos mortos pelas ideologias de esquerda).

Os dois – fascismo e nazismo – são sistemas totalitários, mas o nazismo é especialmente um tipo de socialismo. A ligação do nazismo com o fascismo durante a Segunda Guerra se deu pelo tom nacionalista e xenofóbico dos dois, e principalmente pela aliança estratégica durante o conflito – assim como o Japão se uniu com a Alemanha durante o conflito objetivando uma aliança estratégica, e não por causa de alinhamento ideológico. E assim também como a URSS depois de romper com a Alemanha se uniu estrategicamente com os EUA, Inglaterra e França, mas obviamente não por alinhamento ideológico ou porque gostasse deles (os odiava e tinha como inimigos), mas porque queria ver o fim do inimigo comum: a Alemanha, sua antiga parceira, que apresentava um ideal expansionista semelhante ao dos soviéticos. Depois da guerra, com a Alemanha fora de campo e os europeus enfraquecidos para detê-la, a URSS colocou em campo seu projeto, mas os EUA, como potência nuclear e robustez econômica, puderam fazer frente a ela tentando deter sua expansão – a chamada Guerra Fria. Os EUA podem ter suas falhas, mas sua ascensão no pós-guerra foi importantíssima para limitar a ânsia soviética.

2) Caro Edson, o conceito de democracia dos norte-americanos é verdadeiro, e não meramente propagandístico. Se os EUA não gostassem de democracia, os EUA não seriam o país mais democrático do mundo. Pergunto: Há democracia ou não há nos EUA? Há de sobra. Inclusive, mais do que no Brasil.

Com todo respeito, mas tenho que dizê-lo: É um raciocínio tortuoso concluir que os EUA não gostam de democracia por causa das ditaduras militares na América Latina. Os EUA teriam que ser uma ditadura para que se pudesse afirmar que não gostam de democracia. Além do mais, não se pode confundir amor ou aversão à democracia com o contexto absolutamente excepcional da Guerra Fria, em que os EUA e os demais países do Ocidente tiveram que apoiar ditaduras militares para que as ditaduras comunistas não entrassem nesses países (como dizia Tomás de Aquino, quando não há jeito, prefere-se o mal menor ao mal maior). Pior ainda é concluir que, porque os EUA apoiaram ditaduras militares, “o reconhecimento da tortura como política de estado é algo que subjaz na realidade política desse país, independentemente de o governo ser republicano ou democrata. Ela (tortura) é política de estado”. O que é isso!?! Que salto de lógica é esse?!? Por essa lógica, porque o governo Lula apóia a ditadura genocida do Sudão, a ditadura genocida de Kadafi etc, logo “o reconhecimento da tortura como política de estado é algo que subjaz na realidade política do Brasil, independentemente de o governo ser do PT, PSDB, PMDB etc. Ela (tortura) é política de estado”.

(Continua...)

Silas Daniel disse...

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Ainda por essa lógica, posso dizer que porque esses países são parceiros do Brasil e fazem alianças comerciais e políticas com ele na ONU, logo esses países “não têm a tortura como política de estado, já que apóiam um país democrático”. Que lógica é essa? E que afirmação subseqüente é esta?: “E se não é, está em vias de ser”. Ora, é ou não é? Obviamente não é e espero que nunca seja. Que os EUA nunca deixem de ser um país democrático.

3) Você diz que “É difícil falar que a tortura é uma prática que não deixa seqüelas. Toda prática de torturas deixa seqüelas e a primeira delas é a seqüela psíquica, é o modo como a pessoa vai carregar pelo resto da vida o fato de ter sido submetida a uma situação humilhante, discriminatória e atentatória contra a vida e o caráter. Além disso, temos a seqüela moral”. Ok, você está dizendo então que não dá para aceitar que o “waterboarding” seja considerado pelos especialistas americanos uma tortura que não causa seqüelas. Segundo você, seria difícil aceitar uma afirmação dessas. Ok, só fico pensando então por que os EUA aplicam essa tortura aos seus soldados há mais de meio século em seus treinamentos e toda nação sabe disso, e não obstante ninguém acha que seus filhos e netos estão sendo torturados, e ninguém pediu para parar com esse tipo de treinamento para seus filhos e netos. Por que será? Não seria porque não há risco de vida para os soldados e nem o “waterboarding” deixa seqüelas físicas e psíquicas (depende, claro, da forma em que o aplicam)? Não é condescendência com a tortura, é só uma pergunta lógica inevitável diante desse fato que é a completa condescendência dos americanos com esse método de treinamento de seus filhos.

Concordo plenamente que a tortura é pecado, ou seja, é pecado o atentar contra a saúde física e psíquica de uma pessoa, o violentar a saúde física e psíquica de uma pessoa. Só pergunto: O “waterboarding”, como aplicado pelos agentes, comprometeu a saúde física e psíquica desses terroristas? Como eles estão hoje? Que avaliação os médicos fazem de sua saúde? E mais: Deixar alguém em uma cela em confinamento, mesmo sendo um criminoso, um assassino, um terrorista, não parece mais torturante do que o “waterboarding”, embora seja mais do que correto o confinamento para criminosos desse tipo? O confinamento em si já não é algo humilhante, discriminatório e que pode causar seqüelas psíquicas, e provavelmente muito mais do que o “waterboarding”? Está vendo que a questão não é tão fácil? Se esses agentes tivessem chegado ao mesmo resultado por outros métodos que não o “waterboarding”, a resposta seria mais fácil. Aliás, essa pergunta não estaria nem sendo feita.

Por outro lado, preocupo-me com a brecha que se cria oficializando e legalizando o uso excepcional do “waterboarding” e com o que pode ter o mesmo efeito: simplesmente silenciar sobre o assunto. Se nas cadeias brasileiras ou americanas os policiais já usam métodos, digamos, “mais incrementados” quando diante de um criminoso rebelde na prisão, imagine se legaliza-se o “waterboarding” ou não se diz nada sobre esse assunto, ficando como está.

Por outro lado, digamos que você esteja certo, Edson, e tudo que eu tenho lido a respeito seja errado. Digamos que tudo o que dizem sobre o “waterboarding” é mentira e é um absurdo se aplicar esse método no treinamento dos soldados. Como constatar isso? Eis mais uma razão para que o caso seja averiguado, todos os detalhes e nuances revelados, os documentos sejam colocados sob análise, o método “waterboarding” seja reavaliado etc. Deixar como está, não analisar o caso, acaba, volto a dizer, dando sinal verdade para que se vá além do “waterboarding”. Obama, revele os documentos!

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4) Sobre a CIA: há dezenas de livros no mercado que desmistificam essa história de que a CIA era super-eficiente. Na verdade, ela nunca foi. Ela cometeu dezenas de erros grosseiros em sua história e justamente por isso é hoje uma das instituições mais desmoralizadas dos EUA. E sobre se o atentado poderia ter sido evitado de outra forma pela agência de inteligência americana para que esta não precisasse usar do expediente da “waterboarding” para evitá-lo: você está esquecendo que esse desmantelamento da célula terrorista ocorreu dentro de um contexto que não favorecia uma investigação demorada. Rememorando os fatos: esse atentado não ocorreria meses depois dos atentados de 11 de setembro, quando as agências de inteligência americanas já estariam mais do que calejadas e atentas, mas poucos dias após os atentados ao World Trade Center, ao Pentágono e à tentativa contra a Casa Branca, atentados estes os quais a CIA já havia falhado grotescamente não prevendo. E mais: a CIA só tomou conhecimento de que esse segundo atentado aconteceria por um dos terroristas da Al Qaeda preso, que se gabou dizendo que aconteceria mais um atentado dentro de poucas horas, mais especificamente em pouco mais de 24 horas. Não era algo para meses ou mesmo semanas, mas era questão de horas, pouco mais de 24 horas, uma corrida contra o tempo.

Agora, sobre a comparação entre Israel e EUA: houve uma vigilância maior nos EUA após esses casos e nunca mais ocorreu outro atentado terrorista nos EUA. Fazem 8 anos esta semana que ocorreu o último atentado. De lá para cá, como os israelenses se cuidaram em relação aos seqüestros de aviões, os EUA também se cuidaram em relação aos atentados. Os dois países estão de parabéns.

E sobre as tais armas químicas de Saddam Hussein, já escrevi a respeito neste blog. A Guerra do Iraque foi outra burrada da CIA e que o governo Bush embarcou feio. A CIA garantiu que havia armas químicas de destruição em massa no Iraque e o governo Bush acreditou tanto nessa história que, você deve se lembrar, nos preparativos da invasão do Iraque, gastou milhões de dólares em equipamentos e estratégias baseadas nessa informação. Todo o projeto de invasão era baseado nessa premissa. Porém, quando entraram no Iraque, viram que todos os gastos com a estratégia e equipamentos (detalhados à exaustão nos jornais impressos da época e em infográficos e reconstituições digitais na tevê) foram desnecessários.

(Continua...)

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Por outro lado, não se pode olvidar ainda que Saddam Hussein impediu que os inspetores da ONU entrassem no Iraque durante semanas, tempo que poderia ter sido usado para retirar possíveis armas do tipo; e que, meses após o governo encerrar oficialmente a busca pelas tais armas, surgiu uma denúncia – publicada em livro – de um militar do alto escalão de Saddam Hussein, muito próximo ao ditador, afirmando que Hussein enviou as armas à Síria em aviões civis bem antes da invasão e bem antes dos inspetores da ONU serem liberados por ele para entrarem em solo iraquiano. Mas, como a Síria negou, ficou por isso mesmo. O relatório diz que eram, ao todo, 77 toneladas métricas de urânio enriquecido; 1,5 mil galões de agentes químicos usados em armas; 17 ogivas químicas com ciclosarina, um agente venenoso cinco vezes mais mortal que o gás sarin; mil materiais radiativos em pó, prontos para dispersão sobre áreas populosas; e bombas com gás de mostarda e gás sarin. Esse dado, mencionado apenas em forma de notas pela mídia oposicionista democrata e totalmente omitida pela mídia brasileira, foi enfatizado, por exemplo, pelo jornalista Richard Miniter em seu livro “Disinformation: 22 Media Myths That Undermine the War on Terror”, de 2005, que esteve durante três semanas no topo dos livros mais vendidos nos EUA. Miniter foi colunista dos jornais “Washington Post”, “Wall Street Journal” e “The New York Times”. Há muitos textos de jornais americanos não comprometidos com os oposicionistas democratas que comentam a informação, como o “The New York Sun” (http://www.nysun.com/foreign/iraqs-wmd-secreted-in-syria-sada-says/26514/) e até mesmo a BBC fez referência à história. Agora, o governo dos EUA não levou a história adiante na época, pressionando a Síria, porque não queria criar um novo impasse diplomático, ainda mais logo depois de uma guerra estressante no Iraque. Por isso, o caso ficou por isso mesmo.

5) Sobre o método usado pela polícia inglesa para prender Rudolf Höss (foram muito inteligentes, por sinal), pergunto: Como esse método poderia ser usado no caso dos terroristas? E mais: Os terroristas que sofreram o “waterboarding” estão mortos, feridos ou com seqüelas? Os agentes da CIA mataram gente ou deixaram seqüelas físicas ou psíquicas nos terroristas para salvar pessoas? Eis mais uma razão para se averiguar o caso.

6) A Doutrina Monroe não influenciou o brasileiro a chamar os habitantes dos EUA de americanos. Os EUA nem sequer exerciam qualquer influencia cultural no Brasil nos séculos 18 e 19. Nessa época, quem exercia influência cultural aqui era a Europa. Só no século 20, lá pela década de 30, os americanos começaram a exercer alguma influência cultural no Brasil e, mesmo assim, bem antes disso, desde os séculos 18 e 19, os brasileiros já chamavam os habitantes dos EUA de americanos – e só de americanos. E por quê? Nada mais natural. Assim como o nome do Brasil posteriormente seria Estados Unidos do Brasil, logo quando se tornou república, e nem por isso seus habitantes eram chamados de estadunidenses, mas de brasileiros, os habitantes dos EUA eram chamados há tempo de americanos, e não de estadunidenses, porque o nome do país é Estados Unidos da América. O termo norte-americano não é errado, mas só pode ser usado em referência aos habitantes dos EUA no mesmo sentido em que o termo sul-americano é usado para se referir aos habitantes do Brasil. Não se pode usar o termo norte-americano para designar o habitante dos EUA no mesmo sentido em que se usa o termo brasileiro para designar o habitante do Brasil, pois o nome do país não é Estados Unidos da América do Norte, mas Estados Unidos da América. É o nome do país.

(Continua...)

Silas Daniel disse...

(Continuando...)

O uso desse termo “norte-americano” para se referir aos EUA foi inventado só depois da Segunda Guerra Mundial, no começo da Guerra Fria, e por alguns intelectuais sul-americanos com mania persecutória e de inferioridade. A coisa chegou ao ponto de algumas obras latino-americanas passarem até mesmo a mudar o nome do país, chamando-o de Estados Unidos da América do Norte em vez de Estados Unidos da América! Eis o ápice do antiamericanismo: não aceitar o nome que o país tem.

Outra coisa: se o nome do país é Estados Unidos da América, só posso abreviar o nome do país de duas formas: Estados Unidos ou América, sendo esta última opção a ideal por razões mais do que óbvias. Assim como Estados Unidos do Brasil era chamado só de Brasil, e não de Estados Unidos, os Estados Unidos da América são chamados apenas de América. Assim como a República Federativa do Brasil é chamada de Brasil e não de República Federativa. Assim com não chamo a República Federal da Alemanha de República Federal, mas de Alemanha. Enfim, o termo América pode ser usado tanto para se referir a todo o continente como para designar o país chamado Estados Unidos da América, por questão de lógica e não “influência imperialista”. É assim, repito, desde os séculos 18 e 19, antes mesmo de os EUA se tornarem a maior potência do mundo. Mas, estão tentando fazer que deixe de ser assim. E desde quando estão tentando? Desde que os EUA se tornaram superpotência.

Procurei agora há pouco um link na internet que fale sobre esse assunto também, para não ficar só em minhas palavras. Encontrei o que se segue, um artigo publicado no jornal português “Diário de Notícias”, edição de 23 de novembro de 1998:

http://www.ciberduvidas.com/diversidades.php?rid=1013

É por isso que todos os principais jornais do país não usam “estadunidense” e usam preferencialmente o termo “americano” em vez de “norte-americano” (não que este último seja errado, repito; eu mesmo o aplico, mas só naquele sentido ao qual já me referi acima).

Sobre os filmes: a cena a qual você se referiu em "Meu ódio será sua Herança" reflete apenas o clima político entre os EUA e o México em 1913, época em que se passa a história e que é exatamente o auge da Revolução Mexicana (1910-1920). Aliás, os personagens se envolvem com a Revolução Mexicana, selando seus destinos. E o diálogo de Rita Hayworth com o personagem argentino é mais do que normal. Ele não pergunta se ela é dos EUA, porque disso ele já sabe há tempo. Ela é que responde de forma evasiva à pergunta dele sobre de onde ela é nos EUA, porque não quer dar detalhes de sua pessoa. Quando ele faz a pergunta, quer saber de onde dos EUA ela é, e como ela respondeu evasivamente, citando apenas o seu país, informação óbvia que ele já sabia, e como os americanos se referem aos EUA como América, o oficial argentino não perde a oportunidade de retrucar: “E aqui também não é a América?”. Perceba que a pergunta dele não foi “Mas de que país da América?” ou “Ok, mas de onde na América [aqui com o sentido de continente americano]?”, mas foi “E aqui também [note: “também”] não é a América?”. Ele sabe que ela é americana. Ele apenas retruca engenhosamente para que ela deixe de ser evasiva em sua resposta à pergunta dele sobre onde ela mora nos EUA. Diante dessa pergunta espirituosa, ela então lhe diz de onde ela é na América (em seu país): “Sou de Nova York”.

(Continua...)

Silas Daniel disse...

(Concluindo...)

Ademais, os filmes americanos demonstram, sim, é a ignorância média dos americanos em relação ao mundo à sua volta, inclusive a América Latina. Seu nacionalismo arraigado os leva muitas vezes a só olhar para si mesmos. Tanto é que no século 18 os EUA quase não interagiam com o mundo (Europa, América do Sul etc) culturalmente, só no máximo comercialmente. Tanto é que Tocqueville foi quem primeiro descreveu os EUA para os europeus, de tão distantes que eles eram destes e estes, deles. Os americanos sempre se preocuparam mais com a sua realidade interna, com o seu país, do que com o que está acontecendo no mundo. Só passaram a se interessar mais durante a Segunda Guerra Mundial e depois que o país se tornou superpotência. Mas, ainda hoje, o americano médio cultiva esse desinteresse pelo mundo à volta do seu país. Seu país é o mundo que lhe basta. Por isso que, como já aconteceu tantas vezes em filmes americanos e na vida real, eles pensam que Buenos Aires é a capital do Brasil. Isso não é imperialismo, mas ignorância. É fruto do pensar americano de que o seu país é todo o mundo de que ele precisa conhecer. Para o americano médio, o mundo não é o seu país, o seu país é o seu mundo. Entendeu?

Com isso, não estou dizendo que os EUA – o país – não têm o interesse de ser o carro-chefe do mundo – desde o fim da Guerra Fria essa visão naturalmente se acentuou. Eles querem exercer a liderança mundial, a liderança política, econômica etc, mas o povo americano, de forma geral, é distante em relação aos problemas internacionais. E esse desdém é às vezes interpretado como imperialismo. O imperialismo existe, mas não vem do americano que pensa que Buenos Aires é a capital do Brasil. Não sei se você sabe: boa parte dos americanos é contra o pessoal da Nova Ordem Mundial, do Clube Bilderberg e outros, que planejam um governo mundial. Eles são extremamente nacionalistas e acham que o governo americano tem que deixar sua ânsia globalista e se voltar para as necessidades internas do povo. O imperialismo americano existe, mas é algo implementado pelos líderes políticos e financeiros daquele país e por boa parte dos formadores de opinião dos EUA, e não algo de interesse do americano médio, o povo em si. Inclusive, já estive naquele país algumas vezes e tenho amigos americanos. Esse imperialismo não parte do povo como se fosse uma cultura dele, é mais iniciativa de seus líderes políticos e financeiros e de grupos entre os formadores de opinião. Boa parte do povo é contra isso, principalmente os grupos conservadores.

Espero ter ajudado-o a entender melhor essa questão.

Abraço!

alex carrari disse...

Fiquei com sérias dúvidas ao pensar em postar um comentário, pois não dá pra saber o que é post e o que é comentário, de tão prolixo que você é em suas respostas. Mas pelo que entendi, para você os fins justificam os meios, certo? Já que você é um expert em Bíblia por favor encontre respaldo bíblico pra justificar tamanha ofensa contra a vida, seja lá de quem for. Você deveria saber também que Jesus disse para amar e orar pelos inimigos. Eu não encontrei - pelo menos até agora - o Mestre dizendo para eliminarmos nossos desafetos, tampouco usarmos de expedientes horrorosos seja lá qual for a finalidade.
Por favor me responda:

Qual tipo de tortura não deixa sequelas? Me mostre apenas uma, provada cientificamente, psicologicamente e claro bílbicamente. Caso seu pudor exagerado pelas Escrituras - embora aparentemente você mostre desprezo pela vida - o faça arredio as duas primeiras disciplinas me contento apenas com a prova bíblica.

Alex Carrari