sábado, 5 de julho de 2008

A tresloucada simpatia de alguns cristãos por Friedrich Nietzsche e a gritante distorção que fazem do seu discurso

Há um pequeno fenômeno entre alguns cristãos de hoje, influenciados pela mentalidade pós-moderna, e que, mesmo sendo ainda tímido, já está suficientemente reproduzido em inúmeras reflexões exaradas em livros e sites, ao ponto de merecer a nossa atenção e preocupação: a prática de eleger acriticamente, como referenciais, personalidades que nada têm a ver com aquilo ao qual elas foram eleitas para representar pelos seus aficcionados.
Trocando em miúdos, muitos cristãos estão cometendo o terrível equívoco de escolher como seus referenciais na fé cristã, ou em aspectos da fé cristã, personalidades não-cristãs que não apenas não têm nada a ver com os princípios bíblicos como, em alguns casos, também se opõem ferozmente à genuína fé cristã. Mas seus aficcionados, com sua percepção eclipsada pela sua veneração à entourage da pós-modernidade, não conseguem (ou não querem) enxergar isso. Ao ponto de alguns deles chegarem a afirmar ainda, em alguns casos, o absurdo de que tais personalidades não-cristãs “entenderam mais do Evangelho do que a maioria dos crentes” (sic).
Para não me alongar muito nesta postagem, citarei apenas um dentre vários exemplos graves: o caso do tratamento que alguns cristãos dão ao filósofo prussiano Friedrich Wilhelm Nietzsche.

Nietzsche não era um “oponente do falso cristianismo”

É inconcebível que cristãos vejam algo de cristão, algo do Evangelho, nos escritos de Nietzsche. Na verdade, os que assim fazem ou agem por ignorância ou por pura desonestidade.
Já li e ouvi alguns crentes citarem frases de Nietzsche absolutamente fora de contexto, fazendo seus leitores ou ouvintes pensarem que o filósofo estava se referindo, naqueles momentos pinçados, a idéias que, de alguma forma, se assemelhariam a algo que o Evangelho ensina. Já vi também alguns cristãos irem mais além, afirmando o absurdo de que a luta ácida do prussiano não era contra Jesus, não era contra o Evangelho, mas “apenas contra a religião chamada 'cristianismo', que se corrompeu”, e, por isso, “a luta de Nietzsche, de certa forma, seria a mesma nossa”. E ainda há quem assevere tresloucadamente: “Quem pensa que a luta de Nietzsche é contra Jesus ou não leu Nietzsche ou, se leu, leu e não entendeu”. Não! Quem afirma isso é quem nunca leu Nietzsche ou, se leu, não entendeu absolutamente nada do que escreveu, por mais claro que ele tenha sido em seus escritos.
Nietzsche não era intrincado, mas claro em suas afirmações absurdas. Obtusos são os que tentam fazê-lo dizer o que não disse, citando-o totalmente fora de contexto.

Nietzsche era absolutamente contra o Jesus da Bíblia

O Jesus que Nietzsche defendia não era o Jesus dos Evangelhos.
Para Nietzsche, os Evangelhos falsificaram a Boa Nova original de Jesus. O Jesus dos Evangelhos é, para ele, uma farsa. Afirmava o prussiano que os quatro evangelistas teriam misturado verdades (poucas) com mentiras (em profusão) em suas narrativas dos Evangelhos. Os quatro Evangelhos são, para Nietzsche, uma fraude, adulterações da “verdadeira história”. Baseado em que Nietzsche dizia isso? Em nada e em ninguém. Ele apenas achava que era assim. E mais: acreditava também que sabia qual era a suposta "genuína mensagem original de Jesus". E como teria encontrado essa "mensagem original"? Intuição (sic). Selecionava as passagens do Evangelho que ele achava que tinham mais a ver com sua idealização do “Jesus histórico” e desprezava as outras, que eram a esmagadora maioria, taxando-as absurdamente de fraudes promovidas por Mateus, Marcos, Lucas e João.
Nietzsche afirmava o que afirmava sobre Jesus e os Evangelhos não porque tinha como provar, mas por simplesmente achar que era assim e pronto. Afirmava como verdade sem preocupar-se com provas. Seguia apenas seu desejo e intuição. E como se não bastasse já a sandice do ato em si, ele escreveu essas suas tresloucadas intuições, em O Anticristo, quando já estava clinicamente louco e sob o efeito de drogas. Ou seja, além de vigarista, era louco. A própria professora Scarlett Marton, especialista em Nietzsche, admite que alguns estudiosos admiradores do prussiano, justamente por causa disso, preferem colocar o filósofo “no seu devido lugar”, separando os seus demais textos daqueles que foram escritos sob o efeito das drogas. Estes, apesar do péssimo gosto, pelo menos são mais honestos, diferentemente de alguns professores seculares que conheci que achavam "lindo" e "romântico" o fato de alguns dos livros de Nietzsche terem sido escritos quando ele estava louco e sob o efeito de drogas. Eles tratavam esses livros, exatamente por isso, como uma espécie de "livros sagrados", quase "revelações divinas", por mais absurdamente ilógicas que sejam, do começo ao fim, as afirmações contidas neles. "Oh, o gênio louco! Que lindo! Que emocionante!"
Ou seja, tratavam-no como aqueles tolos dos anos 60 e 70 tratavam (e alguns ainda tratam hoje) os quadros e músicas bizarros de artistas que produziram suas obras sob o efeito de drogas, sob o pretexto de "ampliar a criatividade". Preferem venerar o que chamam de "insights da loucura" do que atentar para o que é dito em lucidez e sem vigarices. Preferem a "intuição" da loucura do que a lucidez e a verdade dos fatos. Preferem deliberadamente ser engodados do que aceitar a verdade. A lucidez já não importa tanto. Loucura é quase salvação. Mas, pensando bem, o que esperar de uma geração que acha Dadaísmo arte?
E ainda há cristãos que alçam ao nível da excelência frases extraídas de textos sem lógica, sem pé nem cabeça, absurdos, de um coitado acometido de loucura e sob o efeito de drogas nos últimos 27 anos de sua vida (ele se auto-medicava e, entre as drogas consumidas quase que diariamente, estava o haxixe)! E ainda há cristãos que citam declarações de seus livros como se fossem pensamentos sadios teologicamente ou coerentes inferências filosóficas. Basta ler o respectivo contexto de cada citação e vê-se a verdadeira intenção e absurdo por trás de cada frase (independente de ser de livros em que Nietzsche já havia surtado totalmente ou não – basta serem da fase de revolta).
Bem, mas voltemos ao que o prussiano achava de Jesus. Afirma Nietzsche que o verdadeiro Jesus era um rebelde que morreu pelos seus ideais, não era Deus e nem queria salvar ninguém. Os seguidores de Jesus é que teriam inventado essa história de que ele era Deus. Jesus seria apenas um mestre anarquista que queria mostrar como se deveria viver, sem essa história de “humildade” (considerada pelo filósofo “tolice” e “fraqueza”), e que não morreu para salvar os homens. Era esse Jesus que Nietzsche aceitava. Ele afirmava, inclusive, que “o [verdadeiro] Evangelho morreu na cruz [com Jesus]” e o cristianismo seria nada mais do que uma invenção, tendo como seu maior mentor, construtor, idealizador, o apóstolo Paulo.
Nietzsche dizia que Paulo inventou a história do Céu e do Inferno e a necessidade da crença na imortalidade como maneira de desvalorizar o agora da vida no mundo. Seu livro O Anticristo é uma guerra declarada contra o Jesus da Bíblia, o apóstolo Paulo e tudo o mais relativo ao cristianismo. E ataca acidamente todos os teólogos cristãos em seu livro (e não o faz porque acha que os teólogos estão se desviando da Bíblia, como distorcem alguns, mas exatamente porque, como ele mesmo explica, os teólogos disseminam os valores ensinados pela Bíblia, que ele tanto odiava. Porém, alguns cristãos simpatizantes de Nietzsche, avessos à ortodoxia e seduzidos pelos princípios da pós-modernidade, cometem diante desses textos uma vergonhosa dislexia premeditada: usam descaradamente essas passagens em que Nietzsche fala contra teólogos como se ele estivesse opondo-se a estes porque teriam deturpado a Bíblia).
Sintética e finalmente, sabe o que Nietzsche achava do Jesus da Bíblia? A definição a seguir é dada por ele mesmo em O Anticristo: “Canalha indecente!” É isso mesmo que você leu. Essa blasfêmia contra Jesus é proferida por ele em meio à ojeriza que ele expressa em relação às falas de Jesus registradas em Lucas 6.23, Mateus 5.46,47; 6.15,33; 7.1-2; Marcos 6.11 e 8.34 etc. Nietzsche considera esses ensinos de Jesus, todos, uma “sujeira”. Sugere, inclusive, que “convém vestir luvas antes de ler o Novo Testamento”. Veja quanta "simpatia" ele acalentava por Jesus e a Bíblia! E o pior de tudo é que ainda há quem diga que a sua luta era apenas contra o falso cristianismo e não contra Jesus...

O “evangelho” segundo Nietzsche e o Evangelho de Jesus

Nietzsche era um ateu que se opôs veementemente a Deus, à Bíblia e a seus valores. Dizia até que não era “ateu por conseqüência” de alguma coisa, mas “ateu por instinto”; ou seja, segundo ele, sempre fora ateu, mas fugira inicialmente dessa realidade até assumi-la de vez em determinado momento da vida. E levou seu ateísmo até às últimas conseqüências, renegando todos os valores defendidos pela Bíblia, e que considerava a grande “praga” da humanidade e contra os quais lutou em seus escritos até a loucura e a morte. Era um ateu antiteísta no sentido correto da palavra. Ele não era do tipo de ateu que negava o Deus da Bíblia, mas, por outro lado, gostava dos valores judaico-cristãos. Deus, para ele, era uma invenção, “um reflexo da psicologia das pessoas”, do que há de mais fraco nelas, isto é, do que há no “homem atrasado”. Por isso, de acordo com ele, a idéia de Deus e os valores judaico-cristãos deveriam ser todos defenestrados da humanidade, e a nova moral deveria estar baseada no indivíduo, mais especificamente nos seus instintos. Para Nietzsche, a essência do ser é a vontade. Aliás, este é um conceito central no pensamento de Nietzsche.
Enfim, nenhuma das virtudes defendidas pelo prussiano se coaduna com o Evangelho. As virtudes do “super-homem” pregadas por ele são orgulho, vontade inabalável (a busca pela prevalência da vontade pessoal), ambição de poder e inimizade (que os fortes vençam os mais fracos), busca pela satisfação sem restrições “morais” e o que ele entendia como “espírito livre” (livre das “amarras” dos valores judaico-cristãos). Ou seja, extravasar e obedecer à vontade pessoal é a verdadeira felicidade. Jesus, ao contrário, falava de negar a si mesmo e ser fiel até à morte, e que o maior é aquele que mais serve e não se preocupa apenas consigo; e que a felicidade está no amor a Deus e ao próximo.
Entretanto, o que é nobreza para Nietzsche? Segundo ele, o ser humano é tão nobre quanto a sua proximidade com o “super-homem”. Isto é, quanto mais desejo de poder e orgulho, maior é sua nobreza. Já Jesus falava de humildade, mansidão, abnegação e submissão total e incondicional a Deus como coisas que caracterizam a verdadeira virtude, a verdadeira nobreza.
Bem, se Nietzsche chamava a idéia de Deus e todos esses valores defendidos pelo Jesus da Bíblia de “praga”, e asseverava que o que importava mesmo era o poder e o orgulho, como é que alguém pode afirmar que a luta dele era "apenas contra o falso cristianismo"?

“Deus está morto e os pecados morreram com ele”

Outro absurdo inconcebível é ver crentes lerem a declaração do filósofo de que “Deus está morto e esses pecados morreram com ele” como uma afirmação que estaria reverberando, ainda que inconscientemente, o Evangelho. Nada mais falso! É como usar a música Imagine de John Lennon como se fosse uma música que fala de como será o mundo quando o Reino de Deus for implantado definitivamente em toda a Terra, como já vi crentes fazendo. Isso é um desrespeito ao próprio Lennon, que nem escreveu aquelas palavras nesse sentido, pois nem cria nisso, e ainda era anticristão, deixando isso claro inclusive na própria letra de Imagine: “Imagine que não existe nenhum Céu (...) e nenhum Inferno. (...) Imagine que existe apenas o céu sobre nós. (...) Imagine todas as pessoas vivendo pelo hoje. (...) Nenhuma religião também”.
Quando Lennon fala de “religião” na letra dessa música, não tinha em mente o que chamamos pejorativamente de religião. Tinha em mente principalmente a pregação do cristianismo sobre a Salvação só em Jesus, a necessidade de arrependimento (palavra inconveniente na pós-modernidade) em relação aos nossos pecados, realidade do Céu e do Inferno etc. Ele, inclusive, destaca na letra de Imagine que devemos imaginar o mundo ideal sem Céu (Heaven), somente com o céu sobre nós (sky).
Além de não acreditar em Céu e Inferno, o Deus em que Lennon cria não era um Deus pessoal. Afirmou ele certa vez quando perguntado se o Deus em que ele cria era uma fórça cósmica: “Sim, eu acredito que Deus é como uma usina de força, que Ele é um poder supremo, que não é nem bom nem ruim, nem de direita nem de esquerda, nem branco nem preto. Ele simplesmente é”. Em outra oportunidade, acrescentou: “Deus é um conceito pelo qual medimos o nosso sofrimento”.
Na famosa entrevista que deu ao jornal Evening Standard, edição de 4 de março de 1966, ele afirmou: “O Cristianismo vai desaparecer. Vai diminuir e encolher. (...) Nós [Beatles] somos mais populares do que Jesus neste momento. Não sei qual vai desaparecer primeiro – o rock and roll ou o Cristianismo. Jesus era legal, mas os discípulos dele eram estúpidos e vulgares. É a distorção deles que estraga o Cristianismo para mim”. Segundo Lennon, foram os discípulos de Jesus que distorceram o Evangelho, pregando sobre Céu, Inferno, pecado, arrependimento etc (quando, sabemos, Jesus pregou sobre tudo isso). Para Lennon, o Evangelho, a mensagem de Jesus, consistia só em amor, paz e união, o resto era distorção. Para ele, Jesus não era Deus encarnado, mas apenas um grande homem, um mestre de moral, e sua morte foi apenas um martírio.
Por isso, se Lennon estivesse vivo e ouvisse o uso descaradamente distorcido de suas afirmações como se fossem referência ao Evangelho bíblico, ele se revoltaria, escandalizado e extremamente indignado. Nietzsche, idem.
Aliás, já notou como os crentes influenciados pela pós-modernidade criaram um mecanismo falacioso para tentar fazer os outros e eles mesmos crerem que todos os ataques ao cristianismo não têm a ver com ataques ao Evangelho? A falácia está no joguinho que se faz com o termo “religião”. É o que chamei, parágrafos acima, de “dislexia premeditada”. Simplesmente, dizem que todos esses ataques são, na verdade, contra a “religião cristã” (religião no sentido pejorativo, diferentemente do que aparece em Tiago 1). Porém, a maioria desses ataques estavam e estão expressamente se referindo, quando falam em cristianismo, não a meros ritos religiosos ou legalismo, não ao falso cristianismo, não a uma casca religiosa que se apresenta como cristianismo, mas aos princípios e valores bíblicos mesmo. Conquanto haja quem critica o cristianismo por confundi-lo com o falso cristianismo, é ignorância ou desonestidade classificar todos os ataques como sendo isso. Não são.
Quer se fazer crer que sempre quando alguém ataca a “religião” está usando esse termo no sentido pejorativo que muitos cristãos usam. “Ah, o ataque deles é só contra a chamada ‘religião cristã’, não contra o Evangelho mesmo. Se conhecessem o que ensina o Evangelho, não fariam esses ataques”. E chegam até ao ponto de sacralizar ataques, sagrar o que é original, bíblica e essencialmente anticristão. "Ele não queria dizer o que pensam... O que disse até se parece com o Evangelho!..." Por exemplo, aceitar a letra de Imagine como um não-ataque ao Evangelho, quando é. Desfigura-se a intenção do autor da música ou do texto, ou do artigo, colocando por cima dela a sua interpretação. Despreza-se totalmente a intenção original do autor. Não vale mais o que Lennon quis dizer claramente e como ele tratou do assunto durante sua vida, mas o que eu acho que ele queria dizer ou, melhor dizendo, o que eu quero que ele diga. Assim como não vale mais a intenção de Nietzsche, o que ele quis dizer, por mais gritantemente claro e nítido que ele tenha sido. Vale o que eu quero que ele diga. Isso tem um nome na filosofia: desconstrutivismo. Pode chamar também de “desonestidade com roupagem filosófica”.
Além de não haver Evangelho em Nietzsche, torcer o significado claro de seu texto é desrespeitá-lo. É propaganda enganosa, é usar indevidamente, distorcidamente, as suas palavras. Não é à toa que os crentes que fazem isso são geralmente os mesmos que desprezam as regras básicas e evidentes de hermenêutica na hora de interpretar textos bíblicos. A motivação é a mesma: fazer com que os textos bíblicos que usam digam o que eles querem que digam, assim como fazem com os textos de outros autores.
Quem ler o argumento de Nietzsche todo verá que quando ele disse “Deus está morto e esses pecados morreram com Ele”, estava dizendo que os valores são uma invenção alimentada pela crença em Deus, por isso, de acordo com o prussiano, quando os seres humanos tomassem consciência da inexistência de Deus, os valores decorrentes dessa crença (e que são para ele uma “doença”) se extinguiriam, e com eles a idéia de “pecado”. Quando ele afirma “Deus morreu”, está dizendo que tanto a idéia de Deus quanto os valores, decorrentes de se crer nEle, morrem. Morrem com Ele. Por isso, não haveria mais o que se falar de “pecado”.
O que Nietzsche pregava era a “transvalorização” de toda moral e ética cristãs. O que vale mesmo, de acordo com ele, é a vontade de poder, que, quando prezada, leva ao “super-homem”, ao “sobre-homem”, ao “além-do-homem” (o übermensch, o overman). “Além-do-homem” significa que o “homem normal” deveria se tornar o “homem desejável”, o humanismo em seu sentido mais acentuado.
O que isso tem a ver com o Evangelho? Nada. Mas tem gente que prefere “ver cabelos em sapo” só para não parecer “atrasado” diante da entourage da pós-modernidade – já que, na pós-modernidade, desprezar o “papai” Nietzsche é não ser intelectual, quando a verdade crua e nua é que Nietzsche está quilômetros abaixo dos maiores filósofos do passado. É fumaça pura.
Isso não quer dizer que não possa existir alguma razão para lê-lo. Há umazinha só: ler Nietzsche é importante para entender melhor o espírito e a mentalidade desvirtuada dos nossos dias, tão influenciados pelos seus escritos. Excetuando isso, o que sobra é uma experiência irrelevante, que não acrescenta nada à nossa vida, além de ser desagradável por razões óbvias (Ou alguém gosta de ler mentiras grosseiras e ofensas vomitadas num papel em um transe de ódio e alucinação?). Passei por essa experiência há alguns anos, sem um pingo de saudades e achando cada vez mais estranho como tem gente que consegue lê-lo (se é que realmente leu, no sentido lato do termo) e confundir vidro com diamante, latas com taças de ouro.

domingo, 8 de junho de 2008

Sobre ortodoxia, meios e fins

Um dos sintomas da influência da mentalidade pós-moderna no meio cristão é a aversão que alguns cristãos manifestam hoje em relação à ortodoxia bíblica, isto é, à Verdade. Infelizmente, o cristão pós-moderno tem a tendência de ignorar, e até mesmo criticar, a importância da doutrina correta. O termo "verdade absoluta" causa em muitos arrepios. E a razão é simples: cansados das disputas teológicas intermináveis (a maioria em relação a doutrinas bíblicas secundárias) que marcaram os últimos séculos, muitos cristãos de hoje resolveram tomar uma atitude radical e tola: abraçar a idéia de que o que importa realmente são relacionamentos corretos e não doutrinas corretas. Porém, a idéia de que uma coisa é mais importante do que a outra é uma premissa absolutamente falsa. Ambas – relacionamentos corretos e doutrinas corretas – são importantes. E isso não é uma inferência particular. A própria Bíblia as trata como igualmente importantes, e a experiência da vida corrobora.
Alguém pode ser um primor de ortodoxia, mas um péssimo cristão em termos práticos, em termos de comportamento. Isso porque o fato de saber a verdade não impede a pessoa de errar. Vide o caso do rei Salomão. O homem mais sábio do mundo cometeu uma tolice, pecou absurdamente, mesmo sabendo, mais do que todos, que a sua atitude era reprovável diante de Deus.
Por outro lado, aquele que valoriza o comportamento correto em detrimento da ortodoxia esquece que é impossível termos um comportamento completamente correto se nos falta a compreensão da Verdade. É justamente por isso que, invariavelmente, aqueles que colocam relacionamentos acima de doutrina aceitam e reproduzem, às vezes inconscientemente, posicionamentos e comportamentos absolutamente equivocados.
Ou seja, ortodoxia e ortopraxia se completam. Para que haja real ortopraxia, é preciso ortodoxia; e para que a ortodoxia gere frutos, é necessário que ela seja encarnada na vida, se manifeste nas ações; é necessário que seja algo mais do que mero conhecimento; é necessário que se materialize em ortopraxia. Ortodoxia sem ortopraxia é verdade sem vida; já ortopraxia nem existe em sua plenitude sem ortodoxia, pois não há Vida se ignoramos a Verdade.

A importância de como lidamos com os meios e fins

Foi o escritor liberal e dramaturgo alemão Gotthold Lessing que, no século 18, afirmou a seguinte sandice: “Se Deus me oferecesse, com sua mão direita, toda a verdade e, com a esquerda, a procura interminável da verdade, ficaria com a mão esquerda”. O motivo para tal escolha? Explica Lessing: “A jornada para encontrar a verdade é mais importante que o destino”.
Lessing, que não acreditava que a Bíblia era a Verdade, se esquecia do que bem frisou Erwin Lutzer, que se ele não possuísse absolutamente nenhuma verdade, "não poderia discernir nem mesmo graus de veracidade; não saberia sequer se sua procura estaria levando-o à direção correta, já que nem saberia o que estaria procurando". Não saberia se os meios utilizados eram corretos ou errados para se chegar ao fim desejado.
Aliás, muitos dos erros que as pessoas cometem na vida estão relacionados justamente à forma como lidam com a relação “fins” e “meios”. Se há os que erram por raciocinarem e agirem maquiavelicamente, isto é, pensando e praticando que os fins justificam os meios, há os que também erram por raciocinarem e agirem guiados pelo mote de Lessing: os meios valem mais do que os fins. Não! Tanto os fins quanto os meios são importantes.
No fundo, no fundo, quem faz a escolha de Lessing não quer mesmo a Verdade, posto que mesmo um pouco da Verdade é melhor do que uma busca contínua; não quer o verdadeiro crescimento espiritual, pois este só pode acontecer a partir do conhecimento e aplicação da verdade bíblica, que, às vezes, incomoda. As doutrinas bíblicas fundamentais são claras e apresentadas objetivamente nas Sagradas Escrituras, mas suas implicações em nossas vidas chocam-se com a natureza pecaminosa, por isso muitos reagem preferindo a subjetividade. Aliás, as deusas da heterodoxia pós-moderna chamam-se "subjetividade" e "relativismo".
Crescimento na Verdade

O crescimento espiritual de que fala a Bíblia é mais do que a busca pela Verdade (que é só uma parte do processo), é também um crescimento na Verdade, exarada na Palavra de Deus. Como assim?
Digamos que você, hoje, já conhece e estudou bem tudo aquilo que Deus nos deixou revelado em Sua Palavra para o nosso crescimento espiritual ou pelo menos já sabe bem o essencial da Verdade, apresentada objetivamente nas Escrituras. Ora, isso não significa nem que você deve agora procurar verdades além da Bíblia para continuar “crescendo” nem que você deve achar que já cresceu em Deus porque já estudou tudo. Muito pelo contrário. Você deve crescer espiritualmente a partir da Verdade que aprendeu, aplicando-a todos os dias em sua vida e, assim, sendo aperfeiçoado. Disse Jesus: “Santifica-os na Verdade, a Tua Palavra é a Verdade” (Jo 17.17).
Porém, como Lessing, muitos cristãos hoje não querem a verdade objetiva, mas, sim, subjetividade, relatividade, o caminhar cheio de reformulações constantes. Por quê? Porque é muito mais atraente. É muito mais cômodo viver a partir de princípios flexíveis do que a partir de princípios inamovíveis. É muito mais cômodo uma ética situacionista do que uma ética cimentada. A verdade objetiva nos impõe aplicá-la, vivê-la, apesar de nossas vontades, circunstâncias e gostos pessoais. A verdade relativa, ao contrário, que é construída, adaptada e readaptada conforme as conveniências, conforme o feeling pessoal, não nos exige tanto compromisso, mas apenas o ser politicamente corretos.
Nós, porém, procuremos permanecer na Verdade, aprender mais da Verdade, nos conduzir conforme a Verdade, viver a Verdade. Em nome de Jesus.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

De que lado realmente está Phillip Yancey

Há um antigo provérbio latino que diz: “A barba não faz o filósofo”. Ou seja, nem sempre aqueles que têm uma aparência que se encaixa no perfil básico que criamos em nossa mente para identificar determinado tipo de pessoa são de fato exemplares desse tipo de pessoa. Como a vida tem demonstrado inúmeras vezes, a aparência que nos satisfaz à primeira impressão pode não representar fielmente a verdade que muitas vezes só se vê plenamente além dessa aparência. Em outras palavras, para que a aparência nunca nos conduza ao engano, é preciso sempre olhar além das superfícies.
Aplicando aos discursos: nem sempre aquela pessoa que tem um discurso parecido com o nosso crê realmente em tudo o que cremos. Ela pode, por exemplo, divergir doutrinariamente em pontos periféricos, o que não é grave; mas pode também divergir em pontos doutrinários fundamentais, e aí repousa o perigo. E para perceber essa divergência é preciso ir além das aparências, além da superfície, conhecer o verdadeiro pensamento da pessoa quanto a pontos fundamentais, se não fatalmente nos encontraremos trocando o verdadeiro pelo falso, o precioso pelo espúrio.
Nem sempre, por exemplo, a pessoa que fala de “amor” está falando de amor da mesma forma que eu e você cremos no amor à luz da Bíblia. Nem sempre quem fala de “graça” pode estar se referindo à graça bíblica. Nem sempre quem se refere ao Evangelho está realmente afirmando verdades sobre o Evangelho. E isso não é difícil de descobrir. É só comparar o que a pessoa diz com tudo o que a Bíblia diz sobre o assunto e logo descobrimos se trata-se ou não do verdadeiro amor, da graça bíblica e do Evangelho como o encontramos nas Sagradas Escrituras.
Pensei nesse assunto nos últimos dias ao me dar conta de que poucos cristãos no Brasil estão apercebidos de quem é quem entre os atuais pensadores-ícones do meio evangélico mundial. Há, por exemplo, muita gente confundindo cristãos liberais com cristãos conservadores e, justamente por isso, sendo inoculados desapercebidamente por princípios liberais que são-lhes apresentados sutilmente, camufladamente. Aliás, esta é uma marca do novo liberalismo teológico: mostra-se, via de regra, em trajes atraentes; sob o manto, inclusive, de um amor desvirtuado.
Poderia citar vários exemplos, mas, para que esta postagem não seja quilométrica, vou citar apenas um dos casos mais populares: Phillip Yancey.
Há muita gente que pensa que Yancey é um cristão evangélico conservador, mas ele não é. Já foi, mas hoje está longe disso.
Por exemplo: Phillip Yancey é declaradamente condescendente com o homossexualismo. Não acredite no que eu estou dizendo. Leia você mesmo: http://www.whosoever.org/v8i6/yancey.shtml. Este é o link para uma entrevista que Philip Yancey deu em 2004 para Candace Chellew-Hodge, líder de uma igreja gay nos Estados Unidos e fundadora da Whosoever, uma revista eletrônica para gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros “cristãos” (sic). Trata-se de uma publicação que defende que “homossexualismo não é pecado”. Candace, inclusive, afirma que “a homossexualidade, como conhecemos hoje, não é condenada em nenhum lugar da Bíblia”.
Na tal entrevista, intitulada Amazed by grace (“Maravilhado pela graça”), Yancey afirma o que se segue: “Como tenho freqüentado igrejas de lésbicas e gays, fico triste porque a igreja evangélica em sua maioria não tem espaço para os homossexuais. Tenho encontrado maravilhosos e compromissados cristãos que freqüentam a MCC [Metropolitan Community Church, uma igreja organizada especificamente para homossexuais] e gostaria que as outras igrejas se beneficiassem da fé desses cristãos gays”.
Yancey ainda considera as igrejas gays um exemplo para todas as outras: “Já estive em igrejas de gays e lésbicas cujo fervor e compromisso deixariam a maioria das igrejas evangélicas mortas de vergonha”.
Na mesma entrevista, perguntado sobre sua amizade com um dos líderes da igreja gay nos EUA, chamado Mel White, ao qual Yancey dedica um dos capítulos de seu livro Maravilhosa Graça, ele responde: “Durante anos, Mel White foi um dos meus amigos mais íntimos antes que ele me revelasse sua orientação sexual. A propósito, ele ainda é meu amigo. (…) Quando as pessoas me perguntam como é que consigo manter amizade com um pecador como Mel, respondo perguntando como Mel consegue manter amizade com um pecador como eu. Mesmo se eu concluir que toda conduta homossexual é errada, como muitos cristãos conservadores fazem, ainda sou compelido a responder em amor”. Note: “Mesmo se eu concluir que toda conduta homossexual é errada...”. E não é, à luz da Bíblia? (Gn 18.20; 19.4,5; Lv 18.22; Rom 1.26.27; 1Co 6.10).
Mel White é líder do grupo homossexual radical Soulforce, que faz pressão para que instituições evangélicas conservadoras abandonem suas posições bíblicas e incorporem a agenda homossexual. Mesmo assim, e apesar do que dizem 1 Coríntos 5.11 e Tito 3.10 (leia os dois textos), Yancey continua sendo seu amigo. Yancey deveria admoestá-lo e, se White não aceitasse de forma nenhuma admoestação, deixar de dar-lhe apoio. Apoio só se White quisesse mesmo ajuda. Porém, diferentemente, Yancey não o admoestou e ainda apóia o movimento de Mel White. Desobedece 1 Coríntios 5.11 e Tito 3.10.
Jesus visitava publicanos e pecadores, mas não condescendia com seus pecados. Ele pregava o arrependimento e a transformação de vida (Mc 1.14,15). Ele não apoiava as pessoas em seus pecados. Vide, por exemplo, Zaqueu (Lc 19.1-10) e a mulher adúltera (Jo 8.1-11). “Não peques mais” (Jo 8.11b).
Por que Yancey não faz isso? Por que não ensina que homossexualismo é pecado e que Deus pode resgatar a heterossexualidade dos que se vêem hoje presos pelo homossexualismo? Porque ele crê que as pessoas nascem gays, ou seja, que é Deus quem as cria assim. Mais uma vez, não acredite no que eu digo. Leia você mesmo.
Em recente entrevista de Yancey à revista Enfoque Gospel (http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=50&materia=152), ele assevera: “Procuro não fazer um julgamento rígido sobre [o homossexualismo], porque, a partir do momento em que você julga, você perde metade das pessoas que devem ouvir o que tem a dizer. Falo do que tenho certeza, e tenho certeza da maneira como devemos tratar as pessoas que fazem as coisas de uma forma diferente da que a gente faz e até mesmo as pessoas que fazem coisas que desaprovamos fortemente. É isso que significa graça. Se alguém é igual a mim, não preciso de graça. Eu preciso da graça para quem é diferente de mim. Então, o que aprendi com o meu amigo foi que ele teve de ter muita graça em relação a mim, também porque eu trabalho para a revista Christianity Today, que é uma revista que faz afirmações contra o homossexualismo. Então, é tão difícil para o Mel White ser meu amigo quanto é para mim ser amigo dele. Ao contrário de algumas pessoas, não acho que o homossexualismo seja uma opção, que Mel White e outras pessoas simplesmente decidiram ser homossexuais. É algo que está profundo na identidade dele, assim como a minha heterossexualidade é profunda em minha identidade. Não acordei pensando: ‘Acho que eu vou ser heterossexual’. Eu sou! Penso que com o Mel é a mesma coisa”.
É por isso que, na entrevista à revista eletrônica Whosoever, Yancey afirma: “Obviamente [ou seja, para Yancey, o que ele vai dizer a seguir é óbvio demais], se uma igreja está dizendo que você precisa abandonar a orientação sexual [deixar de ser homossexual], essa igreja precisa receber educação”. Não é isso que Paulo afirma em 1 Coríntios 6.10,11.
E sobre a ordenação de pastores gays, Yancey, corroborando que ortodoxia bíblica não é mesmo com ele, declara na mesma entrevista: “No que se refere a assuntos de doutrinas, como a ordenação de pastores gays e pastoras lésbicas, fico confuso… Francamente, não sei a resposta para essas questões”. Tal declaração não é nenhuma surpresa, pois vem de alguém que afirma que ser gay não é escolha, mas, sim, predestinação genética.
Por tudo isso, repito: preocupa quando vemos que muitos evangélicos no Brasil ainda não estão apercebidos que Yancey e outros pensadores-ícones dos EUA em nossos dias são cristãos liberais. Muitos ainda os têm como conservadores. E o engraçado é que o próprio Yancey fica impressionado que muitos cristãos ainda não conseguiram ver que ele já não está do lado de cá há muito tempo. Ele está consciente da sua nova posição, mas muitos conservadores ainda não estão conscientes da nova posição dele e continuam lendo seus escritos como se ele fosse um conservador, o que deixa o próprio Yancey perplexo. Em entrevista à revista Sojourner, ele fez esse comentário: “Eu mesmo me surpreendo com o fato de que consigo escapar de críticas e rejeições pelas coisas que escrevo. Quando enviei meu manuscrito de Maravilhosa Graça, disse para minha esposa Janet: ‘Acho que provavelmente este é o último livro que o mercado evangélico vai tolerar de mim’. Meu livro tem um capítulo inteiro sobre Mel White, que é agora um ativista gay, e tem um capítulo inteiro sobre Bill Clinton, que não é o presidente mais favorecido dos evangélicos”.
Sobre Mel White, já falamos. Já acerca do apoio (fervoroso) de Yancey a Clinton, citemos alguns fatos: quando o presidente mais pró-aborto e pró-homossexualismo de toda a história dos EUA (apesar de evangélico batista) havia adulterado várias vezes e, em uma delas, com uma estagiária da Casa Branca com quem praticava sexo oral no Salão Oval (relacionamento sobre o qual Clinton mentiu em declaração pública), Yancey elogiou Clinton em um de seus artigos na revista Christianity Today, chamando-o de “um homem de fé num mundo que não tem consideração pela fé”. Depois de tudo e em meio a tudo, Yancey via Clinton como referência de vida cristã. Interessante que quando nomes como Jimmy Swaggart (só para citar um caso bem famoso) e outros cometeram torpezas, ninguém os chamou, enquanto em pecado, de "homens de fé num mundo que não tem consideração pela fé" ou de referências no meio cristão. Clinton, porém, mesmo depois de tudo aquilo e de mentir publicamente diante de toda a nação, foi exaltado por Yancey como uma referência cristã. O mesmo Clinton que, junto com o também batista Jimmy Carter (que já afirmou não crer nem na plena inspiração divina das Escrituras nem na infalibilidade das Escrituras), fundou, com pastores dissidentes, uma convenção nacional de igrejas batistas liberais para tentar fazer frente à conservadora Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos.
Em artigo publicado na Touchstone Magazine (touchstonemagazine.com) e intitulado A Feel-Good Sacrament, James M. Kushiner afirma que, durante o painel de discussão de uma conferência sobre C. S. Lewis, no qual alguns do painel haviam criticado os evangelicalistas americanos por combaterem tudo nas “guerras culturais”, desde o aborto à retirada das orações nas escolas até o homossexualismo, Phillip Yancey, dirigindo-se a mais de 600 pessoas ali presentes, na maioria evangélicos, "concluiu suas observações informando-nos que havia tido o privilégio de se encontrar particularmente com o presidente; em seguida, ele disse que Clinton havia compartilhado com ele um ponto importante, ou seja, que 'existe uma diferença entre moralidade particular e moralidade pública'". Arremata Kushiner: "Essa peça de sabedoria foi deixada em nossos círculos por um líder evangélico [Yancey] como uma palavra digna de toda aceitação, embora tendo partido de um presidente com óbvio interesse em separar as duas".
Em artigo publicado na revista Christianity Today de outubro 2003, sob o título Holy Sex, Phillip Yancey afirmou que, “em certo sentido, nós jamais teremos tanta semelhança com Deus como no ato sexual”, e ainda mencionou ter visto pornografia e ter sentido alguns tipos ilícitos de luxúria. E ele não se referiu a tais experiências com arrependimento ou remorso, nem as descreveu como sendo pecaminosas. Ao contrário, ele as chamou apenas de “técnicas desconexas de sexo”.
Aí surge a pergunta: O que fez Yancey mudar, tornando-se um liberal? Em parte, isso se explica pelo tipo de mentoria que Yancey adotou para sua vida nos últimos anos, em momentos de crise espiritual que sofreu. Alguns de seus novos mentores são Brennan Manning e Frederick Buechner, que "transformaram em libertinagem a graça de Deus" (Judas v4), pois ambos defendem, por exemplo, que homossexualismo não é pecado.
Yancey fala constantemente do católico Brennan Manning como referência para sua vida. Inclusive, falou disso quando esteve no Brasil há pouco tempo, como é dito na apresentação do livro O evangelho maltrapilho, de Manning (http://www.mundocristao.com.br/adicionais/40068.htm). Em janeiro de 2005, em entrevista ao site Interference, de fãs da banda U2 (cujo vocalista, Bono Vox, diz simpatizar com o movimento Igreja Emergente), Yancey assevera que seu autor favorito, um de seus mentores, é Frederick Buechner (http://www.interference.com/stories/id110235.html). Buechner é pastor e teólogo da PCUSA, denominação presbiteriana liberal dos Estados Unidos. Essa denominação “abençoa” uniões homossexuais. Uma das afirmações mais famosas de Buechner é a que se segue: “Dizer que moralmente, espiritualmente e humanamente a homossexualidade é sempre má parece tão absurdo quanto dizer que nos mesmos termos a heterossexualidade é sempre boa ou vice-versa” (http://jmm.aaa.net.au/articles/13247.htm). Se seguirmos Buechner, teremos de afirmar que Paulo e o próprio Deus cometeram esse “absurdo” (Lv 18.22; Rm 1.26,27; 1Co 6.10).
Outros posicionamentos liberais de Phillip Yancey nos últimos anos têm sido a defesa do ecumenismo em artigos (http://www.christianitytoday.com/ct/2004/november/18.120.html) e debates, e do Teísmo Aberto, defendido em livros como Decepcionado com Deus. Inclusive, nesta obra, ele declara que Deus não tem nada a ver com a vida e que ele, Yancey, é estóico: “Aprendi, primeiro com a doença de minha esposa e, em seguida, através de um acidente, a não confundir Deus com a vida. Sou um estóico. Estou tão transtornado com o que me aconteceu como qualquer pessoa poderia estar. Sinto-me livre para amaldiçoar a infelicidade da vida e atirar toda a minha dor e raiva... Mas creio que Deus se sente do mesmo modo sobre este acidente... dolorido e zangado. Não O censuro pelo que aconteceu... Aprendi a enxergar, além da realidade física neste mundo, a realidade espiritual. Temos a tendência a pensar ‘A vida deveria ser bela porque Deus é belo’. Mas Deus não é a vida”. Sobre como o estoicismo não tem nada a ver com a Bíblia, indico o livro Cristo e o Sofrimento Humano, de E. Stanley Jones.
Não estou dizendo com isso que você deve agora jogar fora todos os livros que Phillip Yancey escreveu. Não! Mas, ao lê-los, faça-o agora consciente de que aquele Phillip Yancey que escreveu bons livros nos anos 70 e 80 (como Deus sabe que sofremos) não é mais o mesmo. De lá para cá, ele mudou muito. E, infelizmente, doutrinariamente falando, não para melhor.

sábado, 5 de abril de 2008

Cinco mitos e falácias do liberalismo

Estive refletindo nos últimos dias sobre alguns mitos do liberalismo, seja ele secular ou teológico, que têm sido disseminados. Devido à popularidade de alguns deles, achei por bem escrever a respeito. É o que se vê a seguir.

O mito de que os liberais são mais felizes do que os conservadores

A propaganda cultural nos últimos anos tem disseminado em livros, filmes, novelas e revistas a idéia de que os conservadores são infelizes enquanto os liberais são felizes. A lógica, segundo a tal propaganda, é a de que os conservadores são infelizes porque “são reprimidos”, enquanto os liberais são felizes porque “não castram seus desejos”. Nada mais falso. As figuras do conservador infeliz e do liberal feliz-da-vida são estereótipos de obra ficcional. A vida tem mostrado que o inverso é que é bem mais comum.
Quem adota um comportamento liberal não encontra a felicidade, mas, no máximo, paliativos, placebos, fugazes narcóticos psicológicos. O liberalismo, a princípio, traz uma falsa sensação de liberdade à pessoa, mas, em seguida, leva-a a um ciclo de insatisfação constante, onde os vazios existenciais são preenchidos por prazeres passageiros e mais retiradas de limites, num ciclo sem fim de liberalização.
Ou seja, o liberalismo é uma droga que leva a pessoa e a sociedade, inconscientemente, à autodestruição paulatina. Só quando a pessoa descobre a importância de Deus e dos valores em sua vida, consegue reverter o quadro.
Quem vive segundo os princípios da Palavra de Deus já sabe disso há muito tempo. Mas parece que alguns estão começando a descobrir isso só de alguns anos para cá. Na edição de 27 de março da revista The Economist, foi publicada uma matéria com o seguinte título: Why conservatives are happier than liberals (Porque os conservadores são mais felizes do que os liberais). O texto traz os resultados de uma pesquisa feita em 2004 nos Estados Unidos. O estudo mostra que os norte-americanos que se dizem “conservadores” ou “muito conservadores” são duas vezes mais felizes do que os que se dizem “liberais” ou “muito liberais”. Mais precisamente, cerca de 50% dos “conservadores” ou “muito conservadores” se dizem “muito felizes”, enquanto apenas 25% dos “liberais” ou “muito liberais” se dizem “muito felizes”. E, segundo os pesquisadores, se acrescentados aos que se dizem “muito felizes” os que se dizem apenas “felizes”, a diferença abissal permanece entre os dois grupos.
A matéria da revista inglesa ainda lembra que alguém poderia até argumentar que os liberais norte-americanos estariam se sentindo infelizes devido ao fato de estarem vivendo sob o governo conservador de George Bush, mas, assevera a matéria, tal argumentação não procede, já que pesquisas do mesmo tipo feitas nos últimos 35 anos nos Estados Unidos têm tido o mesmo resultado: os conservadores são muito mais felizes do que os liberais. Sempre. Seja qual for o contexto.
E é importante que se diga: essa felicidade pesquisada pelo estudo não diz respeito à satisfação das pessoas com a situação do mundo, mas ao grau de satisfação que elas têm em relação à vida que levam, ao seu trabalho, à sua vida afetiva, à família, etc, apesar da situação do mundo.
Em seu livro Gross National Happiness, citado na matéria de The Economist, o professor Arthur Brooks, especialista no assunto, acrescenta que a mesma pesquisa também tem mostrado que as pessoas casadas e que estão toda semana na igreja são muito mais felizes do que as que banalizam o casamento e desprezam a religião.
Brooks ressalta ainda que os fatores religiosidade e secularismo pesam na balança. De acordo com o estudo, apenas 22% dos liberais não-religiosos se dizem “muito felizes”. E os liberais religiosos são tão felizes quanto os conservadores seculares. Os dois últimos são majoritariamente “não tão felizes”. Já os conservadores religiosos dos Estados Unidos (a esmagadora maioria de protestantes, já que 65% dos conservadores dos EUA são protestantes) são os mais felizes de todos: mais de 50% deles afirmam que são “muito felizes”. Só 5% deles se dizem “infelizes”.
Isso nos faz lembrar o salmista (Sl 1).

O mito de que liberalização é melhor do que restrições

É comum ouvirmos, até mesmo entre cristãos, o mito, cada vez mais popular, de que quanto mais você insiste em uma restrição, pior será, porque, segundo alguns acreditam, a manutenção daquela restrição só alimentará a transgressão dela. E a liberalização, isto é, a retirada da restrição, ao contrário, diminuiria a transgressão. Isso não é verdade. A vida tem mostrado que a liberalização, além de não diminuir a transgressão (muito pelo contrário: aumenta), leva a outra retirada de limites e depois a mais outra, e assim sucessivamente.
Meu amigo Valmir Nascimento, de Cuiabá, em seu blog http://www.comoviveremos.com/, já escreveu sobre o caso holandês, mas vale a pena repetir: a Holanda, um dos países mais liberais do mundo, está em crise com seu liberalismo. O país que, primeiro do que todos os outros, legalizou a eutanásia, o aborto, as drogas, o “casamento” entre homossexuais, a prostituição e o sexo ao ar livre em praças selecionadas (e já discute a liberalização da pedofilia – numa prova clara de que uma liberalização leva a outra, num ciclo interminável) reconhece que essa sua posição não melhorou o país. Ao contrário: aumentou seus problemas.
Em matéria publicada na revista Veja de 5 de março, sob o título Mudanças na vitrine, o jornalista Thomaz Favaro ressalta que, desde que a prostituição e as drogas foram legalizadas na Holanda, tudo mudou em De Wallen, famoso bairro de Amsterdã, capital holandesa, onde a tolerância era aceita. “A região do De Wallen afundou num tal processo de degradação e criminalidade que o governo municipal tomou a decisão de colocar um basta. Desde o início deste ano, as licenças de alguns dos bordéis mais famosos da cidade foram revogadas. Os coffee shops já não podem vender bebidas alcoólicas nem cogumelos alucinógenos, e uma lei que tramita no Parlamento pretende proibi-los de funcionar a menos de 200 metros das escolas. Ao custo de 25 milhões de euros, o governo municipal comprou os imóveis que abrigavam dezoito prostíbulos. Os prédios foram reformados e as vitrines agora acolhem galerias de arte, ateliês de design e lojas de artigos de luxo”.
A matéria destaca ainda que a legalização da prostituição na Holanda resultou “na explosão do número de bordéis e no aumento da demanda por prostitutas”. Nos primeiros três anos de legalização da prostituição, aumentou em 260% o tráfico de mulheres no país. E a legalização da maconha? Fez bem? Também não. “O objetivo da descriminalização da maconha era diminuir o consumo de drogas pesadas. Supunham os holandeses que a compra aberta tornaria desnecessário recorrer ao traficante, que em geral acaba por oferecer outras drogas. (...) O problema é que Amsterdã, com seus coffee shops, atrai ‘turistas da droga’ dispostos a consumir de tudo, não apenas maconha. Isso fez proliferar o narcotráfico nas ruas do bairro boêmio. O preço da cocaína, da heroína e do ecstasy na capital holandesa está entre os mais baixos da Europa”, afirma a matéria de Veja.
O criminologista holandês Dirk Korf, da Universidade de Amsterdã, afirma: “Hoje, a população está descontente com essas medidas liberais, pois elas criaram uma expectativa ingênua de que a legalização manteria os grupos criminosos longe dessas atividades”. Pesquisas revelam que 67% da população holandesa é, agora, a favor de medidas mais rígidas. E ainda tem gente que defende que o Brasil deve legalizar a maconha, o aborto, a prostituição, etc, citando a Holanda e outros países como exemplo de “modernidade”.
Veja o caso da Suíça. Conta Favaro: “A experiência holandesa não é a única na Europa. Zurique, na Suíça, também precisou dar marcha a ré na tolerância com as drogas e a prostituição. O bairro de Langstrasse, onde as autoridades toleravam bordéis e o uso aberto de drogas, tornara-se território sob controle do crime organizado. A prefeitura coibiu o uso público de drogas, impôs regras mais rígidas à prostituição e comprou os prédios dos prostíbulos, transformando-os em imóveis residenciais para estudantes. A reforma atraiu cinemas e bares da moda para o bairro”.
E a igualmente liberal Dinamarca? “Em Copenhague, as autoridades fecharam o cerco ao Christiania, o bairro ocupado por uma comunidade alternativa desde 1971. A venda de maconha era feita em feiras ao ar livre e tolerada pelos moradores e autoridades, até que, em 2003, a polícia passou a reprimir o tráfico de drogas no bairro. Em todas essas cidades, a tolerância em relação às drogas e ao crime organizado perdeu a aura de modernidade”.
Dessa “modernidade”, não precisamos. Nunca.

O mito de que os liberais evangélicos estão “remando contra a maré”

Um dos discursos mais usados hoje pelos adeptos de posicionamentos liberais no meio evangélico para romantizar sua luta é a de que são uma espécie de “Davi” lutando contra um “Golias” (que, neste caso, seria os que defendem a ortodoxia bíblica). Tentam imprimir na mente das pessoas, para sensibilizá-las em seu favor, a idéia de que a sua luta é a de uma “minoria esmagada”, que supostamente seriam eles, contra uma “maioria sufocante”, que supostamente seriam os ortodoxos. Usam, inclusive, muitos termos como “remar contra a maré”, “ter a coragem de ser diferente”, “fugir do consenso”, etc, para definir seu mourejar, apresentando-se como vítimas e, assim, legitimando, crêem, sua luta e, dessa forma, condenando a atividade apologética ortodoxa.
Ora, se existe uma coisa que os liberais não estão fazendo é remar contra a maré, ter coragem de ser diferente e fugir do consenso ideológico.
Quem está realmente remando contra a maré, tendo a coragem de ser diferente e fugindo do consenso ideológico são os conservadores. Os liberais evangélicos apenas reproduzem o que a mídia secular e os pensadores populares de hoje defendem. A verdadeira minoria que estão tentando sufocar em nossos dias são os chamados ortodoxos, não os liberais.
Se um liberal é a favor do aborto e a mídia é a favor do aborto, governos são a favor do aborto e a maioria dos pensadores incensados é a favor do aborto, quem está sendo minoria ideologicamente? O liberal ou o ortodoxo?
Se um liberal é condescendente com o homossexualismo e a mídia é condescendente com o homossexualismo, o governo também e a maioria dos pensadores hodiernos idem, quem está sendo minoria ideologicamente? O liberal ou o ortodoxo?
Se um liberal é a favor da eutanásia e a mídia é a favor da eutanásia, o governo é a favor também e a maioria dos pensadores de hoje idem, quem está sendo minoria ideológica? O liberal ou o ortodoxo?
Se um liberal é a favor do ecumenismo e a mídia aprova a idéia do ecumenismo, bem como governos e a maioria dos pensadores, quem está sendo minoria ideológica? O liberal ou o ortodoxo?
Não há nenhum suposto “heroísmo” (ou idéia parecida) na luta liberal, mas conformação e submissão à mentalidade das cabeças pensantes do mundo (Rm 12.2).
Nem por isso os ortodoxos vivem usando diante da sociedade o discurso de “minoria esmagada”, de vítima ideológica, usado pelos liberais, para legitimar seu posicionamento. Pelo contrário! Quem é biblicamente ortodoxo defende o que defende só por uma razão: é bíblico. E com o adendo de que a própria lógica, quando não distorcida, abona o pensamento ortodoxo.
Vale a pena repetir aqui o que coloquei na última postagem: o verdadeiro cristão não é Vox populi vox Dei (“A voz do povo é a voz de Deus”), mas Sola Scriptura (“Somente as Escrituras”). Ou como disse Blaise Pascal (vale a pena relembrar): “Um dos artifícios que o demônio usa para pôr os homens no caminho do mal é dar nomes desprezíveis a certas virtudes eternas e, assim, encher as almas fracas com o tolo medo de passarem por antiquadas se as exibirem”.

O mito de que os cristãos liberais são mais relevantes do que os conservadores

Mais outra falácia: a maioria esmagadora dos cristãos que fizeram realmente diferença positiva na História (cristã e secular) é de ortodoxos. Vide John Wesley, William Wilberforce, Jonathan Edwards, David Linvingstone, etc. A lista é extensa.

O mito de que ser liberal é um desafio muito maior

Outro discurso igualmente comum e falso. Quem acredita nisso está engolindo acrítica e tolamente um chavão do liberalismo. Quem analisa o mínimo possível as afirmações que ouve não cai numa enganação dessas.
É muito mais fácil ser liberal do que ser ortodoxo; ser “cinzento” do que ser “preto no branco’; ser conveniente do que ser realmente bíblico. O liberalismo teológico é como o Dadaísmo na Arte. Não é preciso estudar técnicas artísticas para produzir “arte” dadaísta. Da mesma forma, não é preciso conhecer bem a Bíblia para ser liberal. Aliás, para ser um bom liberal, você não precisa nem gostar de Bíblia. Diferentemente do ortodoxo. Não é à toa que liberais chamam ortodoxos de “bibliólatras” e a maioria deles nem crê na autoridade da Bíblia. Nada mais sintomático.
É mais fácil ser exótico do que andar certo. É mais fácil ser subversivo do que ser lúcido. É mais fácil pecar do que ser santo. É mais fácil deixar o mato crescer do que ficar cuidando do jardim. É mais fácil destruir do que construir. É mais fácil descer ladeira abaixo do que subir a montanha. É mais fácil se conformar com o pensamento de nossa época do que ir contra a correnteza, não se conformar com o mundo. É mais fácil fugir dos problemas do que enfrentá-los. É mais fácil retirar limites do que mantê-los. É mais fácil ser politicamente correto do que ser politicamente incorreto. É mais fácil dizer que não há verdade do que pregar e viver a Verdade. É mais fácil dizer que não há respostas do que encarar a Reposta.
Liberalismo é amar mais o aplauso do mundo do que a aprovação do Céu.
E é preciso ser muito mais profundo para ser ortodoxo do que para ser liberal. Aprofundar-se na Verdade, perfurar a superfície, apresentar de forma criativa a Verdade absoluta, é que é o verdadeiro desafio. Relativismo é despiste. Liberalismo é escapismo. É fuga. É tergiversação. É uma forma popular e fácil de tentar soar teologicamente profundo sem ser.
Que as palavras de A. W. Tozer, proferidas há mais de quatro décadas, possam ecoar em nossos corações: “Voltem para as fundas raízes. Abram o coração e sondem as Escrituras. Levem sua cruz, sigam o seu Senhor e não dêem atenção à moda religiosa que passa. As massas estão sempre erradas. Em cada geração, o número de justos é pequeno. Certifiquem-se de que estão entre eles”.

sábado, 8 de março de 2008

O cristão e a tolerância

"Um dos artifícios que o demônio usa para pôr os homens no caminho do mal é dar nomes desprezíveis a certas virtudes eternas e, assim, encher as almas fracas com o tolo medo de passarem por antiquadas se as exibirem" (Blaise Pascal)
Em época de significados distorcidos, clarificação de idéias se torna um dever constante. Por exemplo: o conceito de tolerância no cristianismo ou mesmo de tolerância em termos democráticos está sendo cada vez mais distorcido. Por isso, urge explicitarmos seu significado. É o que passo a fazer sinteticamente nesta postagem, atendendo à dúvida de um leitor enviada por e-mail.
Antes de tudo, o cristão bíblico, obviamente, defende fervorosamente a tolerância; porém, não qualquer tipo de tolerância. E que tipo de tolerância ele defende e qual ele não defende? Ele defende a tolerância em termos democráticos, que significa tolerância legal e tolerância social, mas não a tolerância acrítica. Como assim?
O cristão bíblico defende o direito que cada pessoa tem de acreditar em qualquer crença (ou em nenhuma) que se queira acreditar. Ele defende, por exemplo, que ninguém deve ser coagido a crer no que ele, cristão, crê. Isto é, o verdadeiro cristão defende e promove a liberdade religiosa. Isso se chamada tolerância legal.
O cristão bíblico também defende o respeito a todas as pessoas, mesmo que discordemos frontalmente de sua religião ou idéias. Ele defende a paz entre os indivíduos, entre os diferentes. Isso é tolerância social.
É com base na tolerância legal e na tolerância social que temos de fato a chamada liberdade religiosa.
Entretanto, o cristão bíblico não defende a tolerância acrítica. Muito pelo contrário. Ele defende que a tolerância em uma democracia, assim como a tolerância cristã à luz da Bíblia, não é sinônimo de ser acrítico. O cristão tem o direito de expressar, defender e pregar os valores bíblicos.
Tolerância cristã não é sinônimo de condescendência doutrinária, não é afrouxamento de princípios. Por isso, o cristão genuíno se opõe à agenda liberal, defende as verdades absolutas, prega a Palavra de Deus em sua inteireza e evangeliza. Ele, obviamente, é e deve ser condescendente e generoso com as pessoas, mas não condescendente no que diz respeito a relativizar os valores e princípios do Evangelho, no qual está baseada a sua fé e prática, nem deve olvidar o "Ide" (Mt 28.19,20; Mc 16.15,16), achando que evangelizar é desrespeitar a fé do outro, como tenta impor a ditadura do politicamente correto.
O cristão bíblico não é, nem em seus princípios teológicos nem em suas decisões morais, Vox populi vox Dei. Ele é Sola Scriptura. Ou, como diria John Wesley, “ele é o homem do Livro”.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

John Newton, William Wilberforce e Evan Roberts

Ano passado, postei um artigo sobre Abraham Kuyper e prometi que, breve, postaria mais textos neste blog sobre outros nomes ilustres da História. Finalmente, para cumprir minha promessa, passo a lembrar sinteticamente, nas linhas abaixo, a notável e inspiradora vida de mais três nomes de destaque dos últimos séculos da história do cristianismo: John Newton, William Wilberforce e Evan Roberts. Os dois primeiros, com a graça de Deus, obtiveram uma extraordinária conquista que completa 201 anos na semana que vem. O outro foi o instrumento divino para catalisar um avivamento que completa 100 anos: o Avivamento Galês de 1906 a 1910. Vamos a eles.

Fevereiro de 2007 foi importante para os evangélicos anglo-saxões. Na manhã de domingo, 18 de fevereiro, cristãos de todos os países de fala inglesa entoaram solenemente em suas igrejas o hino Amazing Grace (Maravilhosa Graça). É que nessa data completou-se o bicentenário da abolição da escravatura na Inglaterra, que teve como um de seus grandes nomes o autor desse célebre hino, o pastor John Newton. Por isso, 18 de fevereiro foi consagrado pelos norte-americanos e ingleses como o Amazing Grace Sunday, em ação de graças. Dias depois, a Aliança Evangélica Mundial, em parceria com a Walden Media, lançou nos EUA, Canadá e Reino Unido, o filme Amazing Grace: A História de Wilberforce, sobre a abolição da escravatura (aos interessados, o filme não foi lançado em português nem nos cinemas nem em DVD, mas o DVD da película em espanhol está disponível para venda na internet; e mais sobre ele pode ser encontrado no site oficial www.amazinggracemovie.com).
Mas, quem foram John Newton e Wilberforce? E qual a ligação de Amazing Grace com a abolição?
O hino Amazing Grace está ligado à luta pela abolição da escravatura. Antes de converter-se a Cristo, John Newton (1725-1807) gastara parte da sua vida no comércio de escravos, tendo ele próprio sido preso na África e tratado como escravo. Na viagem de regresso à Inglaterra, quando o barco quase naufragava, Newton voltou-se para Deus. Ele chamava o dia de sua conversão de “dia da minha libertação”.
Depois disso, Newton passou a ler todos os dias a Bíblia e “devorou” o livro Imitação de Cristo, de Thomás de Kempis. Também tornou-se discípulo do evangelista George Whitefield e admirador de John Wesley, fundador da Igreja Metodista. Ordenado pastor, Newton liderou a Olney Parish Church e a Saint Mary, Woolnot, em Londres. Em Olney, tornou-se amigo do poeta William Cowper. Juntos trabalharam nos cultos, em reuniões de oração e na produção de um novo hino para cada culto da comunidade. Newton compôs Amazing Grace nesse período, mais precisamente em dezembro de 1772, apresentando-o à sua congregação em 1 de janeiro de 1773.
Mas, Newton não era conhecido só pelos belos hinos e poesias. Seus sermões também eram ungidos. Foi durante a apresentação da oratória O Messias, de Haendel, em Londres, que Newton pregou uma série de sermões sobre os temas do libreto da oratória (Nascimento, Paixão, Ressurreição, Glorificação de Cristo e Juízo Final). Em um deles, um jovem recém-convertido a Cristo chamado William Willberforce (1759-1833), membro da Câmara dos Comuns desde 21 anos, procurou conselho pastoral com Newton. Influenciado pelos conselhos de Newton, Wilberforce começou a levantar-se cedo para ler a Bíblia, orar e escrever seu diário, e entendeu que Deus o chamara para lutar pelo fim da escravatura e pela reforma moral da sociedade inglesa. John Newton tornou-se sua inspiração para essa gigantesca luta. Gigantesca porque tinham contra si grandes poderes e interesses. O comércio de escravos era justificado pelo país econômica e politicamente.
Enquanto Newton e outros pregavam contra a escravatura, Wilberforce apresentava várias propostas de lei, todas rejeitadas, mas não desistiu. Ele escreveu: “A perversidade do comércio [de escravos] era tão gigantesca, tão medonha e tão irremediável, que a minha mente estava completamente preparada para a abolição. Fossem quais fossem as conseqüências. Desde então, determinei que nunca descansaria até que tivesse conseguido a abolição” (131 Christians Everyone Should Know).
De tanto insistir, o comércio de escravos foi oficialmente abolido em 1807, ano da morte de John Newton. A abolição total dos escravos, porém, ocorreu em 1833, ano da morte de Wilberforce, que também desempenhou papel fundamental na criação da British and Foreign Bible Society, em 1804, e da Church Missionary Society, em 1799. Nas palavras de Robin Furneaux, “sua mensagem era a de que não bastava professar o cristianismo, levar uma vida decente e ir à igreja aos domingos, já que o cristianismo atravessa cada aspecto, cada canto da vida cristã. A sua abordagem do cristianismo era essencialmente prática”.
No século 20, Winston Churchill ainda diria que a história não terá muitas pessoas que tenham contribuído tanto para o bem da sociedade como William Wilberforce. Não é à toa que Churchill o chamou de “a consciência da nação”.

De 1904 a 1910, o País de Gales experimentou um dos maiores avivamentos da História, que teve como principal instrumento divino o jovem pregador Evan Roberts (1879-1951). O avivamento foi tão notório que, em 1904, o famoso jornalista William Stead (1849-1912), editor de um dos principais jornais britânicos da época, o Pall Mall Gazette, publicou uma série de matérias de destaque sobre o acontecimento. Porém, até 1909, o avivamento ainda seria notícia em jornais britânicos. Foi nesse ano que um jornalista de Londres resolveu visitar Gales para ver se, cinco anos depois, o avivamento ainda estava vivo.
Ao chegar em Gales, o jornalista marcou uma entrevista com pastores de uma das primeiras cidades onde tudo começara. No encontro, um deles afirmou que, dois anos antes do avivamento, o número de crentes fiéis na cidade era quase nenhum, ao ponto de as igrejas estarem prestes a fechar. Quando o jornalista perguntou se o reavivamento já estava em declínio, eles responderam: “Sim, está. É que não existe mais ninguém aqui querendo ser salvo. Todos os habitantes da nossa cidade aceitaram Jesus durante o avivamento”.
O País de Gales foi marcado por muitos avivamentos. O primeiro foi no final do século 18, com Christmas Evans. O segundo ocorreu em 1859. No início do século 20, porém, não havia mais resquícios do grande avivamento galês. Por isso, muitos crentes daquele país começaram a orar por um reavivamento, que veio no final de 1904.
Tudo começou em 29 de setembro de 1904, quando Evan Roberts, um jovem minerador de carvão de 25 anos que estava se preparando para o ministério, e mais 19 amigos se reuniram em uma manhã para ouvir o evangelista Seth Joshua. Em sua mensagem, Joshua afirmou: “A igreja galesa precisa, acima de tudo, ser dobrada, quebrantada como argila mole nas mãos de Deus”. Aquelas palavras tocaram o coração de Evans, que prostrou-se em lágrimas clamando: “Senhor, dobra-me!” E, como escreveu alguém, “dentro de pouco tempo, a igreja galesa estava acertando seus corações com Deus. Os líderes estavam clamando a Deus. E, de repente, Deus chegou!”
O detalhe desse avivamento é que, de 1904 a 1905, temos muito pouco registro de pregação evangelística. Entretanto, nesse período, em menos de 40 dias, 20 mil pessoas vieram a Cristo. Em seis meses, esse número subiu para 100 mil. O que foi que aconteceu?
Nos contam os registros da época que o avivamento começou quando Evans deu início a reuniões de oração e passou a ensinar, insistentemente, quatro coisas, que se tornaram “Os quatro pontos do avivamento galês”: os galeses deveriam pedir perdão a Deus de seus pecados, confessar publicamente Cristo como o seu Salvador, afastar-se de tudo aquilo que desagrada a Deus e não resistir à ação do Espírito Santo. Muitos receberam essa palavra, foram restaurados espiritualmente e, através da visível transformação de suas vidas, o restante do país foi atraído a Cristo.Contam os historiadores que “as transações de jogo e álcool perderam a sua atividade e os teatros foram obrigados a fechar as portas por falta de espectadores. (...) Adolescentes, cansados de seus pais alcoólatras batendo nas mães, oravam para que os bares se fechassem. A polícia pranteava e se juntou aos cânticos – e a criminalidade quase cessou”. Em pouco tempo, todas as igrejas ficaram lotadas, de tal forma que multidões ficavam sem poder entrar. As reuniões eram das dez da manhã até à meia-noite, com três cultos bem definidos realizados todos os dias.
“Os infiéis se convertiam, beberrões, gatunos e jogadores profissionais eram salvos; e milhares voltavam a ser cidadãos respeitáveis. Confissões depecados horrendos se faziam ouvir por toda parte. Dívidas antigas eram saldadas”.
E tudo começou com oração e o ensino bíblico sobre conversão e avivamento.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Aviso aos leitores: mudança de ritmo por aqui

Queridos irmãos e amigos, a partir de hoje, mudarei um pouco o ritmo de postagens e interações minhas neste blog, como já estava ensaiando desde dezembro do ano passado. É que, além de ter retornado de vento em popa ao trabalho depois de férias que se estenderam até meados de janeiro, e além dos já tradicionais compromissos (eventos) de final de semana, minhas aulas na minha faculdade recomeçaram, e com uma carga horária cheia neste primeiro semestre, bem diferente do ano passado.
Quando comecei este blog há seis meses e oito dias, minha grade de horários na faculdade era propositalmente mais light, dando-me mais tempo para o nascente blog; e, além disso, boa parte dos artigos que postava no começo era mais sobre temas que já havia abordado antes. Portanto, textos reaproveitados. Contudo, aos poucos, pensando em atender melhor aos meus leitores, fui postando textos novos: artigos com temas mais atuais que atemporais e alguns com temas atemporais, mas inéditos da minha lavra. Além disso, algumas das minhas interações com os comentários passaram a ser, por um cuidado meu, verdadeiros “artigos”, como alguns colegas chegaram a definir. Isso porque, como vocês sabem, sempre me preocupei em dar respostas abrangentes, dando atenção às nuances de cada assunto levantado. Mania minha, excessivo cuidado meu, e que acabou virando uma marca minha no "Verba Volant Scripta Manent". Tudo isso era possível devido a um pequenino tempo disponível do qual poderia me servir para ser mais eficiente neste blog. Porém, a partir desta segunda-feira, com o reinício das minhas aulas, esse tempinho passará a ser imensamente mais raro, afetando muitas coisas por aqui.
Refiro-me tanto à quantidade de postagens minhas mensais neste blog quanto à minha assiduidade nas interações e à presença de comentários exaustivos para atender a dúvidas de leitores. E isso é válido também para os irmãos que me enviam e-mails para tirar dúvidas (recebo dezenas de e-mails desse tipo por mês). Os irmãos que me pedem orientação por e-mail, neste blog e pessoalmente (quando me encontram em algum evento Brasil afora) sabem da minha disposição e dedicação em atendê-los. Porém, não estranhem se agora demorar um pouco mais a atendê-los via e-mail ou blog, ou se, quando atendê-los, eu não puder dar a atenção dedicada que gostaria, posto que vejo-me cada vez mais sem tempo.
Em síntese, não por falta de interesse, mas, sim, por falta de tempo, eventualmente, dentro das minhas possibilidades, estarei atendendo a um ou a outro mais dedicadamente e, na maioria das vezes, estarei pelo menos indicando obras ou artigos que possam ajudá-los a tirar suas dúvidas.
Além do meu intenso e prazeroso trabalho como jornalista, que creio que a maioria de vocês conhece, agora, neste último ano da faculdade de Direito, estudo (pelo menos neste semestre) todas as noites das 19h às 23h e ainda tenho os tradicionais compromissos (eventos) no final de semana. Por isso, se me dedicasse ao blog no mesmo ritmo que estava imprimindo aqui nos primeiros quatro meses, não teria tempo para mais nada, nem para minha família (ainda bem que, na maioria dos eventos em que vou ministrar, eu e minha esposa viajamos juntos, se não pouco nos veríamos durante a semana).
Portanto, a partir de hoje, peço a compreensão dos amados irmãos, pois passarei a postar apenas um artigo por mês (o deste mês estarei postando esta semana ainda, se Deus permitir) e minhas interações com seus comentários demorarão um pouco mais a acontecer, por essas razões conjunturais já apresentadas.
Certo da compreensão de todos, desde já agradeço.
Um abraço!

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Chegou “A Sedução das Novas Teologias”!

Depois de um mês de expectativa, já está disponível para venda, a partir de hoje, o livro A Sedução das Novas Teologias – O perigo por trás de modismos como Igreja Emergente, Teologia Narrativa, Teísmo Aberto, Teologia Quântica, Ortodoxia Generosa e Evangelho da Auto-Ajuda (CPAD). Quem quiser adquiri-lo agora já pode fazê-lo ligando, de qualquer parte do Brasil, para 0800-21-7373 (de segunda a sexta, das 8h às 18h; e também aos sábados, das 8h às 15h).
Até sábado (26/01/08), o livro já estará à venda em todas as filiais da CPAD pelo Brasil. Porém, no Rio de Janeiro, ele já pode ser encontrado desde hoje (22/01/08) nas filiais de Vicente de Carvalho, Nova Iguaçu e Niterói (creio que hoje ou amanhã, também em São Paulo). Também até o final de semana, estará disponível no site da cpad (http://www.cpad.com.br) com desconto de 15%.
Pastores e seminaristas têm desconto de 20%; igrejas têm desconto de 20% (compras acima de R$ 60) a 30% (compras acima de R$ 200); e as livrarias, instituições e revendedores têm desconto de 25% a 35% (conforme tabela da CPAD). O livro está sendo oferecido por R$ 34,90.
A Sedução das Novas Teologias tem 304 páginas, formato 14cm x 21cm e 15 capítulos (além de seis apêndices), com temas como “A Igreja Emergente e seus pressupostos enganosos”, “A Teologia Narrativa e a desconstrução da Bíblia”, “O que é uma contextualização sadia?”, “Ortodoxia Generosa: novo nome para heterodoxia”, “Teologia Quântica: aplicação distorcida da Ciência à reflexão teológica”, “Teísmo Aberto: alternativa sadia ou heresia?”, “Os erros da chamada Teoria de Kenosis”, “A falácia do Evangelho da Auto-ajuda” e “Princípios para uma reflexão teológica sadia”. Estes são só alguns temas da primeira parte do livro, que fala sobre teologias pós-modernas. A segunda parte aborda os ataques do fundamentalismo liberal contra a fé cristã. Nela, você encontrará títulos como “A intolerância dos ‘tolerantes’”, “Não tenha medo de ser taxado de ‘fundamentalista cristão’” e “Só uma fé engajada e sob o poder do Espírito Santo pode impactar a sociedade”.
Já os apêndices tratam de assuntos citados de passagem no livro e que, no final, são abordados com mais dedicação: “A questão dos erros dos reformadores” (abordagem muito mais rica do que o que vimos neste blog no ano passado), “A questão ambiental: exageros e equilíbrio”, “O cristão e o aborto”, “A autenticidade histórica do Jesus da Bíblia”, “Evangelho de Judas: fraude gnóstica de 1,8 mil anos” e Quatro razões porque o Código da Vinci é um grande logro”.
No mais, que Deus continue abençoando sua vida, inclusive por meio deste livro. E desde já, boa leitura!

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Aprendendo com a Ira de Deus

É interessante como pouco ou quase nada tem sido dito em nossos dias sobre a ira de Deus. Essa é, sem dúvida, uma das razões pelas quais a qualidade da vida espiritual de boa parte dos cristãos em nossos dias é baixa.
Perceba: eu disse “uma das razões”, e não “a razão”. Isso porque, como já escrevi em Como vencer a frustração espiritual, o problema do evangelicalismo hodierno é muito mais amplo. O que precisamos não é de uma onda de pregações especificamente sobre a ira de Deus ou de uma onda de mensagens sobre um outro atributo divino olvidado para que, finalmente, muitos cristãos sejam despertados e comece um avivamento. Precisamos de toda a Palavra, de “todo o conselho de Deus” (At 20.27), e não apenas de uma faceta da verdade. Agora, pregar todo o conselho de Deus inclui, obviamente, pregar integralmente sobre Deus (lembre-se que o mesmo Jonathan Edwards que pregou o célebre sermão Pecadores nas mãos de um Deus irado também ministrou várias vezes sobre a graça divina e muitos outros temas durante o Grande Despertamento norte-americano no século 18).
“Mas já não há muita prédica sobre Deus em nossos dias?” Sim, há, mas o problema é que a maioria esmagadora desses sermões gravita em torno do que Ele faz e pode fazer, e não em torno do que Ele é. Por isso, não é à toa que vemos tantos crentes reivindicando a ação divina a todo instante, porque tudo o que sabem sobre o Senhor diz respeito exclusivamente às Suas ações. Sua relação com Ele baseia-se mais no Seu poder, no que é capaz de fazer, do que na Sua pessoa e no Seu caráter. Quando perguntamos a esses crentes “Quem é Deus?”, a situação se complica. A maioria das definições tem um conteúdo vago e contraditório, e isso é extremamente preocupante.
É preocupante porque é impossível o crente ter um relacionamento perfeito com o Criador, e conseqüentemente ter uma vida espiritual sadia, sem conhecer a natureza e o caráter divinos. Já dizia A. W. Tozer: “Se pudéssemos extrair de qualquer pessoa uma resposta completa à pergunta ‘O que lhe vem à mente quando você pensa em Deus?’, poderíamos predizer com certeza o futuro espiritual dessa pessoa”. Sem um conhecimento básico sobre o que a Bíblia ensina sobre Deus, qualquer crente pode se encontrar, de repente, adorando uma caricatura de Deus pensando que está adorando o verdadeiro Deus.
Quem não conhece plenamente quem é Deus está mais suscetível para embarcar em alguma falsa representação teológica dEle e, assim, se machucar espiritualmente. Por outro lado, quem conhece a Deus pode relacionar-se com Ele de forma correta e crescer espiritualmente. A Palavra de Deus afirma: “...mas o povo que conhece o seu Deus se tornará forte e ativo” (Dn 11.32).
O tipo de vida espiritual que muitos cristãos vivem hoje é, na maioria dos casos, justamente fruto de sua visão equivocada sobre quem é Deus. Há muitas caricaturas de Deus sendo propaladas por aí, todas bastante populares, e que têm levado inúmeros cristãos à frustração espiritual e/ou a bizarrias.
Por tudo isso, senti-me impelido a escrever este artigo sobre um dos atributos de Deus pouco abordados: a ira. E por que justamente a ira? Por dois motivos.
Primeiro, porque é extremamente impopular em nossos dias falar sobre esse atributo divino. Há até quem ache que não há valor nenhum em aprender sobe a ira de Deus. “Como aprender sobre a ira divina poderá afetar positivamente a minha vida espiritual?”
Para muitos cristãos, o amor divino é mais didático do que a ira divina, quando, na verdade, tanto um como o outro devem ser considerados, se queremos crescer espiritualmente. Não é à toa que o apóstolo Paulo assevera que devemos considerar tanto a bondade quanto a severidade de Deus, e nunca uma mais do que a outra (Rm 11.22).
E em segundo lugar, resolvi escrever sobre a ira divina porque a Bíblia a enfatiza. Se você analisar nas concordâncias bíblicas qual é o atributo de Deus mais mencionado nas Sagradas Escrituras, descobrirá que há mais referências à ira divina na Bíblia do que ao Seu amor e à Sua bondade. Isso significa que a ira de Deus é um tema importante para as Escrituras e, conclui-se, deve ser também para nós, cristãos.
Dito isso, quais são, então, as lições que aprendemos quando meditamos sobre a ira divina?
1) Concientizamo-nos mais ainda sobre a aversão que devemos ter em relação ao pecado – Estamos vivendo em uma época onde o pecado chega a ser celebrado como algo que “em certa dose é bom e saudável” (vide novelas, filmes e livros que falam sobre “a alegria” e “o prazer saudável” do pecado) ou onde, na melhor das hipóteses, ele é apresentado (às vezes sutilmente) como um detalhe de nossas vidas facilmente desculpável e com o qual não devemos nos preocupar tanto. Porém, quando meditamos na ira de Deus conforme apresentada na Bíblia, logo ficamos impressionados com o ódio que Deus tem do pecado. Portanto, meditar sobre a ira de Deus nos leva a reconsiderar o pecado, passando a enxergá-lo conforme a ótica divina.
O pecado não é algo que Deus eufemiza, minimiza ou considera de pouca importância. Deus odeia o pecado, Ele ojeriza-o. Como disse certa vez o teólogo A. W. Pink, “temos a tendência de dar pouca atenção ao pecado, encobrir sua hediondez, desculpá-lo; mas, quanto mais estudamos e pensamos no horror que Deus tem pelo pecado e Sua terrível vingança sobre ele, estaremos mais aptos a compreender a infâmia do pecado” (Os atributos de Deus, A. W. Pink).
2) A ira divina nos estimula à reverência, ao temor santo – Leia Hebreus 12.28 e 29 (muitos lêem apenas o versículo 28, esquecidos de que o versículo 29 é a continuação do raciocínio do 28). É importante dizer aqui que a reverência que devemos ter em relação a Deus não deve estar baseada em mero medo. A Bíblia mostra-nos que a reverência sadia a Deus é fruto (a) do nosso amor a Ele e (b) do reconhecimento que temos de Seus sentimentos sérios em relação ao que é certo (amor e apreço) e ao que é errado (ira e ojeriza). São esses dois elementos os ingredientes da reverência ao Senhor. Volto a lembrar o que disse Paulo: devemos considerar tanto a bondade quanto a severidade de Deus, ou seja, tanto Seu amor quanto a Sua ira. Só a bondade sem a severidade nos leva a adorar um deus bonachão. Só a severidade sem a bondade nos leva a servirmos a um deus carrasco. Já a bondade com a severidade nos aponta para o Deus da Bíblia.
3) A ira divina nos leva ao grato e fervente louvor pelo sacrifício de Cristo na cruz – O peso dos nossos pecados sobre Cristo é melhor compreendido quando meditamos sobre a ira divina. Jesus levou sobre si os nossos pecados, sofreu o castigo divino por eles, foi esmagado pelo peso da ira divina por todas as nossas faltas (Is 53); e em 1 Tessalonicenses 1.10, o apóstolo Paulo ainda ressalta que Jesus nos livra da “ira vindoura”.
Em várias passagens do Novo Testamento e do livro de Salmos, Deus é louvado pela Sua misericórdia que nos livra do peso da Sua ira, da destruição, do castigo, etc. Ou seja, meditar sobre a ira divina nos leva a considerar e reconhecer mais ainda a importância da graça e do favor do Senhor. Sem Sua misericórdia, seríamos destruídos (Lm 3.22,23).
Concluindo, volto a enfatizar que há outras facetas do caráter e da natureza de Deus que igualmente não devem ser relegadas. A ira de Deus é só um dos muitos aspectos que não devem ser esquecidos - e que, quando evocado, salienta ainda mais a importância do amor de Deus. Quem entende isso pode, c
omo o apóstolo João em Apocalipse, olhar para o poderoso e temível Leão da Tribo de Judá e ver o humilde Cordeiro assentado sobre o trono (Ap 5.5,6). Sim, porque o Cordeiro é o Leão, e o Leão é o Cordeiro.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A Sedução das Novas Teologias

É com preocupação que constatamos que a pós-modernidade está afetando negativamente a reflexão teológica do meio evangélico no exterior e, agora, também no Brasil. Tendências pós-modernas como a frustração-aversão a todo tipo de instituição, a relativização e a fluidificação de valores já estão, há alguns anos, influenciando a teologia que vemos nos púlpitos, livros e seminários em nosso país. Este é um assunto, sem dúvida, premente em nossos dias.
No Brasil, já começam a ser publicados por editoras evangélicas livros de pensadores cristãos liberais que são apresentados como sendo o que há de melhor na reflexão teológica hodierna, mas que nada mais são do que o velho liberalismo teológico alemão ressuscitado e apresentado em uma roupagem nova e mais atraente, e por isso cada vez mais popular. Sua expansão é fomentada pelo crescente número de cristãos frustrados com o cristianismo organizado (devido a recentes escândalos e aos terríveis e crescentes modismos neopentecostais) e pela capa de piedade e “nova espiritualidade” que a nova versão do liberalismo tem adotado, enredando facilmente muitos desavisados. Por tudo isso, essa nova teologia é vista como uma alternativa saudável, quando, na verdade, é um pulo de um extremo para o outro.
O velho liberalismo teológico alemão tem hoje como seus maiores porta-vozes pensadores e teólogos evangélicos norte-americanos da chamada “esquerda evangélica dos EUA”. Estes ganharam espaço e voz no meio evangélico brasileiro recentemente durante a onda de antipatia que a opinião pública mundial manifestou em relação à denominada “direita evangélica dos EUA” devido ao apoio que esta deu ao presidente Bush em sua eleição e reeleição. Constrangidos por esse apoio, alguns cristãos no Brasil resolveram aproximar-se do conteúdo doutrinário da esquerda evangélica dos EUA e acabaram absorvendo seus posicionamentos heterodoxos, que ferem frontalmente a integridade da Doutrina Bíblica.
Iludidos pelo discurso com apelo emocional que a “versão 2001” do liberalismo se utiliza, muitos desses evangélicos passaram a adotar posicionamentos teológicos claramente liberais sem perceberem. Sim, porque poucos se dão conta de que os posicionamentos que adotaram são o velho liberalismo teológico respondendo agora pelos nomes mais atraentes de Ortodoxia Generosa, Teologia Narrativa, Teísmo Aberto (ou Teologia Relacional), Teoria de Kenosis (criada no século 19, na Inglaterra, e que interpreta equivocadamente como se deu a kenosis de Jesus) e Teologia Quântica. Outro conceito popular é o da “Igreja Emergente” como sendo a face verdadeiramente sadia do cristianismo em nossos dias e apresentada como uma proposta cristã muito mais coerente diante da atual conjuntura social, filosófica e cultural na qual vivemos.
Outro tema preocupante é a onda fundamentalista liberal que tem se levantado contra os valores cristãos no Ocidente, propondo mudanças que objetivam amordaçar o que ainda resta do genuíno cristianismo. Ou seja, como se não bastassem os problemas de dentro (os modismos neopentecostais, a nova face do liberalismo, etc), temos ainda os problemas de fora.
Enfim, estamos em um momento crítico, o que significa que precisamos mais do que nunca tomar posição e buscarmos de Deus um avivamento, mas um avivamento genuíno, à luz das Sagradas Escrituras.
Tal reflexão impulsionou-me a ir além da pregação e escrever mais um livro. Pela graça de Deus, abordo todos esses importantes assuntos em meu mais recente livro – A Sedução das Novas Teologias: o que está por trás de modismos como Igreja Emergente, Ortodoxia Generosa, Teísmo Aberto, Teologia Narrativa e Teologia Quântica (CPAD). Alguns desses temas já foram abordados neste blog (no caso, Teísmo Aberto e Teoria de Kenosis), porém timidamente, enquanto no livro dedico dezenas de páginas a cada assunto. Ao todo, são cerca de 300 páginas onde os equívocos do neoliberalismo teológico e do fundamentalismo liberal são desnudados e confrontados. Creio que este livro será uma bênção para a sua vida como foi para mim ao escrevê-lo.
E pela relevância dos temas abordados, aproveito para incentivar os queridos leitores deste blog a divulgarem esta obra para que o maior número possível de pessoas sejam alcançadas, despertadas e alertadas no Brasil sobre os perigos da atual onda de modismos neoliberais teológicos que chegam à nossa nação.
O livro estará à disposição em meados de janeiro. Quem estiver interessado em adquiri-lo poderá fazê-lo não apenas nas lojas evangélicas pelo Brasil, mas também pelo 0800-21-7373. Você poderá adquiri-lo também, e com desconto, no site da CPAD (http://www.cpad.com.br/).
Aproveito esta postagem para desejar a todos os leitores do Verba volant, scripta manent um 2008 recheado das bênçãos de Deus. Um abraço a todos!
(P.S.: Estes votos de um feliz 2008 não significam uma sinalização de recesso por aqui. A todos os interessados, continuarei a postos respondendo aos comentários que me forem enviados. Se demorar um pouco a responder, é devido à conjuntura natural de final de ano, que diminui nossa frequência na blogosfera. Mas podem estar certos de que todos que postarem comentários aqui serão, espaçada ou brevemente, atendidos)

domingo, 25 de novembro de 2007

Uma palavra sobre os erros dos reformadores

(Na ilustração acima, aparecem, da esquerda para a direita, Teodoro Beza, Calvino, John Wycliffe, Zwinglius, Bucer, Lutero, Melanchton e John Huss)
Encerrando finalmente nossa série de três artigos sobre a Reforma, segue, como prometido, nosso artigo sobre os erros dos reformadores. A demora se deveu ao fato de que estava extremamente ocupado nas revisões do meu próximo livro a ser lançado (e que breve estarei divulgando neste blog).
Bem, à guisa de introdução, é importante dizer, em primeiro lugar, que algumas das colocações aqui apresentadas não se constituem novidade para os leitores deste blog, uma vez que, durante os debates nos comentários sobre as duas primeiras postagens sobre os 490 anos da Reforma, acabamos naturalmente adiantando um pouco do assunto.
Um outro detalhe é que preferi, em vez de falar sobre todos os erros dos reformadores, apresentar um explicação geral para todos os casos. É que percebi que falar de todos eles exigiria, na verdade, mais de um artigo – creio que pelo menos umas dez postagens seriam necessárias. Além disso, qualquer caso específico pode ser sugerido e explorado pelos leitores nos comentários e, na medida do possível, iremos atender a todos. É mais prático assim.

Equívocos quanto à Reforma

Há dois tipos de equívocos muito recorrentes em pessoas que entram em contato com a história da Reforma Protestante.
O primeiro equívoco é o de querer ver apenas os acertos dos reformadores, olvidando seus erros. Quem age assim cria uma visão romântica da Reforma, e não uma visão realista. E isso é ruim por duas razões.
Inicialmente, porque olhar para o passado da Igreja é bom não apenas porque aprendemos com os acertos, mas também porque aprendemos com os erros de grandes homens de Deus. E em segundo lugar, porque a visão realista não diminui a importância da Reforma, mas, muito pelo contrário, mostra-nos quão terrível seria se a Reforma não tivesse acontecido. Sim, pois, ao analisarmos os erros dos reformadores, logo percebemos que eram frutos da influência do contexto cultural de sua época sobre eles, e a Reforma, como sabemos, propunha exatamente a transcendência dos princípios bíblicos sobre a tradição e a cultura de qualquer época. Ou seja, seus erros realçam ainda mais a importância dos primeiros passos que deram sob a graça de Deus, pois mostram que, apesar de seus esforços, como seres humanos falhos que eram (assim como nós hoje somos), os próprios reformadores não conseguiram vencer e transcender totalmente os vícios de sua cultura. Porém, abriram a porta e estabeleceram as bases precisas para o início da mudança.
Ou seja, os erros dos reformadores, que não devem ser olvidados, só valorizam mais ainda suas conquistas. À luz dos seus erros, percebemos que os passos que deram foram hercúleos. Devido ao seu contexto, foram conquistas tremendas.
A Reforma partiu da redescoberta da Bíblia. Ela pregou a volta às Escrituras, o que fez com que fossem defendidos princípios que se opunham à realidade cultural da época dos reformadores. Como conseqüência, em sua volta à Palavra, os reformadores acabaram chocando a sociedade quando encarnaram princípios bíblicos que estavam frontalmente em contraposição ao contexto político, religioso e social de seus dias. Por exemplo: a luta contra a supersticiosidade religiosa; a visão do sexo como uma bênção de Deus e a condenação apenas do sexo ilícito à luz da Bíblia (A Igreja Católica tinha uma visão de quanto mais sexo, menos santidade; e quanto menos sexo, mais santidade. A Reforma condenou e combateu essa visão); a preocupação com a educação do povo, a música e a literatura; e o resgate de mulheres da prostituição para a vida familiar (A Igreja Católica medieval “tolerava a prostituição, porque seus valores de gênero denegriam o sexo e também porque supunha que o desejo masculino fosse uma força anárquica e incontrolável que, sem um meio de descarga, macularia as mulheres respeitáveis da cidade. (...) Foi a Reforma que impeliu o fechamento dos bordéis” – As Reformas na Europa, Carter Lindberg, Sinodal, 2001).
Inúmeros outros exemplos de posicionamentos além de seu tempo, baseados na redescoberta da Bíblia, poderiam ser citados. Esses posicionamentos só foram possíveis por causa da visão de Sola Scriptura dos reformadores. Porém, como a Reforma foi apenas o começo dessa redescoberta, não poderíamos ser tão ingênuos de pensar que todos os vícios culturais da época dos reformadores foram rejeitados. Os reformadores nasceram e cresceram dentro daquela cultura medieval e tiveram seu pensamento impregnado desde cedo com a mentalidade de sua época. Por isso, em sua trajetória de vida, por terem nascido e crescido dentro daquela cultura, não conseguiram transcender todos os aspectos culturais de seu tempo, cometendo erros.
Muitos que criticam os reformadores se esquecem que se tivessem nascido e crescido no mesmo contexto cultural deles, teriam 90% de chances de fazer o mesmo ou até pior.
Os reformadores deram apenas os primeiros (e grandes) passos rumo à mudança. Por isso, seus erros, resultantes da influência do seu contexto cultural, só reforçam o quanto a Reforma foi importante. Os poucos avanços que eles deram, dentro do e apesar do seu contexto histórico, só nos devem levar a valorizar mais ainda o que fizeram pela graça de Deus. O que seria das gerações seguintes sem a Reforma?
O segundo grande equívoco recorrente é o de estereotipar os reformadores a partir de seus erros, às vezes até diminuindo a importância de seu trabalho e ministério por causa de seus erros.
Ora, a História não deve ser apenas contada, mas também interpretada, e sempre à luz do contexto a partir do qual cada história da História ocorreu. Os que a contam sem analisá-la ou sem mencionar o contexto de cada fato (citando-o apenas isoladamente) o fazem, não poucas vezes, imbuídos de determinados interesses. E isso é extremamente desonesto. É assim que se distorcem histórias. É assim que se distorce a História.
Nessa época de Pós-modernidade, a moda, como já falamos, é destruir, desconstruir, fluidificar, relativizar. Quando alguns citam os erros dos reformadores e os enfatizam sem atentar para o contexto histórico, sem analisar todas as nuances dos fatos, é porque querem que relativizemos a Reforma e, assim, deixemos de ver os postulados da Reforma como importantes.
O argumento usado geralmente é o que se segue: “Você é tão apegado aos princípios da Reforma? Você admira os reformadores? Então deixa eu te mostrar isso... Você sabia que Lutero disse isso? Você sabia que Calvino disse aquilo? Viu? Será que, depois disso, você vai admirar tantos os reformadores e a Reforma como antes? Será que gente que chegou a fazer isso e a dizer aquilo também não pode ter errado ao propor alguns princípios?”
Não é à toa que alguns cristãos, influenciados pela pós-modernidade, desprezam todos os princípios solas da Reforma, e com destaque para o Sola Scriptura (“Somente as Escrituras”), o que chamam de “bibliolatria”. Muitos deles nem consideram a Bíblia autoritativa.

Análise honesta

Falta honestidade nas análises que alguns fazem dos erros dos reformadores. Duas nuances, por exemplo, são completamente ignoradas.
Em primeiro lugar, lembremos que os reformadores não eram super-homens espirituais, assim como Abraão, Isaque, Jacó, Elias, Davi, Salomão e outros servos de Deus no passado não eram. Todos estes que citei tiveram falhas, umas maiores, outras menores, mas todos tiveram. E sabe qual é uma das coisas mais lindas na Bíblia? É que ela não esconde as falhas dos heróis da fé. Já imaginou se escondesse? Se ela o fizesse, ao lermos a história dos homens de Deus na Bíblia, diríamos: “Meu Deus, eles eram tão perfeitos! Não há como eu poder ser usado por Ti como eles foram, pois sou tão falho...”
Graças a Deus por não esconder as falhas dos heróis bíblicos! Graças a Deus por ela mostrá-los como eles realmente são! Diferentemente do que faziam os historiadores das nações da Antiguidade. Estes eram funcionários do reino e, por isso, tão tendenciosos que a maioria deles escondia todas as falhas dos reis, exaltava só as virtudes e ainda escondia relatos de derrotas em guerras contra outras nações. Esses funcionários relatavam só as vitórias. Por isso, para saber a verdade sobre determinados povos da Antiguidade, os historiadores modernos tiveram, em muitos casos, de comparar o que historiadores coetâneos de nações inimigas diziam sobre aqueles reis.
A Bíblia, porém, não mente, não camufla. Deus não dá “jeitinho” para ninguém. A Bíblia não esconde os erros dos heróis da fé. Ela mostra o ser humano como ele é, falho e extremamente necessitado e dependente da graça, da misericórdia e do perdão de Deus para ser restaurado, abençoado e se tornar uma bênção.
Enfim, ao mostrar os heróis da fé com suas falhas, a Bíblia nos ensina que Deus não faz a obra simplesmente através de nós. Ele faz Sua obra através de nós e apesar de nós, ou seja, apesar de nossas falhas. Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e pôde ser usado por Deus como foi (Tg 5.17). Davi foi tremendamente falho, mas se arrependeu e pôde ser usado por Deus como foi. Nós somos falhos, mas podemos ser usados por Deus apesar de nossas fraquezas.
Então, não precisamos olhar para a Reforma para aprender que homens de Deus podem falhar. Basta lermos a Bíblia. Quem lê a Bíblia não se impressiona com a fraqueza humana, mesmo nos filhos de Deus.
Agora, em segundo lugar, devemos aprender a fazer distinção entre os que erram por fraqueza (como os reformadores) e os que erram por falta de conversão mesmo, porque são ímpios travestidos de cristãos (aqueles que demonstravam viver divorciados dos princípios do Evangelho e ainda fizeram atrocidades em cima de atrocidades em nome de Deus). No primeiro caso, não devemos ignorar os erros, mas também não devemos comprometer toda a obra de uma vida dedicada ao Senhor por causa desses erros isolados. Lutero, Calvino e outros foram grandes homens, apesar de suas terríveis falhas. Já no segundo caso, devemos rechaçar esses falsos irmãos, que dizem que estão no Evangelho, mas o Evangelho não está realmente neles. Estes podem não se envergonhar do Evangelho, mas ele se envergonha deles.
Enfim, aprendamos com os erros e acertos dos reformadores. Seus erros pontuais não devem ser esquecidos por terem sido apenas pontuais, mas também não devem ser usados desonestamente para diminuir a importância do que fizeram sob a graça e a inspiração divinas.
E uma última reflexão: assim como os erros cometidos no passado por célebres homens de Deus foram quase sempre frutos da influência do contexto histórico de suas épocas sobre eles, muitos cristãos repetem esse erro hoje quando se deixam influenciar pelo atual contexto histórico, pelos princípios da Pós-modernidade, na formação de sua mentalidade. Aprender com os erros dos reformadores e com o Sola Scriptura nos leva a não cometermos os erros desses cristãos de hoje.