domingo, 19 de agosto de 2007

Abraham Kuyper: o homem que dedicou sua vida à luta por uma igreja viva e à defesa e proclamação dos valores cristãos na sociedade do século 19

Pastor, teólogo, professor, estadista e jornalista, Abraham Kuyper foi um dos maiores nomes da Igreja no século 19. Sobre ele afirmou reverendo Martin Lloyd-Jones: “Sua obra se ergue como um monumento da única oposição verdadeira a toda idéia por trás da Revolução Francesa” (Isso porque a Revolução Francesa criou sua própria religião: o chamado "culto à razão", onde Deus era rechaçado. E essa onda, infelizmente, acabou afetando também a Teologia, fazendo aflorar o liberalismo teológico).
Na época do nascimento de Kuyper, o racionalismo anticristão começava a influenciar fortemente a Holanda, antes considerada uma fortaleza da fé bíblica (Hoje, então, não há nem sombra disso lá). Só para se ter uma idéia de como estava a coisa, os próprios interesses políticos do período favoreciam essa influência. O rei William I chegou a favorecer a teologia liberal nas faculdades holandesas para enfraquecer a doutrina da Igreja Reformada e, assim, controlá-la. Foi nesse contexto que nasceu Kuyper, mais exatamente em 1837, em Maassluis, na Holanda, filho de um pastor. Ele formou-se doutor em Teologia na Universidade de Leiden em 1862. Ma isso não significa que nessa época ele estava bem. Em Leiden, o jovem Kuyper absorveu idéias antibíblicas.
Sobre esse período, diria depois: “Em Leiden, estava entre os que aplaudiram calorosa e ruidosamente quando nosso professor manifestou sua ruptura total com a fé na ressurreição de Cristo. Hoje, minha alma treme por causa da desonra que outrora infligi a meu Salvador”. Mesmo incrédulo, aceitou ser ordenado pastor de uma congregação em Beesd, povoado de Gelderland, onde ficou por quatro anos. Foi ali que se converteu.
Os membros de sua igreja, crentes fervorosos, o levaram à fé viva na Bíblia. Entre eles, a jovem camponesa Pietje Baltus. Ela fazia objeções à pregação de Kuyper, testemunhava sobre o poder transformador do Evangelho na sua vida e incentivava o líder a estudar pormenorizadamente as confissões de fé e determinados textos bíblicos. Foi nesse estudo que Kuyper rendeu-se a Cristo e compreendeu a fragilidade dos argumentos da teologia liberal.
Em 1870, Kuyper mudou-se para Amsterdã para se tornar pastor da famosa Igreja de Nieuwekerk. Ali, um milagre aconteceu: aquela cidade, antes baluarte da teologia liberal, foi avivada pela pregação do jovem pastor. Conta-se que multidões afluíam para ouvi-lo defender apaixonadamente a ortodoxia bíblica. Assim, Kuyper tornou-se o mais notório líder da ala ortodoxa da Igreja Reformada Holandesa, trabalhando por uma igreja livre do controle do Estado. Mas, como não ocorriam as mudanças devido à oposição dos adversários, cerca de 200 congregações, num total de 170 mil crentes, formaram, em 1886, “A Igreja dos Tristes”, assim chamada porque esses cristãos foram forçados, pelas circunstâncias, a retirar-se de suas igrejas. Foi uma cisão triste, mas necessária para a época.
Kuyper escreveu livros e artigos sobre Teologia, Filosofia, Política, Arte e questões sociais, expressando sempre um conceito cristão de mundo. Aliás, ele é considerado, ao lado de Francis Schaeffer, o pai do estudo da cosmovisão cristã.
Por entender que a educação teológica é da maior importância e em resposta ao liberalismo que invadira as faculdades, Kuyper fundou a Universidade Livre de Amsterdã. Quando ela iniciou suas atividades em 1880, ele declarou no discurso inaugural: “Quando nos omitimos na esfera educacional, deixando que Satanás proclame suas filosofias abertamente e sem contestação, estamos fazendo justamente o que Deus não permite: deixamos que sua glória seja dada a outrem”.
Justamente por também acreditar que “toda verdade vem de Deus”, Kuyper não criou um simples curso de Teologia, mas uma universidade onde todos os currículos, artes e ciências eram parte de uma cosmovisão bíblica. Ele lecionou ali Teologia, Homilética, Hebraico e Literatura.
Antes, em 1874, ampliando a luta, sentiu de afastar-se do ministério para, além de dedicar-se à educação, concorrer (e acabou sendo eleito) ao parlamento pelo recém-formado Partido Anti-Revolucionário, primeiro partido político moderno da Holanda. No mesmo ano, já eleito, falando ao parlamento, leu Tiago 5.1-11 e defendeu a elaboração de um código que protegesse o trabalhador, numa época em que tais códigos não existiam no mundo. Em 1900, seu partido chegou ao poder e Kuyper se tornou primeiro-ministro, função que exerceu até 1905. Suas principais conquistas foram o reconhecimento, por parte do Estado, do direito dos cristãos conduzirem suas próprias escolas; a ampliação do direito a voto; e a criação da primeira legislação trabalhista de seu país.
De 1905 a 1920 (ano de sua morte), já idoso, o incansável Kuyper decide agora passar a exercer sua influência como redator de um jornal. E conseguiu. Até hoje, suas palavras continuam vivas em seus livros e artigos, e seu exemplo permanece: o de um homem que, em sua geração, não se acomodou diante da onda liberal, mas lutou por uma Igreja viva e pela defesa e proclamação dos valores do Reino de Deus em meio a uma sociedade corrompida. Pensemos nisso.

15 comentários:

Gutierres Siqueira, 18 anos disse...

A paz do Senhor, pr. Silas.
Abraham Kuyper � exemplo que, pessoas que comungam com a teologia liberal podem se arrepender de seus erros e voltar para a ortodoxia teol�gica. Oremos por aqueles que forma "seduzidos pelo conto da sereira"!

Gutierres Siqueira
www.teologiapentecostal.blogspot.com

Victor Leonardo Barbosa disse...

é triste vermos um país que já teve grandes bençãos como a Holanda, com grandes homens como Erasmo e Kuyper estar do jeito que está...que Deus tenha misericórdia da Europa!!!

Abraços pastor Silas e Paz do Senhor!!!

Silas Daniel disse...

A Paz do Senhor, Gutierres!

É isso mesmo. Bons exemplos devem ser seguidos, e Kuyper é um deles. É possível voltar atrás, abandonar conceitos equivocados, desde que haja humildade e disposição para isso. Kuyper não só teve como empenhou o resto da sua vida à defesa e proclamação dos princípios da Palavra de Deus em meio a uma sociedade corrompida.

Gostei da sua colocação: "Oremos por aqueles que foram seduzidos pela canto da sereia". Toda apologética cristã sadia deve ser firme, segura, contundente, mas também cheia de amor. A apologética com ódio, por mais que a defesa que se faz seja justa, afasta as pessoas; a verdadeira apologética é para aproximar as pessoas, para trazê-las para a verdade. Por isso, todo apologista deveria ser também um homem de oração; um homem que ore para que Deus lhe dê graça, pois reconhece que só o Espírito Santo de Deus é quem pode realmente convencer e converter; e para clamar em favor daqueles que se distanciaram da Verdade. Já dizia Lutero que "a oração é a respiração da alma"

Oração e ação; ação e oração. Que nunca nos falte isso!

Um abraço!

Silas Daniel disse...

Caro Victor,

É verdade. Se que nem tudo que Erasmo escreveu é bom, mas a maioria é. E sua defesa a Lutero e o posicionamento pró-Reforma Protestante foram grandes virtudes. Foi um dos maiores nomes da História da Holanda, sem dúvida. Kuyper, por sua vez, foi um baluarte da cosmovisão cristã.

Que pena que hoje a Holanda é o que é: um dos países mais liberais (se não o mais liberal) do mundo! Já legalizaram o uso das drogas, a prostituição como profissão, o aborto e o casamento homossexual. O próximo passo, segundo os joranis, é legalizar a pedofilia. É o fim!

E pensar que a Holanda foi a terra de Kuyper e Zwinglius!

Sei de poucas igrejas, pequeninas igrejas, que tentam resgatar o Evangelho ali. Que Deus os ajude nessa tarefa.

Oremos pela Holanda. E lutemos para que o que chegou lá não chegue aqui.

Um abraço!

Victor Leonardo Barbosa disse...

Ah pastor, esqueci de dizer, se possível visite também o Blog GQL, esperamos a sua visita e o seu comentário,
Abraços,

http://gqlgeracaoquelamba.blogspot.com

Pastor Marcos Tuler disse...

Caro pastor Silas, todos sabemos que a Teologia Liberal é recheada por convicções contemporâneas de novas ideologias filosóficas e culturais apartadas do Senhor e de seus santos propósitos. Muitos incautos, do passado e do presente, tidos como "homens de Deus", têm se deixado levar por seus encantos. Todavia, ainda há tempo para os "liberais sem causa" de hoje se arrependerem de seus pecados contra o Altíssimo e sua bendita Palavra.
Pr. Marcos Tuler

Silas Daniel disse...

Pastor e amigo Marcos Tuler,

É isso aí. Kuyper é um exemplo extraordinário de que um teólogo liberal pode se converter ao Evangelho e ainda marcar sua geração dedicando sua vida à causa do Reino de Deus. Que muitos liberais de hoje possam seguir seu exemplo!

Silas Daniel disse...

Victor,

Obrigado pela dica do blog. Vou visitá-lo. Aproveitando, no meu comentário sobre sua primeira postagem, cometi alguns errinhos de digitação. Na primeira linha, eu quis dizer: "É verdade. Se bem que nem tudo que Erasmo escreveu...". Faltou o "bem". E na última linha do segundo parágrafo, onde enonctra-se "joranis", leia-se "jornais".

Um abraço!

ALTAIR GERMANO disse...

Amado pastor Marcos Tuller, estamos envolvidos numa campanha de divulgação e multiplicação de leitores de blogs cristãos na blogosfera. Gostaria de participar?

Uma idéia geral do que se trata pode ser lido em http://altairgermano.blogspot.com/2007/08/blogosfera-evanglica_05.html

Paz do Senhor!

ALTAIR GERMANO disse...

Em tempo: Amado Pr. Silas Daniel

Silas Daniel disse...

Olá, pastor Germano!

Vou fazer uma visita no link fornecido para melhor me inteirar do assunto, mas já posso dizer que, em linhas gerais, parece uma idéia interessante.

Paz do Senhor!

Anônimo disse...

Graça e Paz querido Pr Silas!

Realmente vivemos tempos difíceis. Quando não é o racionalismo cristão é o misticismo cristão.
A expressão de Kuyper "minha alma treme por causa da desonra que outrora infligi a meu Salvador" não demonstraria que ele se enveredou na Teologia Liberal por influência dos professores das Universidades de então e não por convicção própria? Qual sua avaliação?
Dado que Kuyper retornou para a ortodoxia teológica e devoção prática (graças a Deus)aproveito para lhe perguntar sobre quem possivelmente retornaria mais fácilmente para a ortodoxia nos dias de hoje: os racionais ou os místicos? O Sr idealiza a questão de que os misticos precisam retornar ao padrão cristão também?
Na Paz do nosso mestre,
Pb Gilson Barbosa

Silas Daniel disse...

Caro Gilson,

Como não podemos sondar o coração do Kuyper para saber até que ponto era o seu envolvimento com a Teologia Liberal, devemos nos satisfazer com seus escritos e com o que dizem seus biógrafos. E ambos afirmam que, devido à influência que sofreu na universidade, Kuyper tornou-se, na juventude, um liberal convicto. Inclusive, muito tempo depois, quando tocavam no assunto, Kuyper costumava testemunhar, com certo pesar, que fora um liberal convicto no passado.

Sobre sua segunda pergunta, acho que é muito difícil saber quem é mais difícil de voltar ao padrão bíblico: o racionalista ou o místico. Vai depender da disposição dessas pessoas em abrirem-se para o ensino genuíno da Palavra de Deus, para que ela os oriente, esclareça e provoque a transformação necessária em suas vidas. Olhando por um lado, parece ser o racionalista o mais difícil. Por outro, parece ser o místico. Porém, o problema está mesmo na disposição do coração e não em qual extremo é mais "poderoso" para desviar.

Respondendo à última pergunta, sobre os místicos, a minha resposta é sim. Há muito misticismo cristão hoje em dia no Brasil, mais do que cristãos racionalistas frios. Há muito fervor sem Palavra nos dias de hoje (abordo bem isso em alguns capítulos do meu livro "Como vencer a frustração espiritual"), o que gera práxis e teologia bizarras. Porém, devemos nos preocupar tanto com um extremo quanto com o outro: tanto com o racionalismo dos liberais quanto com as anomalias do misticismo evangélico.

Um abraço!

Pastor César Moisés disse...

Caro Silas Daniel

Exemplos como este devem ser trazidos a lume para que aja uma reação positiva em nosso meio.

É bom que nossos jovens obreiros e aspirantes ao ministério encontrem referenciais para se equiparar.

Um abraço

Silas Daniel disse...

Amigo César,

Grandes exemplos sempre devem ser evidenciados para que vidas sejam inspiradas. Na medida do possível, estarei falando de alguns deles aqui, principalmente aqueles que não são muito conhecidos ou são pouco propalados em nossos dias. Kuyper abriu a série.

Um abraço!