sábado, 14 de agosto de 2021

A deterioração do estado de direito no Brasil


É triste ver a deterioração rápida do estado de direito em nosso país, e partindo justamente daquele ente do Poder Judiciário que deveria ser o guardião das normas constitucionais.

Vivemos em uma juristocracia há muito tempo. O gérmen disso se deu em 2004, quando foi aprovada pelo Congresso a Emenda Constitucional 45, que estabeleceu uma reforma no judiciário brasileiro com vários avanços muito importantes, mas com outras medidas questionáveis, como a criação do Conselho Nacional de Justiça, da Súmula Vinculante e de mecanismos que aumentavam o poder do STF. Com o avanço do “controle concentrado de constitucionalidade”, o STF começou a redesenhar as normas constitucionais por meio da reinterpretação delas. Afinal, desde o final dos anos 80 e início dos anos 90 havia crescido a simpatia entre os operadores do Direito em nosso país pelo chamado “direito alternativo” ou “ativismo judicial”. Vide o livro “O Poder dos Juízes” (1996), de Dalmo de Abreu Dallari. O conceito em si de ativismo judicial já fere o princípio da harmonia entre os poderes, pois o juiz, baseado em uma suposta leniência e omissão do legislativo, assume uma postura que foge da atuação meramente técnica e judicial, fazendo, na prática, as vezes do legislativo por meio da reinterpretação forçada da lei. O curioso é que, quando vamos buscar as bases da acusação de “leniência e omissão” do legislativo para a adoção dessa postura pelo judiciário, vemos que são todas em relação a matérias progressistas, rechaçadas pela maioria da população e, por isso, também pela maioria do parlamento, mas adoradas pela elite intelectual progressista, que vê na burla do ativismo judicial uma forma de, por outras vias, fazer com que seu ideal de mundo melhor se materialize. Nas palavras do próprio ministro Barroso, um dos adeptos dessa visão, o STF não deveria exercer mais uma atividade meramente técnica, mas deveria ser uma “vanguarda iluminista”, com o objetivo de “promover, em nome dos valores racionais, certos valores civilizatórios e empurrar a história” para frente. “Promover certos valores”. “Empurrar a história”. Não são mais juízes falando, mas advogados de uma causa camuflados de juízes.

Some-se a esses fatores o fato também de que, nas últimas décadas, a formação do STF passou a ser constituída de juízes com viés progressista, amantes do garantismo penal e do ativismo judicial, e temos a conjuntura perfeita para o desastre. É verdade que, nos primeiros anos desse cenário, havia apenas casos pontuais de extrapolação de funções; preocupantes, mas ainda poucos. Ainda havia pudores. Mas os inícios costumam ser assim: cercados de certa inibição para estudo melhor do terreno, para se testar com segurança até onde se pode ir sem contrapartidas indesejadas. Avanço lento de jardas. Era preciso um “empurrãozinho” para açular a sanha desavergonhada e luciferiana de poder. Faltava uma conjuntura que fizesse os nossos togados perderem os limites. Mas ela viria.


Desde agosto de 2002, pelo menos um estímulo psicológico já havia sido dado: a criação da TV Justiça. Agora, não eram só o Executivo e o Legislativo em Brasília que tinham suas mídias, mas o próprio Judiciário; no caso, seus tribunais superiores. Logo, ficaram cada vez mais vaidosos pela exposição midiática. Um sinal disso é que, antes das transmissões pela TV das sessões do STF, a leitura dos votos não era tão longa. Agora, passaram a ser costumeiramente mais longas e as afetações e discussões públicas entre os ministros aumentaram com a presença das câmeras. Os votos passaram a ser também mais combinados. As atuações em público passaram a ser mais ensaiadas. Viraram atores.


Então, veio o estrelato! A TV Justiça tinha pouco mais que um traço de audiência, mas, quando veio o julgamento do “Mensalão”, agora estavam na Grande Mídia com frequência. Tornaram-se protagonistas. Bem, seja por vaidade ou não, o que se esperava é que pelo menos fizessem o que deveria ser feito. Entretanto, apesar da gravidade daquele caso (o Executivo comprando o Legislativo), devido ao velho vício garantista somado às lealdades pessoais de alguns, eles, no geral, amenizaram um pouco para o lado dos políticos nas condenações (os maiores beneficiados pelo esquema), pesando a mão mais sobre os meros operadores do esquema.


Aí veio a “Lava Jato”. O Ministério Público, uma espécie de quarto poder da República pela Constituição de 1988, tomado agora de uma nova geração de promotores idealistas e possuída pelo clima nacional pós-escândalo do “Mensalão”, viu cair no seu colo, em Curitiba, por acaso, o escândalo do “Petrolão”. Estavam investigando uma coisa e acharam outra imensamente maior, chegando às entranhas da nossa República. O caso provocou inicialmente divisões de posição no STF: alguns contra, outros a favor - isso porque, nessa época, a Lava Jato ainda não havia chegado no PSDB e no PMDB, o que ocorreria somente em 2016. Quando chegou, tudo mudou, se formando uma maioria esmagadora entre os ministros no que tange a críticas à Lava Jato. Mas, enquanto essa convergência não vinha, Lula dizia que os ministros do STF estavam “acovardados”, que tinham que fazer alguma coisa para deter a Lava Jato. Afinal, onde está a lealdade aos seus padrinhos? A maioria dos ministros foi colocada lá pelos governos do PT. Tempos depois da fala de Lula, Wadih Damous, advogado do PT, chegou até a dizer em video que o STF deveria ser fechado. Ninguém do STF falou em prender Damous por isso.


Bem, a verdade é que alguma coisa começou a ser feita. Quando Dilma é “impichada” no final de 2016, o então presidente do STF, Ricardo Lewandowski, colocado lá pelo governo do PT, opera uma cirurgia no texto constitucional, criando uma interpretação do texto que na escola primária daria zero para qualquer aluno, para, por meia dessa deformação, promover o fatiamento do artigo que trata das consequências do impeachment na Constituição. No caso de Collor, cumpriu-se o texto constitucional; no caso de Dilma, rasgaram a Constituição para ela continuar elegível. O texto constitucional foi violentado na cara dura. Em outro episódio absurdo, o STF ainda iria fazer com que as uniões homoafetivas fossem abarcadas pelo conceito de família, indo frontalmente contra o texto constitucional, que afirma que a entidade familiar é constituída pela união entre homem e mulher. Decidiram contra o texto constitucional, descaradamente. E legislariam outra vez, criando o crime inexistente de homofobia e descriminalizando o aborto nos três primeiros meses de gravidez. O Legislativo ainda ensaiou um protestozinho pela usurpação de poderes “só para inglês ver”, pois no final ficou tudo por isso mesmo.


Como diria o poeta romano Juvenal, “quem vigia os vigilantes?”. Até há quem possa fazê-lo: o Senado. Mas está de joelhos para o STF. Muitos parlamentares na Câmara e no Senado têm processos no STF.


Um detalhe curioso: em 2018, em uma sessão em que se discutia a proibição de doação oculta, Gilmar Mendes, apelidado pelo povo de “o laxante do Brasil”, teve uma discussão com Barroso em que aproveitou para lançar no rosto dele a manobra feita por Barroso em uma turma do STF em 2016, quando este votou pela soltura de 5 médicos e funcionários de uma clínica de aborto e decidiu por 2x1 a descriminalização do aborto até o terceiro mês de gravidez. Na ocasião, revoltado pela exposição da manobra, Barroso chamou seu colega de atraso, de um ser mal, psicopata etc. Evoco esse episódio para lembrar que o comportamento público dos ministros também tem sido deletério há muito tempo. Dá para reunir uma imensa coleção de xingamentos entre os ministros do STF nas últimas duas décadas, todos públicos e documentados em vídeo. Um grande exemplo moral para a sociedade, não é mesmo? Por falar nisso, o próprio STF, que hoje reclama dos xingamentos do presidente da República, esquece que, antes destes acontecerem, os ministros da corte chamaram a administração do presidente de desgoverno e o chamaram de fascista, autoritário etc. Sem falar da criação de um inquérito inconstitucional para perseguir apenas e tão somente apoiadores do presidente - um inquérito que, ademais, terminou sem provas e que, uma vez extinto, ainda criaram absurdamente outro idêntico (já falarei disso). Não estou aqui a abonar os xingamentos do presidente, os quais reprovo em qualquer caso (aliás, ele peca muitíssimo pela fala), mas apenas apontando para a cronologia dos fatos, a relação de causa e efeito, um duplo padrão e essa falta de se olhar no espelho. Vaidade das vaidades. Arrogância das arrogâncias.


(Por falar de Barroso, em 2014, seu voto foi decisivo para a absolvição de José Dirceu e mais 7 do crime de formação de quadrilha no caso do “Mensalão”. Lembro isso para ressaltar que é falsa a impressão de alguns de que ele só peca na militância de causas progressistas - aborto, liberação de drogas etc -, sendo duro contra a impunidade. Logo ele, o advogado de Cesare Battisti?).


Mas voltemos a 2018. Toda essa conjugação de movimentos minou os nossos já não tão sólidos “pesos e contrapesos” no Brasil. Só que até aqui o STF usurpara apenas poderes do Legislativo. Agora, faltava invadir os poderes do Ministério Público e do Executivo. Aí estaríamos em uma juristocracia perfeita. E aconteceu. Deram um dedo, pegaram a mão; cederam a mão, pegaram o braço.


Em 2019, nasce o famigerado “inquérito das fake news”, que censurou a revista “Crusoé” por uma denúncia contra Dias Toffoli, mas que depois foi relevado pelas próprias vítimas (os jornalistas do site “O Antagonista”, donos da “Crusoé”) quando o inquérito foi usado logo depois para atacar somente os seus desafetos bolsonaristas - o que mostra que para alguns jornalistas a liberdade de expressão não é questão de princípio, mas de quem é prejudicado pela arbitrariedade: se sou eu ou se é alguém que eu não gosto, que quero ver silenciado do debate público.


O inquérito tinha vários problemas. Para começar, tratava de um crime que não é previsto em lei (“fake news”) e ainda foi aberto pelo próprio STF em ato de ofício, o que não é permitido por lei. Só quem pode abrir inquérito é o Ministério Público com a Polícia Federal. Ou seja, o STF, violando o sistema legal, fez as vezes do Ministério Público e se tornou vítima, investigador e juiz do mesmo inquérito. Ora, o órgão que comanda a investigação não pode ser o que julga e a vítima dos que são investigados. E muito menos cometer uma aberração jurídica dessas, uma monstruosidade legal desse tamanho, para perseguir um grupo político. Isso é absurdo, imensamente absurdo! Isso subverte não só o sistema legal e o estado de direito como a própria ordem democrática.


Para piorar, usaram como base para isso não a lei (porque não encontrariam nada lá para sustentar esse ato), mas um artigo do Regimento Interno do STF que afirma que se um crime for cometido nas dependências do STF, este poderia excepcionalmente determinar de ofício a abertura de um inquérito. Só que não houve crime nas dependências do STF. Logo, não poderiam abrir o inquérito. Então, em mais um ato absurdo, Toffoli, então presidente do STF, interpretou que se o suposto crime foi cometido pela internet e os ministros assistem internet, então as dependências do STF são o Brasil inteiro (sic)! Foi isso mesmo que você leu. E ainda foi apoiado pela maioria dos seus pares no tribunal! Isso é o STF.


A Procuradoria Geral da República por duas vezes - sob Raquel Dodge e Augusto Aras - exigiu o arquivamento do processo por ser inconstitucional. E o STF ignorou solenemente. E avançou sobre os apoiadores do presidente nas redes sociais. Afinal, “quem vigia os vigilantes?”. O Senado, que poderia fazer algo, outra vez não fez nada. Alcolumbre, que além de ter processos no STF era contra o governo, queria mesmo que os apoiadores do presidente fossem perseguidos. Dessa forma, houve prisões, invasão de domicílio, apreensão de bens, quebras de sigilo, derrubada de contas na internet etc. O primeiro delegado do inquérito, ao lê-lo, disse que não tinha base alguma e se recusou a levar adiante as investigações. Logo, o STF exigiu trocar o delegado e ainda impediu o presidente da República de trocar o superintendente da Polícia Federal, quando não havia impedimento algum legal para o presidente fazê-lo. Então Augusto Aras aceitou chancelar o inquérito, mas somente se o STF passasse para o Ministério Público a condução do inquérito, pois isso não cabia ao tribunal. O STF aceitou, mas também teve os delegados que escolheu à frente do caso (outro absurdo). Foram feitas todas as investigações e diligências. Jornalista foi preso e ficou paraplégico na prisão. Dezenas de cidadãos apoiadores do presidente foram presos ou tiveram seus bens apreendidos, dentre eles jornalistas de mídia independente e empresários, além de cidadãos comuns. Foram presos ou investigados por crime de opinião. Seus advogados não puderam ter acesso à totalidade do inquérito (o ministro Alexandre de Moraes proibiu), desrespeitando o que é garantido por lei. E a moça que foi presa porque disseram que havia lançado fogos de artifício na frente do STF descobriu-se que, como ela afirmava, realmente não o fez (A ironia é que, em um passado recente, militantes de esquerda vandalizaram o prédio de Carmen Lúcia - algo absurdo - e ficou por isso mesmo, mas a moça bolsonarista foi presa por soltar fogos na frente do STF, algo muito menor e que, no final, para piorar, nem foi feito por ela). Em suma, ao cabo de toda essa investigação de meses, não foi encontrada uma só prova contra ninguém. Logo, não se instaurou ação nenhuma contra ninguém porque não havia prova alguma das acusações. E todos foram soltos. Mas o estrago na vida dessas pessoas já estava feito.


Não satisfeito, o STF abre outro inquérito do mesmíssimo jeito, outra vez de forma ilegal e com o mesmo teor, só mudando o nome do suposto crime: o “inquérito dos atos antidemocráticos”. Mais uma vez, ele toma como crime suposto algo não previsto em lei e de uma abstração genérica, indefinida, onde cabe qualquer coisa. Um acinte. Novamente, os alvos são todos apoiadores do presidente. Foi usando esse inquérito, por exemplo, que o STF mandou prender o deputado federal Daniel Silveira e o presidente do PTB, Roberto Jefferson, ambos apoiadores do presidente. Não concordo com determinadas posições deles e muito menos com a retórica agressiva do discurso de ambos (no caso de Roberto Jefferson, também muito caricato), mas a prisão de ambos é ilegal.


Relembremos o caso de Daniel Silveira: o STF foi votar pela soltura de Lula em 2018. O general Villas Bôas, então, critica a medida e a soltura acaba não acontecendo. Fachin, que anos depois decidiria pela soltura de Lula, resolve, três anos depois do episódio de 2018, escrever uma nota contra o general, quando este não se encontra mais em condições físicas de responder. O deputado federal Daniel Silveira, tomando as dores do general, faz uma live onde usa termos chulos contra Fachin e diz que ele e seus pares têm medo dos generais por causa do AI-5. Apesar de ter feito um discurso político (ainda que de péssimo gosto) e, portanto, abrigado em sua imunidade parlamentar (que a Constituição afirma que até em estado de sítio o parlamentar continua a ter); apesar de o crime cometido pelo deputado (injúria e difamação) não ensejar prisão em flagrante; apesar de o crime cometido não ser nenhum crime inafiançável (quais sejam: racismo, tortura, tráfico de drogas, terrorismo, ações armadas contra a ordem constitucional e o estado de democrático, e crimes hediondos); apesar de tudo isso, o parlamentar é preso. Para piorar, é preso com base no inquérito inconstitucional dos “atos antidemocráticos”. Pior ainda: além do inquérito ser inconstitucional e a ordem de prender ser inconstitucional, o STF decreta de ofício a sua prisão e inventa o “mandado de prisão em flagrante delito”. Ora, se é prisão em flagrante, não há mandado; e se é mandado, não há prisão em flagrante. Mas e daí? É o STF! Quem vai questionar o STF?


Quer mais? Na decisão, além de tudo estar errado, o STF usa como argumento para mandar prender o deputado a afirmação de que ele estaria pregando no vídeo a volta do AI-5, e então utiliza, para prendê-lo, um artigo da Lei de Segurança Nacional, já que na Constituição não se encontra base nenhuma para prendê-lo. Detalhe: a Lei de Segurança Nacional foi instituída… pelo AI-5!


Mas isso não é suficiente: quando o deputado é preso, não havia fiança. Ora, mas Daniel Silveira não cometeu nenhum crime inafiançável, que são os únicos que poderiam ensejar a sua prisão em flagrante como parlamentar. Então, por que é inafiançável? Os advogados dele questionam, pedem a base jurídica para isso. Como não há, o STF decide que vai ter fiança e estipula o valor e a data limite para pagar. O deputado então faz uma “vaquinha” na internet e consegue o valor. Quando o advogado dele vai fazer o depósito, o STF bloqueia as contas para que a fiança não possa ser paga a tempo. O advogado do deputado então cria uma conta exclusiva para pagamento da fiança e deposita o valor em juízo. Logo, Daniel Silveira deveria ser solto. Mas não é, porque o STF diz que ele tentou fugir. Ora, por que, se já estava pagando fiança? Para piorar, comprova-se que não houve tentativa de fuga. Então o deputado foi solto? Não. Pagou fiança, não tentou fugir e não foi solto. E a Câmara dos Deputados, assim como já ocorre com o Senado, de joelhos para o STF, ainda cassa o mandato do deputado.


Você não precisa gostar do Daniel Silveira ou concordar com o que ele diz - seja na forma, no conteúdo ou nos dois - para admitir que isso tudo é uma arbitrariedade.


No caso de Roberto Jefferson, o Ministério Público se manifestou contrário e ainda assim o STF mandou prender. Como bem lembrou o jornalista Augusto Nunes, “para libertar Lula, o STF decidiu que um ladrão só pode ser preso depois que a sentença condenatória transitar em julgado. Para prender Roberto Jefferson, o STF ignorou a manifestação do Ministério Público e sepultou o devido processo legal”.


E é nesse mesmo inquérito inconstitucional que há poucos dias o presidente da República foi incluído sob o “crime” de “ato antidemocrático” por apresentar um relatório da Polícia Federal cujo sigilo foi suspenso e que trazia um documento assinado pelo TSE comprovando que o sistema do TSE foi hackeado por mais de seis meses em 2018 e que na ocasião as urnas foram violadas. Se houve manipulação dos votos, não podemos saber, porque os “logs” foram apagados (Que conveniência!). E a queixa-crime do TSE, que é um órgão sempre presidido por um membro do STF e com ministros deste entre seus membros, foi endereçada não à PGR, mas a Alexandre de Moraes, do STF, para ele incluir o presidente da República no inquérito inconstitucional, sendo que o pedido é assinado, dentre outros, pelo próprio Alexandre de Moraes, que é membro do TSE! Ou seja, como se não bastasse o fato de que somente a PGR pode abrir um inquérito contra o presidente da República (mas o TSE sequer ouviu a PGR), o STF via TSE (Barroso e Alexandre de Moraes) ainda entra com queixa-crime no próprio STF (Alexandre de Moraes) para ele, STF (Alexandre de Moraes), incluir o presidente da República em um inquérito aberto por ele, STF (Alexandre de Moraes). Isto é, eu assino um pedido para mim mesmo para eu mesmo, e não o Ministério Público, abrir um inquérito contra o presidente da República. Uma barbaridade! E Alexandre de Moraes ainda mandou mudar o delegado do inquérito sobre a violação das urnas do TSE. Quer dizer que o presidente da República não pode escolher o superintendente da PF, o que lhe é garantido pela Constituição, porque isso estranhamente é “interferir na PF”, mas o STF pode mandar retirar delegado de inquérito que investiga crime dentro do TSE, que é presidido pelo STF?


E ainda vemos grande parte da nossa imprensa, devido à sua “paixão incontrolável” pelo atual mandatário da Presidência da República, apoiando tudo isso. A capa das revistas “Veja” e “Istoé” deste final de semana são em exaltação a Alexandre de Moraes e Luis Barroso. Semanas atrás, o jornal “Folha de São Paulo” (aquele cujos colunistas de esquerda são contra o governo e os colunistas de direita - apenas aquela direita permitida, claro - são todos, vejam só, também contra o governo - quanta “imparcialidade”…) publicou uma matéria onde admitia que muitas das manobras do STF eram ilegais, mas tava valendo, porque eram supostamente “em defesa da democracia” (sic). Vários problemas aí: primeiro, os fins não justificam os meios; segundo, não se pode, em nome da defesa do estado democrático de direito, quebrar o estado democrático de direito; e terceiro, ainda fazer isso em nome de um fascismo imaginário, isto é, em cima da minha imaginação de que o presidente, que ainda não cometeu nenhum crime contra o estado democrático de direito, o cometerá no futuro se eu não agir assim (É o “pré-crime”? É “Minority Report - A Nova Lei”?). Enfim, é o golpe “do bem” hoje para evitar o hipotético golpe do mal no futuro.


Talvez seja isso que querem mesmo: para confirmar a narrativa de que haveria ruptura institucional por parte do Executivo, vão até o limite ou além dele para forçar uma. Aí, quando acontecer, se acontecer, irão dizer: “Está vendo! Como eu disse…”. Deus tenha misericórdia de nós e nos livre disso! Que essa crise possa ser resolvida sem chegarmos a isso, pois não seria nada bom para o nosso país. Graças a Deus que o Executivo, apesar de em alguns momentos se exasperar e emitir declarações mais fortes, tem até o presente momento resistido à sugestão de jogar o jogo que eles querem que ele jogue e se mantido no combate aos arroubos totalitários do STF dentro dos limites estabelecidos pela Constituição. Que seja assim até o final!


Uma penúltima ponderação: já está tudo errado termos um Tribunal Superior Eleitoral, algo que só existe no Brasil e em Costa Rica, e mais em nenhuma outra parte do mundo. Não pode aquele que é responsável por administrar a eleição ser quem julga se houve fraude na eleição, quando em caso de acusação de fraude sempre deve se considerar como um dos suspeitos quem administra as eleições. Por isso, em todos os países democráticos, quando há disputas em relação à lisura das eleições, se vai para justiça comum. Ademais, há algumas semanas ouvi um especialista dizer que, em mais de 90% dos casos de fraude de sistemas de qualquer tipo no mundo, o crime é cometido (1) ou por alguém de dentro (2) ou por alguém de fora com a ajuda de alguém de dentro. Logo, ainda mais por isso, que está muito longe de ser impossível, não pode quem administra a eleição ser o mesmo que julga se houve fraude na eleição.


Por fim, não poderíamos deixar de mencionar também ministros do STF, colocados lá por Lula e Dilma, se considerando insuspeitos para votar pela anulação das condenações de Lula e alegando que o juiz Sérgio Moro era suspeito para julgar o caso; e ainda considerando provas obtidas ilegalmente como sendo legais; e desprezando que a condenação de Lula por Moro, seja este suspeito ou não, não só foi confirmada em instâncias superiores como também majorada por juízes de instância superior, os quais acharam que Moro - o suspeito - ainda foi muito bonzinho com Lula.


E o irresponsável fim da prisão em segunda instância pelo STF, que soltou não só presos da Lava Jato, mas bandidos de toda sorte pelo país? E a soltura de bandidos como “André do Rap”?


Foi-se a época em que ministros do STF não iam para o Congresso articular com presidentes de partidos aprovação ou desaprovação de medidas em prejuízo do governo ou do grupo político que seja; não se intrometiam em política de segurança pública dos estados, impedindo policiais de subir morro para fazer operações; não intervinham em política sanitária adotada pelo governo em época de pandemia; se declaravam impedidos em votações no STF em que eram partes interessadas; não faziam declarações sobre processos em que estavam como julgadores; respeitavam a área de atuação do Ministério Público; não ficavam fazendo declarações contra o governo nem participavam de articulação para derrubar presidente da República etc. Até porque todas essas coisas são proibidas por lei. Mas esses tempos se foram. Bem-vindos à juristocracia brasileira!


Termino este texto com as palavras do nosso maior constitucionalista vivo, o Dr. Ives Gandra Martins: “O STF se tornou no maior partido político de oposição do Brasil”. Até quando será assim? Só Deus sabe. Oremos.


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Um conto de duas histórias: a obra "Mission After Pentecost" de Amos Yong e a obra "Peaks of Faith" de T'ien Ju-K'ang


(Obs.: O texto a seguir foi publicado originalmente em inglês na revista Themelios, volume 46, segunda edição, e pode ser acessado AQUI. O autor, Dr. Robert Menzies, é ministro, teólogo e missionário das Assembleias de Deus nos Estados Unidos; diretor da Synergy, uma organização que objetiva capacitar as pessoas nas aldeias rurais do sudoeste da China a viverem vidas produtivas; professor-adjunto do corpo docente do Seminário Teológico da Ásia-Pacífico em Baguio City, nas Filipinas; fundador do Centro Asiático de Teologia Pentecostal e editor do site www.pentecost.asia).

ROBERT P. MENZIES

RESUMO: Este artigo compara dois livros sobre missiologia: Mission after Pentecost [Missão Após o Pentecostes], de Amos Yong; e Peaks of Faith [Picos de Fé], de T'ien Ju-K'ang's. O autor argumenta que a abordagem de Yong, moldada por uma hermenêutica pós-colonial, descarta a urgência do testemunho verbal, a importância do julgamento escatológico e a necessidade de conversão. Assim, Yong afirma falsamente que o movimento missionário moderno está morto. No entanto, em Peaks of Faith, T'ien Ju-K'ang oferece um relato bem documentado do poderoso impacto do evangelho no sudoeste da China de 1880 a 1985. A história de missões que T'ien conta é radicalmente diferente da caricatura produzido pela crítica pós-colonial de Yong.

**************************************

Recentemente, li a nova teologia bíblica de missões de Amos Yong, explicada por meio de um enfoque na obra do Espírito Santo. O título do livro revela sua abordagem: Missão após o Pentecostes: O Testemunho do Espírito de Gênesis ao Apocalipse.1 Li este livro provocativo e meticulosamente pesquisado (parece um ensaio bibliográfico) logo depois de reler Peaks of Faith: Protestant Mission in Revolutionary China, de T'ien Ju-K'ang.2 Eu li Peaks of Faith pela primeira vez cerca de 25 anos atrás, não muito depois de ser publicado. Fiquei impressionado com ele e, em minha releitura, novamente fiquei profundamente comovido por sua descrição poderosa (novamente, meticulosamente pesquisada) do impacto social positivo feito por missionários protestantes servindo entre os grupos minoritários no sudoeste da China antes da revolução comunista de 1949. Esses dois livros apresentam duas histórias muito diferentes e são baseadas em pressuposições muito diferentes. Vale a pena considerar essas histórias e as pressuposições que as moldam.

Todo bom conto tem um herói e um vilão, e esse conto de duas histórias não é exceção. Neste conto, Peaks of Faith, de T'ien Ju-K'ang, é o herói valente. Já Missão após o Pentecostes, de Yong, embora pesquisado de forma volumosa e não sem seus pontos fortes, serve de vilão. Em todo conto envolvente há um problema ou crise, geralmente provocada pelo vilão, no qual o herói ajuda a heroína (não quero ser sexista aqui) a superar. O problema neste conto é claro desde o início. Simplificando, de acordo com Yong, o movimento missionário moderno está morto. Vivemos agora em uma era pós-colonial, pós-moderna e pós-cristã (pp. 2-22). Não há como olhar para trás e, portanto, provavelmente deveríamos até abandonar totalmente o termo “missões cristãs” (pp. 2-5). Além disso, da perspectiva de Yong, não precisamos esperar que a porta se feche antes de sair do projeto fracassado que tem sido chamado de “missões cristãs”. O movimento missionário foi contaminado por todos os aspectos negativos do colonialismo e da modernidade, incluindo arrogância, motivos egoístas, e atitudes racistas. Portanto, vivemos em um mundo pós-cristão e é melhor nos acostumarmos com isso.

A aceitação acrítica de Yong dessa imagem extremamente negativa do movimento missionário moderno é fundamental para o problema de nossa história. Talvez não devesse nos surpreender, pois a perspectiva de Yong simplesmente reflete as atitudes predominantes na cultura americana contemporânea. De fato, neste livro, Yong é incrivelmente “politicamente correto”. Ele não capitaliza "espírito", refere-se ao Espírito com pronomes femininos - “ela” (p. 191) ou “sua” (p. 208) - e constantemente enfatiza a natureza econômica e política da missão de Jesus e a Igreja Primitiva (pp. 278-79). Esta ênfase sócio-política pode ser traçada ao longo do livro, mas é claramente articulada em sua conclusão: “A igreja dá testemunho não apenas de... mas em… sociedade. Principalmente, eu sugiro que nossa perspectiva pós-Pentecostes ponha em primeiro plano o domínio socioeconômico… [Eles] ‘tinham todas as coisas em comum ...’”. E para não deixarmos de entender mesmo, ele acrescenta: “O socioeconômico e o político estão interligados; isso significa que não há missio Dei que não seja política em algum aspecto” (p. 278).3 Infelizmente, a natureza específica do nosso envolvimento político nunca é esclarecida. Em vez disso, somos simplesmente informados por Yong de que os cristãos são chamados a trabalhar pela paz e pela justiça por meios políticos (p. 279). Ao mesmo tempo, o testemunho verbal é relegado para o fundo do ônibus. Missões, somos informados, “é menos a proclamação verbal às nações como tal do que o chamado para acreditar na fidelidade em meio a um mundo vigilante” (p. 279). Este tema é generalizado: o testemunho verbal não é importante; em vez disso, viver as convicções políticas que apoiam a paz e a justiça é a essência das missões (pp. 278-83). Finalmente, nenhuma diatribe contemporânea seria completa sem a acusação de racismo, e aqui, novamente, Yong não decepciona. Ele fala negativamente sobre “brancura” (p. 3), lendo a Bíblia de uma perspectiva de “dominância branca” (p. 184) e “normatividade branca” (p. 226).4 Ele contrasta da seguinte forma sua própria visão da missão da igreja com a abordagem anterior e falha do movimento missionário moderno ao declarar: “Foram-se as pretensões de uma versão modernizada de um evangelho ‘branco’” (p. 283). Tudo isso se soma a uma acusação pungente do movimento missionário moderno – uma acusação que apresenta tropas esquerdistas contemporâneas articuladas com um sotaque distintamente pós-colonial.

Embora a crítica de Yong ecoe temas onipresentes em nossa cultura, ainda assim é surpreendente. Uma vez que o século passado testemunhou o surgimento do Movimento Pentecostal, que muitos reconheceriam como tendo suas raízes no Ocidente e todos concordariam como tendo um enorme sucesso, alguém poderia antecipar que Yong, que se autodenomina pentecostal, pode ser mais otimista. Por que abraçar a lente pós-colonial cansada, de inspiração marxista e anacrônica para analisar o passado? Essa questão se torna especialmente pertinente quando reconhecemos as contradições inerentes à crítica de Yong. Para começar, essa crítica ignora o fato de que os pentecostais raramente, ou nunca, foram intimamente identificados com pessoas em posições de poder, seja na Europa, América ou além. Além disso, os pentecostais nunca aceitaram o racionalismo promovido pelo Iluminismo; antes, eles abraçaram a cosmovisão da Bíblia que espera e se deleita na presença poderosa de Deus manifestada em nosso meio. Finalmente, o crescimento dramático das igrejas pentecostais ao redor do mundo durante o século passado – virtualmente todas as quais estão solidamente comprometidas com o conceito tradicional de missões como centradas no testemunho verbal – questiona a pressuposição fundamental de Yong. Esse fato por si só sugere que o movimento missionário moderno não está morto, mas, sim, muito vivo.

Embora a aceitação de Yong da posição de que “as missões modernas estão mortas” possa ser surpreendente à primeira vista, pode ser explicada. Na verdade, o próprio Yong elucida as razões de sua postura provocativa. Tudo se resume à sua hermenêutica. Yong explica: “Eu mudei de uma interpretação pentecostal das Escrituras para uma abordagem teológica ainda mais explicitamente pneumatológica, e do Dia de Pentecostes, para interpretação das Escrituras” (p. 12). Esta declaração confirma meu julgamento anterior de que a teologia de Yong é melhor descrita como “pneumatológica ao invés de pentecostal” e tem “mais em comum com teólogos tradicionais ou ecumênicos do que” seus colegas evangélicos ou pentecostais.5

O que é uma “abordagem teológica das Escrituras”? Yong discute sua abordagem, que ele denomina de “interpretação teológica das Escrituras”, nas primeiras páginas do livro (pp. 10–15). Embora essa abordagem busque se beneficiar de abordagens modernistas (crítica histórica, gramatical e textual), ela também se baseia conscientemente na história da recepção do texto bíblico (como ele foi lido por várias tradições teológicas). Isso, é claro, significa que a hermenêutica de Yong não está realmente enraizada no significado histórico do texto – ele sem dúvida rejeitaria essa noção como um produto da mente modernista – e, assim, o significado do texto se torna, derivado daqui ou dali, essencialmente naquilo que ele deseja destacar. A orientação pneumatológica que ele descreve adiciona mais uma lente analítica que fornece mais espaço para sua mente criativa e imaginação trabalharem. Existem realmente poucas restrições colocadas no intérprete nesta abordagem. Os evangélicos em geral e os pentecostais em particular farão bem em enfatizar, por meio de contraste, o significado histórico e enfocar a Igreja Primitiva como nosso modelo. Assim, precisamos resistir às vozes de sereia que nos chamam a abandonar a leitura da Escritura do ponto de vista de “uma missão moderna” e abraçar uma leitura política ou étnica do texto sagrado (p. 8). Isso é especialmente evidente neste caso, pois, como observamos, Yong também adota uma hermenêutica pós-colonial e todas as suposições negativas sobre os últimos 200 anos de esforço missionário que a acompanham.

A adoção de uma leitura pós-colonial do movimento missionário moderno (ou pós-1792) 6 por Yong não é sem precedentes, mesmo entre os estudiosos pentecostais. 7 Observe, por exemplo, como Allan Anderson, um dos principais historiadores pentecostais, descreve os primeiros missionários pentecostais em uma palestra recente sobre “Pentecostalismo e a Renovação Carismática”.8 Depois de observar corretamente que os primeiros pentecostais “acreditavam na Bíblia literalmente” e eram “pré-milenistas”, Anderson descreve a perspectiva dos primeiros missionários pentecostais em tons negativos e condescendentes. Ele ridiculariza sua convicção de que “os pobres pagãos nas trevas deveriam ser evangelizados rapidamente antes do breve Retorno de Cristo”. Na África, afirma Anderson, os missionários pentecostais confrontaram “o que eles pensavam ser adoração ao diabo” e na América Latina eles denunciaram principalmente os cristãos católicos romanos e o que eles viam “como suas imagens perigosas do crucifixo e da virgem Maria”. Na Ásia, declara Anderson, os missionários “demonstraram ignorância geral sobre o Islã, Hinduísmo e Budismo” e “na maioria dos casos, houve grande preconceito”.

Essa mesma avaliação altamente crítica e distorcida dos missionários pentecostais também é exibida no livro amplamente influente de Anderson, An Introduction to Pentecostalism [Uma Introdução ao Pentecostalismo].9 Anderson aponta para cartas e escritos missionários que muitas vezes refletem um profundo senso de urgência para seus esforços evangelísticos devido à generalizada “escuridão” espiritual e ao fato de que tantos que encontram estão “perdidos”, como evidência de “intolerância religiosa” e “ignorância preconceituosa”.10 Alguém se pergunta como Anderson avaliaria o apóstolo Paulo? Aos Colossenses, Paulo declara: “Ele nos resgatou do domínio das trevas e nos introduziu no Reino do Seu Filho amado” (Cl 1.13, NIV). De maneira semelhante, aos Efésios, Paulo afirma: “Vocês eram trevas , mas agora são luz no Senhor” (Ef 5.8, NVI).11 Podemos também perguntar a Anderson o que ele pensaria das palavras de Jesus, que declara: “O Filho do homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19.10, ESV)?12 É difícil não parar de ler trechos do livro de Anderson e se perguntar se ele realmente acredita que, além de Cristo, as pessoas estão realmente “perdidas”. Quanto aos pentecostais, sempre fomos claros nesse assunto.

Infelizmente, como observamos, Yong segue os passos de Anderson ao adotar a mesma hermenêutica e suposições pós-coloniais. Essa postura e seus pressupostos associados são refletidos em três temas que permeiam a obra Missão Após o Pentecostes.

1. A chamada para testemunhas verbais diminuiu

Primeiro, Yong diminui consistentemente a ênfase do Novo Testamento no conteúdo do evangelho e no testemunho verbal.13 Uma razão para essa postura é a abordagem pós-moderna de Yong do texto bíblico que questiona qualquer entendimento normativo ou interpretação dele. Por exemplo, em uma seção sobre a carta de Paulo a Tito, que contrasta os mentirosos cretenses e estilos de vida movidos pela paixão com a vida da graça de Deus, Yong escreve o seguinte:

“Parte do desafio contemporâneo é que, em um contexto pós-colonial, as reivindicações de verdade são, na maioria das vezes, expressões da vontade de poder, e não a correspondência da palavra com a realidade. As declarações missionárias têm a mesma probabilidade de implantar textos sagrados para subscrever e autorizar as chamadas práticas de ‘missão’ que beneficiam os missionários em vez de apoiar aqueles a quem os missionários estão servindo…. Para que a missão cristã seja crível na época atual, aqueles que dão testemunho devem testificar em seus corpos e não apenas por suas palavras ([Tito]1: 8, 16; 2: 7, 14; 3: 1, 14)”. (p. 225)

Aqui temos uma verdade patentemente óbvia (precisamos seguir o que falamos) afirmada de uma maneira incrivelmente cínica, uma verdade que compra uma visão pós-moderna da linguagem e da crítica marxista da igreja.

Esse tema de denegrir ou, pelo menos, subestimar o testemunho verbal percorre todo o livro, mas dois outros exemplos servirão para ilustrar a abordagem de Yong. Com base em seu resumo das passagens do Paráclito (esp. João 15.26,27 e 16.8-11), Yong conclui: “Em suma, o Advogado ou Consolador é enviado diretamente ao mundo e indiretamente a essa arena por meio dos seguidores messiânicos como uma comunidade sagrada e separada de testemunhas” (p. 257). É importante observar duas frases aqui, “diretamente para o mundo” e “indiretamente... por meio de uma comunidade... sagrada”. Ambas as frases servem para silenciar o foco real de João – a inspiração do Paráclito para o testemunho ousado e verbal dos discípulos em face da oposição: “Quando vier o Advogado, a quem eu enviarei do Pai – o Espírito da verdade que emana o Pai –, ele testificará sobre mim. E vocês também devem testificar, porque vocês estão comigo desde o princípio” (Jo 15.26,27, NVI).

Esta avaliação da perspectiva de Yong é confirmada à medida que lemos mais. Nas páginas 258 e 259, Yong fala da missão da igreja em termos um tanto enigmáticos, como proclamar perdão e amar aos outros, e ambas as tarefas abrangem os que estão na igreja e os que estão fora da igreja. O que Yong quer dizer quando afirma que devemos proclamar o perdão aos não-cristãos? Eu sugeriria que a falta de clareza aqui é intencional. Em outras palavras, como veremos, Yong não sente que uma resposta ao evangelho seja realmente necessária para que as pessoas experimentem a graça salvadora de Deus. O resumo ambíguo de Yong aqui perde a clareza da declaração de João de que a fé em Cristo é essencial para a vida eterna (Jo 20.31) e que a proclamação desta mensagem é o principal resultado da inspiração do Paráclito (Jo 15.26,27).14

Finalmente, em sua conclusão, Yong previsivelmente declara que o chamado bíblico para a missão “é menos a proclamação verbal às nações como tal do que o chamado à fidelidade do crente em um mundo vigilante” (p. 279). Esta é uma declaração impressionante em um livro sobre a missão da igreja. Yong enfatiza a evangelização da “presença” e responder de forma amorosa aos outros, mas ele ignora amplamente o mandato de proclamar o evangelho. Sem dúvida, ele vê o chamado ao testemunho verbal como uma parte central da visão desatualizada e desacreditada do movimento missionário para a missão da igreja. O problema para Yong, entretanto, é que o testemunho verbal inspirado também foi central para a missão de Jesus e da Igreja Primitiva.

2. O significado do julgamento futuro negado

Se a proclamação e recepção de uma mensagem específica (ou seja, o evangelho) é – em boa forma pós-moderna – desvalorizada na teologia de Yong, isso está amplamente relacionado ao fato de que a noção de um futuro julgamento final (especialmente o julgamento eterno) é amplamente rejeitado. Essa relutância em falar francamente sobre esse importante tema bíblico é o segundo tema significativo que molda o trabalho de Yong.15

Yong rejeita a ênfase no retorno iminente de Cristo e “os esforços missionários [que] são motivados pela preocupação de que aqueles que não ouviram devem ter uma chance de se voltar para Cristo antes da parusia” (p. 242). Na verdade, há duas questões aqui e Yong, como costuma ser o caso, (intencionalmente?) não é claro a respeito de quais ele objeta: (1) o tempo do retorno de Cristo; e (2) a realidade do julgamento dos perdidos.16 Yong aqui parece zombar dessa noção, mas ele o faz de uma forma mais velada. Por exemplo, Yong faz referência a 2 Pedro 3.9: “O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Pelo contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (grifos dele). Ele então explica que “o vocês mais exclusivo” neste texto “abre-se ao chamado universal do evangelho que se estende a todos” (p. 243, itálicos dele). Ele simplesmente quis dizer que nossa missão envolve proclamar o evangelho a todas as pessoas, até os confins da terra? Ou ele quis dizer que Deus finalmente salvará a todos, independentemente de ouvirem ou mesmo responderem ao evangelho? O contexto mais amplo do livro de Yong sugere que ele tem a última visão em mente.

Deve-se notar que Yong oferece uma rejeição morna do universalismo (p. 270). No entanto, a maneira como Yong formula sua questão para discussão na página 248 (Questão 3) aponta nessa direção. Yong questiona: “O movimento missionário moderno baseava-se em parte na pregação do evangelho àqueles que nunca o tinham ouvido, para que tivessem a oportunidade de se arrepender e confessar Jesus Cristo antes da parusia e o fim viesse. A sua leitura das epístolas gerais e das cartas católicas apoia essa abordagem escatológica do testemunho cristão?”. Para Yong, a resposta óbvia é “não”.17

A rejeição de qualquer senso de urgência com referência ao julgamento final é reiterada em sua seção sobre o Apocalipse. Sobre a chamada para "vir" (Ap 22.17), Yong enigmaticamente pergunta: “Este convite só ecoa durante a presente dispensação, antes da descida da nova Jerusalém do céu à terra (21.2), ou a convocação missional persiste por toda a eternidade?” (p. 267). Yong não dá uma resposta, o que é revelador. No entanto, o Novo Testamento dá, sim, e a resposta é muito clara em outros lugares (Hb 9.25-28) quanto no Apocalipse. Há um fim decisivo para a oportunidade de responder ao gracioso convite de Deus (cf. Ap 14.17-20; 15-16; 19-20). A pergunta de Yong aqui implica a ausência de julgamento final, um tema que permeia sua obra.

3. A importância da conversão rejeitada

Isso nos leva ao terceiro tema que define a Missão após o Pentecostes. Yong minimiza consistentemente a necessidade de conversão à fé cristã e, como resultado, minimiza as diferenças entre cristãos e não cristãos. Assim, ele frequentemente se refere à obra do Espírito fora da Igreja, entre os não cristãos. Essa ênfase é vista de maneiras sutis, mas também é afirmada com mais força.

Em uma referência mais velada, Yong declara: “Verdadeiramente, a missio Dei em Cristo e no espírito superou a inimizade entre judeus e gentios, não apagando suas diferenças, mas permitindo que os gentios ‘se tornassem herdeiros, membros do mesmo corpo e participantes de a promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho’([Ef]3: 6)” (p. 203). No entanto, deve-se notar que o Espírito não vence apenas a alienação entre grupos de pessoas, mas fundamental para esta obra unificadora do Espírito é o fato de que em Cristo o Espírito nos capacita a superar nossa alienação de Deus. Essa vitória sobre a alienação de Deus não é um tema que Yong enfatiza, pelo menos não na medida em que ele enfatiza a obra do Espírito em superar nossa alienação de outros grupos.

Poderíamos ser encorajados a ignorar essas declarações mais ambíguas se não fosse pelas mais abertas. Por exemplo, falando da pneumatologia joanina, Yong declara:

“A pneumatologia pluralística também se abre para uma teologia expansiva de missões através dos materiais joaninos. Na verdade, em alguns outros lugares da Bíblia, o mundo como um todo é tão objeto de preocupação divina como aqui. A relevância missiológica deste ponto é óbvia, mas o que pode ser menos óbvio de uma perspectiva missionária modernista é que João está relativamente menos preocupado com a salvação das almas individuais do que com a redenção e renovação de todas as coisas. Mais especificamente, o mundo que Deus deseja salvar também é um mundo oposto a Deus” (p. 250, itálico dele).

Isso parece levar Yong a uma forma radical de inclusivismo, se não universalismo absoluto: “As implicações missiológicas de tal cosmologia apocalíptica são profundas e exigirão um envolvimento extenso e intenso antes que uma nova teologia do testemunho cristão plausível para uma era pós-missão seja nascido” (p. 251).

Yong conclui sua seção sobre 1 João de maneira semelhante:

“Para nós que somos enviados no caminho da missão apostólica dois mil anos depois, podemos ser gratos que o testemunho cristão fiel envolve tanto o testemunho contínuo do espírito da vida e morte de Jesus quanto a capacitação incessante do espírito aos que tiveram seus pecados perdoados – aqueles que estão dentro da comunhão da comunidade crente, aqueles em suas margens dinâmicas e fluidas, e aqueles também no mundo – em Seu nome” (p. 263)

Isso não implica que uma resposta positiva ao evangelho ou identificação com Cristo não é necessária para receber o perdão dos pecados? Parece que, para Yong, as missões passam a ser amar os outros e declarar a paz de Deus, em vez de exigir qualquer tipo de arrependimento ou resposta. O arrependimento, pelo menos para aqueles de fora da igreja, e o chamado para uma vida de discipulado parecem faltar aqui. Alguém pode perguntar: este é realmente o evangelho e é realmente a missão cristã? Parece que estamos de volta aos dias de Adolf Harnack, o proeminente defensor da teologia liberal no início do século XX, que enfatizou que Jesus ensinou bons chavões éticos, como a paternidade de Deus e a fraternidade dos homens.18 A visão incrivelmente otimista de Yong (ingênua?) da condição humana torna o arrependimento e a transformação por meio do Espírito desnecessários. Pecado ou alienação de Deus não é realmente uma preocupação central. As dimensões horizontais da salvação parecem obliterar as verticais.

Isso levanta uma questão importante para Yong e todos os seus leitores. A mensagem e a missão da igreja apostólica centram-se em como as pessoas podem ter acesso a Deus. Este acesso permite o relacionamento que é descrito em linguagem familiar, nacional e religiosa com metáforas como “filhos”, “concidadãos” e blocos de construção no “templo” de Deus (cf. Ef 2.11,12). O Novo Testamento declara que este acesso maravilhoso a Deus que permite relacionamento filial com Ele está agora disponível, mas que só está disponível em um sentido salvífico e significativo (como descrito com as metáforas acima) para aqueles que estão “em Cristo”. Não podemos todos concordar com esse entendimento básico do evangelho?

O inclusivismo radical de Yong parece sugerir o contrário. É mais claramente expresso em sua conclusão: “A conversão dos outros acontece, não de uma maneira unidirecional que faça 'eles' serem 'nós', mas no sentido de uma transformação mútua que nos atrai para a presença e atividade da respiração divina” (p. 282).

4. Comentários finais sobre a Missão após o Pentecostes

Os três temas que caracterizam a obra Missão após o Pentecostes esboçadas acima, enraizadas como estão em uma visão pós-colonial da história recente das missões, na minha opinião minam uma das exortações finais de Yong. Yong adverte: “O chamado ao testemunho e o envio em missão não são, portanto, uma iniciação ao conforto, mas um convite à perseguição e ao sofrimento” (p. 276). Sim, isso é verdade, mas o que, no entendimento de Yong sobre missão, motivaria alguém a aceitar esse chamado? Afinal, se a missão é dialógica (somos todos simplesmente companheiros de viagem espiritual, certo?), amplamente baseada em nossa “presença” e, em última análise, não é decisiva para o destino eterno do “outro” religioso ou seu relacionamento com Deus, então por que se preocupar para ir a lugares difíceis ou qualquer lugar além de casa? Por que falar com ousadia quando o testemunho verbal não é tão importante? As pessoas podem ficar chateadas. Resumidamente, há muito pouco no entendimento de Yong sobre missão que inspire confiança ou inspire sacrifício. Em vez disso, parece sugerir que todos devemos permanecer sentados, ser bons uns com os outros e tentar nos dar bem. Adolf Harnack ficaria muito satisfeito.19

A apropriação de uma hermenêutica pós-colonial por Yong também mina sua capacidade de falar com credibilidade quando ele admoesta: “Devemos ser cautelosos quanto a demonizar os outros humanos: os de outras etnias, línguas, culturas (deficiências) e até mesmo tradições religiosas e orientações sexuais” (p. 274, itálico meu). Embora tudo isso seja muito verdadeiro e bem dito, não parece se aplicar àqueles que serviram como missionários nos últimos dois séculos. Eles podem ser injustamente castigados, difamados e abusados ​​verbalmente. Seus motivos podem ser contestados e suas ações atacadas com calúnias anacrônicas, generalizadas e infundadas. Isso é especialmente verdadeiro se eles forem brancos e procedentes da Europa ou da América. Obviamente, o absurdo dessas críticas radicais aos missionários, do passado e do presente, me atinge. Já que servi como missionário por mais de 30 anos, tenho pais que serviram como missionários mais tarde na vida e meus sogros serviram como missionários por mais de 45 anos na América Latina. Não sou totalmente objetivo neste ponto, no entanto acredito que posso falar com considerável experiência, conhecimento de primeira mão e, portanto, confiança quando rejeito a perspectiva pós-colonial sobre o movimento missionário moderno e os missionários associados a ele como sendo ignorantes, tendenciosos, distorcidos e amplamente falsos.

5. A obra Picos de Fé: outra perspectiva

Minha história ainda não terminou. Afinal, é um conto de duas histórias. Se a Missão após o Pentecostes de Yong apresenta o dilema, uma avaliação negativa do movimento missionário moderno, Peaks of Faith: Missão Protestante na China Revolucionária, de T'ien Ju-K'ang, fornece o remédio, uma avaliação bem documentada e positiva do impacto dos missionários na era pré-comunista do sudoeste da China (aproximadamente 1880-1949). O livro também traça a influência contínua da fé cristã, transmitida aos grupos minoritários do sudoeste da China por missionários durante os anos pós-revolucionários, muitas vezes difíceis e desafiadores (aproximadamente 1949-1985). Este livro não é hagiografia, mas uma história bem pesquisada e sóbria. No entanto, é uma história que não é filtrada pelas lentes da ideologia marxista ou anticristã. O resultado é um relato surpreendente e muitas vezes inspirador de como o evangelho foi transmitido, recebido e impactado por sete grupos minoritários no sudoeste da China: os Miao de Wuding; o Yi de Luquan; o Lahu de Langcang; o Wa de Cangyuan; o Lisu no Vale Salwin; o Hani de Mojiang; e o Jingpo de Dehong. Neste estudo, T'ien procura responder a duas perguntas: “Quais foram os fatores históricos e geográficos que inclinaram essas pessoas de minoria a abraçar o Cristianismo?” (p. 1) e “Como essas pessoas... mantiveram sua fé cristã durante os anos catastróficos, especialmente durante a Revolução Cultural?" (p. 2). T'ien traça os movimentos de pessoas notáveis ​​que resultaram em grandes faixas desses grupos minoritários, especialmente entre os Miao e os Lisu, chegando à fé em Cristo. Ele afirma o assunto sem rodeios: “O rápido movimento de massa que floresce nas regiões minoritárias de Yunnan deve ser atribuído aos esforços incansáveis ​​de missionários dedicados” (p. 28). T'ien registra a maneira sacrificial pela qual os missionários viviam, serviam e amavam o povo, muitos dos quais haviam sido tratados com total desdém pela maioria dominante Han. O retrato dos missionários que T'ien pinta é bem diferente da caricatura oferecida pela crítica pós-colonial. Em contraste com as acusações de dominação arrogante e egoísta, T'ien escreve:

“As desesperadas minorias ficaram muito comovidas com grande consideração pela fé e abnegação dos primeiros missionários. Foi por meio desse tipo de afeto inspirado e recíproco que as congregações nas remotas regiões montanhosas foram unidas. O amor profundamente sentido dessas pessoas simples por seus missionários era duradouro. Eles oravam em voz alta pelos missionários que não viam há muitos e muitos anos” (pp. 37,38).

Quando os missionários foram forçados pelo governo a deixar o Miao de Sapushan (Wuding) em 1950, muitos dos irmãos e irmãs Miao “choraram e não conseguiram comer por vários dias. As lágrimas mostraram sua gratidão pela elevação das massas oprimidas, obscuras e sofredoras nas montanhas remotas” (p. 38).

Tenho duas memórias especiais que sustentam as conclusões de T'ien. Há alguns anos, na parte noroeste da província de Yunnan, perto da fronteira com Mianmar, visitei um grupo de professores de uma Escola Bíblica Lisu e Jingpo localizada ali. Começamos a discutir a história do cristianismo em sua região e nossa conversa naturalmente se voltou para uma discussão sobre os missionários que levaram o evangelho a eles e serviram entre eles. Jamais esquecerei como o pastor líder, um bom irmão Lisu, com lágrimas nos olhos, olhou para mim e declarou com grande emoção: “Não esquecemos de nenhum missionário que serviu aqui”.

A segunda memória foi gerada durante minha visita a uma igreja perto da cidade de Qujing, na província de Yunnan. Esta igreja foi fundada pelos missionários pentecostais Max e Emily Bernheim, na década de 1930. Os Bernheims, junto com um filho, foram assassinados por bandidos em 1940. Esse trágico evento deixou seus cinco filhos órfãos. Os corpos de Max, Emily e de seu filho, David, não foram encontrados até o final de 2015. A igreja descobriu o local de seu sepultamento e mudou seus ossos para o local atual da igreja em 2016. Um irmão cristão chinês me informou sobre esse acontecimento mais recente e perguntei se eu poderia de alguma forma notificar a família. Então, junto com um grupo de amigos, visitei o cemitério e encontrei uma bela lápide comemorativa que marcava o túmulo de Bernheim. Mais significativamente, descobri que a igreja que eles plantaram – havia cerca de 50 crentes em 1940 – é vibrante e próspera. Os crentes chineses locais expressaram repetidamente sua gratidão pelo ministério e sacrifício de Bernheim. A igreja agora conta com mais de 700 crentes e os líderes da igreja estavam profundamente cientes de seu rico legado. Eles notaram com gratidão a veracidade das palavras de Tertuliano: “O sangue dos mártires é a semente da igreja”, que eles gravaram na pedra memorial de Bernheim.

Compartilho essas lembranças para enfatizar que uma avaliação muito diferente do movimento missionário moderno e de seus missionários pode ser encontrada por meio de uma avaliação cuidadosa e crítica da história das missões. É verdade que os missionários não eram desprovidos de defeitos ou fraquezas. Como era de se esperar com pessoas de caráter e convicções fortes, eles tiveram sua cota de desentendimentos. Não temos todos? No entanto, é reconfortante saber que Paulo e Barnabé também discordaram e se separaram. No entanto, apesar de todas as suas fraquezas e humanidade, estes eram (e são) em grande parte um grupo incrível, conhecido por sua piedade, disposição para o sacrifício e amor pelas pessoas. Se você está tentado a aceitar a linha pós-colonial, eu o desafio a ler livros sobre a história das missões. Quer sejam obras mais inspiradoras, como a de Becky Croasmun em Legacy of Faith, que narra a história de Max e Emily Bernheim, em grande parte por meio de suas próprias notas e cartas,20 ou mais trabalhos acadêmicos, como Peaks of Faith, de T'ien, acredito que, se alguém ler com a mente aberta, o poder e o impacto desses vidas dedicadas a Cristo se tornarão evidentes, assim como o fruto de seu trabalho.21

6. Conclusão

Portanto, meu conto de duas histórias deve chegar ao fim. É um conto, entretanto, que pode ser lido em dois níveis. Em um nível, é um conto de duas histórias muito diferentes. Uma história, Missão após o Pentecostes, temo que pode desviar um movimento evangélico vital dos compromissos e valores teológicos que o tornaram uma força poderosa para a missão cristã. Se a mensagem de Yong for aceita sem crítica pelos pastores e professores evangélicos, acredito que, como o Flautista, ela levará as crianças do movimento a uma jornada para a irrelevância. A estrada que Yong nos chama para viajar não é nova, mas sim a rota velha e bem usada que as principais denominações trilharam ao longo do século passado. Seu destino, então, não deve nos surpreender.

Há outra história mais esperançosa, ilustrada pelo trabalho do erudito chinês T'ien Ju-K'ang. Seu Peaks of Faith oferece uma leitura muito diferente do movimento missionário moderno. É uma história que está enraizada em uma mensagem clara e um chamado divino. Fala do poder transformador do evangelho e seu glorioso impacto nas pessoas sem esperança. Esta é uma história que inspira confiança na mensagem bíblica e inspira fé em um Deus que tem prazer em chamar, enviar e capacitar missionários. Cada vez mais, é também uma história que será repudiada, denunciada e, se possível, silenciada. Na verdade, meu próprio exemplar "usado" e recentemente comprado de Peaks of Faith foi marcado como “retirado” da biblioteca da Vancouver School of Theology (VST). Pelo que eu posso dizer, a biblioteca VST não contém mais este livro cuidadosamente pesquisado e habilmente escrito. Por que eles o descartariam? Posso apenas conjeturar sobre este ponto, mas acredito que a razão é clara. Este livro, ao contrário de Mission after Pentecost, não se encaixa em sua própria interpretação pós-colonial do movimento missionário. Pode não demorar muito para que seja necessária verdadeira coragem em países como os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Reino Unido para escrever um livro como Peaks of Faith. Será preciso ainda mais coragem para seguir os passos de seus seguidores.

Meu conto também pode ser lido em outro nível. Neste segundo nível, minha história – vamos chamá-la de “Missões depois do Pentecostes” – é uma história gloriosa, cheia de sofrimento e alegria, perseguição e vitória. Não é simplesmente uma história de missionários enviados por sociedades missionárias e igrejas, mas é uma história que inclui esse nobre empreendimento. É uma história que segue o modelo do ministério de Jesus e que nasceu pelo Espírito Santo (cf. Atos 13.1-3). É uma história – você pode dizer – sobre o melhor e o pior dos tempos (Ap 11.1-10), mas é uma história que continua e está destinada a ter um fim glorioso (Ap 11.11,12; cf. Ap 21-22).


[1] Amos Yong, Mission After Pentecost: The Witness of the Spirit foram Genesis to Revelation (Grand Rapids: Baker Academic, 2019), referenciado ao longo deste artigo com citações no texto.

[2] T'ien Ju-K'ang, Peaks of Faith: Protestant Mission in Revolutionary China (Leiden: Brill, 1993).

[3] Yong também afirma que se engajar na missão é remodelar “a história, a sociedade e a atual ordem econômica mundial” (Mission after Pentecost, p. 240). Para uma visão alternativa da missão da igreja e que, em minha opinião, reflita mais fielmente o testemunho bíblico, consulte John Nugent, Endangered Gospel: How Fixing the World is Killing the Church (Eugene, OR: Cascade, 2016).

[4] Yong pergunta: “Se o momento pós-colonial está em busca do fim da brancura, isso também não significa que um paradigma de missão facilitado pela brancura está chegando ao fim, se ainda não terminou?” (Mission After Pentecost, p. 3).

[5] Robert P. Menzies, Christ-Centered: The Evangelical Nature of Pentecostal Theology (Eugene, OR: Cascade, 2020), 137.

[6] 30 de maio de 1792 foi a data em que William Carey, com seu famoso chamado (“Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas para Deus”), lançou a Sociedade Missionária Batista. Esta data é amplamente citada como o início do movimento missionário moderno.

[7] Eu uso o termo “pentecostal” aqui vagamente. Nem sempre está claro se um estudioso realmente se identifica com o Movimento Pentecostal e compartilha sua teologia e valores ou se um estudioso está simplesmente estudando o Movimento Pentecostal como um observador externo. Para minha compreensão dos pentecostais como um subconjunto do evangelicalismo, veja Menzies, Christ-Centered.

[8] Allan Anderson, Pentecostalism and the Charismatic Renewal (palestra em Baguio City, Filipinas, 24 de agosto de 2020), in: https://tinyurl.com/c6jb74d9

[9] Allan Anderson, Uma Introdução ao Pentecostalismo: Cristianismo Carismático Global (Cambridge: Cambridge University Press, 2004). Cf. a excelente resenha do livro, de Joseph L. Castleberry, Pentecostal History from below should be fair to missionaries also, in: Pneuma 28 (2006): 271–74.

[10] Anderson, An Introduction to Pentecostalism, p. 179.

[11] Para “trevas” com referência ao julgamento: Mt 8:12 : 22:13; 25:30; Jude 13 . Para referências às “trevas” espirituais: Mt 6:23Lc 1:79; 11:34João 1: 5; 3: 9; 8:12; 12:35,46Atos 26:18 ; Romanos 13:122 Coríntios 6:14; Efésios 5:8,11; 6:12; Colossenses 1:131 Tessalonicenses 5:41 Pedro 2:9; e 1 João 2:8,11.

[12] Cf. Mateus 10: 6; 15:24; Lc 15: 4, 6, 24, 32; 19:10.

[13] Ver especialmente Mission after Pentecost, pp. 178, 217, 225, 257–59, 264, 279.

[14] Para uma defesa detalhada dessa compreensão da pneumatologia de João, consulte Robert Menzies, John's Place in the Development of Early Christian Pneumatology, em The Spirit and Spirituality: Essays in Honor of Russell P. Spittler, editado por Wonsuk Ma e Robert Menzies, JPTSS 24 (New York Continuum, 2004), pp. 41-52.

[15] O fato de que Deus “fixou um dia em que julgará o mundo com justiça por um homem a quem ele designou” (Atos 17.31) é frequentemente afirmado no Novo Testamento. Numerosos textos referem-se ao julgamento final, “o dia da ira, quando o justo julgamento de Deus será revelado” (Rm 2:5). Veja, por exemplo, Mateus 10:15; 11: 22,24; 12:36; 25: 31-46Romanos 2:5-7 ; 1Co 4:5Hb 6:22 Pedro 2:4Judas v.6Apocalipse 20:11-15.

[16] Para uma discussão cuidadosa da motivação escatológica para missões, veja C. J. Moore, Can We Hasten the Parousia? An Examination of Matt 24:14 and its implications for Missional PracticeThemelios 44 (2019): 291-311.

[17] Pode um livro sobre o Espírito e missões que não se refira uma vez a Atos 4:12 ou Romanos 10:14-15, e apenas tangencialmente a Atos 4:29-31 (uma vez, e não com referência a “falar a palavra ousadamente”), realmente ser considerado evangélico ou pentecostal?

[18] Embora Yong rejeite claramente os pressupostos modernistas da teologia liberal adotada por Harnack, há semelhanças impressionantes em vários temas unidos: a rejeição da reivindicação do Cristianismo de ser o único possuidor da verdade; a elevação de outras religiões como essencialmente iguais ao Cristianismo; e uma ênfase na missão como ação benevolente ao invés da proclamação de uma mensagem, especialmente o julgamento futuro. Então, na verdade, nenhuma das ênfases de Yong é nova, embora elas agora estejam vestidas com trajes pós-modernos. Observe, por exemplo, a descrição de Paul A. Varg do relatório de 1930 emitido pelo Laymen's Foreign Missions Inquiry. O inquérito foi encomendado por sete denominações principais, presidido por William E. Hocking (um professor de Harvard), e seu relatório foi publicado em um livro intitulado Re-Thinking Missions (Nova York: Harper & Brothers, 1932). Varg escreve: “Repensar as missões foi a marca d'água do liberalismo protestante. No mundo dinâmico dos últimos cem anos, afirmava o relatório, a ciência, os estudos históricos e a atividade filosófica trouxeram progresso nos conceitos da experiência religiosa. A ênfase na punição futura deu lugar a uma ênfase na beneficência. O Cristianismo não mais se consideraria o único possuidor da verdade; deve agora aceitar o fato de que era apenas um entre iguais no campo das religiões, tateando em busca de conceitos mais elevados do significado do universo. [O Cristianismo] deve reconhecer que não tinha nenhuma reivindicação especial de revelação e deve dar as mãos com essas mesmas religiões com o propósito de fortalecer os valores espirituais” (Varg, Missionaries, Chinese, and Diplomats [Nova York: Octagon, 1977], p. 167).

[19] Na verdade, o trabalho de Yong pode ser apropriadamente descrito como uma tentativa de misturar as vozes de Charles Parham e Harvey Cox. Infelizmente, o resultado final parece mais com o bispo K. H. Ting do que com William Seymour.

[20] Becky Croasmun, Legacy of Faith (Bloomington, IN: iUniverse, 2011). Becky Croasmun é neta de Max e Emily Bernheim.

[21] Com relação à crítica pós-colonial, acredito que o ensaio de Arthur Schlesinger Jr., The Missionary Enterprise and Theories of Imperialism, em The Missionary Enterprise in China and America, editado por John K. Fairbank (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1974), 336–73, é revelador. Schlesinger examina a acusação de que os missionários protestantes na China eram imperialistas por meio de três lentes específicas (ou teorias do imperialismo): econômica, política e cultural. Ele conclui que os missionários não eram imperialistas econômicos ou políticos: “Os próprios missionários permaneceram uma força independente e muitas vezes em conflito com o comerciante branco e ainda mais com o colono branco” (p. 346). Depois de notar a posição apolítica de Rufus Anderson, o secretário correspondente do Conselho Americano [de Missões] de 1832 a 1866, ele cita como representativas as conclusões da Comissão Hocking em 1930, que concluiu que os missionários protestantes que estudaram “não foram, em qualquer sentido, apologistas nem promotores de qualquer sistema político ou econômico, ou de interesse” (p. 360). Schlesinger então argumenta que os missionários eram, no entanto, imperialistas culturais, uma acusação que nos diz mais sobre a teologia de Schlesinger do que sobre a prática real dos missionários. Varg também refuta a acusação imperialista, concluindo que “não há evidências para apoiar qualquer tese geral de que a empresa missionária foi apenas uma ferramenta da classe média para preparar o caminho para a exploração da China” (Varg, Missionaries, p. 85).